Insetos Sociais e Democracia Natural
Democracia Natural: insetos sociais revelam sistemas de organização impressionantemente complexos. Tomam decisões coletivas com precisão notável. Por isso, estudar colmeias, formigueiros e cupinzeiros ilumina os princípios de uma verdadeira democracia natural.

Insetos Sociais e Democracia Natural: decisões na colmeia e além
9/7/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Ao observar uma colmeia em plena atividade, é difícil não se impressionar com a harmonia aparente entre milhares de indivíduos. Apesar da ausência de líderes formais ou de estruturas hierárquicas centralizadas, decisões complexas são tomadas com eficácia surpreendente. Embora muitas espécies animais apresentem formas de organização coletiva, os insetos sociais – especialmente abelhas, formigas e cupins – revelam uma forma de inteligência coletiva que vem inspirando cientistas, engenheiros e até teóricos políticos. De fato, a chamada “democracia natural” emerge desses sistemas biológicos, desafiando noções tradicionais de comando e controle.

Nas sociedades de abelhas melíferas (Apis mellifera), por exemplo, a escolha de um novo local para a colônia não é ditada por uma única abelha rainha. Em vez disso, abelhas exploradoras realizam voos de reconhecimento, retornam à colmeia e realizam uma dança – a dança do abanico – que comunica a qualidade do local descoberto (Seeley, 2010). Outras abelhas avaliam essas informações e, com o tempo, ocorre um processo de consenso. Quanto mais vantajoso o local, mais intensa e frequente é a dança, o que atrai mais apoiadoras. Eventualmente, um local recebe apoio majoritário, e toda a colônia migra. Trata-se de uma decisão distribuída, eficiente e descentralizada.
Democracia das abelhas

Decerto esse processo, estudado por Thomas D. Seeley e colaboradores, tem sido chamado de “democracia das abelhas” (honeybee democracy), e envolve características como diversidade de opiniões, independência de julgamento, descentralização e mecanismos confiáveis de agregação de informação (Seeley, 2010; Passino et al., 2008). Assim sendo, tais princípios coincidem, curiosamente, com os fundamentos teóricos das democracias humanas descritas por autores como Surowiecki (2004) em “The Wisdom of Crowds”.
A saber, formigas também oferecem exemplos intrigantes. Por exemplo, em colônias de Temnothorax albipennis, decisões sobre realocação são tomadas de modo semelhante às abelhas. As operárias exploradoras avaliam diversos locais potenciais, retornam ao ninho e recrutam outras através do toque antenal e transporte direto. Desse modo, quando um número crítico de formigas se reúne em um novo local – o chamado limiar de quorum – a mudança em massa é desencadeada (Pratt et al., 2002). Essa estratégia evita decisões precipitadas e garante precisão, mesmo diante de múltiplas alternativas.

Além disso, a robustez do sistema aumenta quando há diversidade de perspectivas. Em colônias mistas de formigas com experiência e inexperiência distintas, a presença de exploradoras experientes melhora significativamente a qualidade da decisão coletiva (Franks et al., 2003). Nesse contexto, a descentralização não leva à desordem, mas à eficiência.
Decisões e resolução de problemas
Outro exemplo fascinante vem dos cupins. Embora sua estrutura altamente organizada, bem como a divisão rígida de tarefas, a construção dos ninhos envolve interações locais entre indivíduos que obedecem a regras simples. Dessa forma as estruturas arquitetônicas complexas resultam de um processo conhecido como estigmergia – em que uma ação individual modifica o ambiente e influencia o comportamento dos demais (Grassé, 1959; Theraulaz & Bonabeau, 1999). Essa forma de coordenação indireta é outra faceta da democracia natural: sem chefes, mas com resultados altamente organizados.

Ainda mais impressionante é o fato de que essas decisões são frequentemente superiores às escolhas feitas por especialistas humanos, em contextos análogos. Nesse sentido, em experimentos comparando decisões de colônias com algoritmos computacionais, os insetos frequentemente se mostraram mais eficazes na resolução de problemas complexos, como navegação em ambientes incertos ou otimização de caminhos (Garnier et al., 2007).
Mas o que torna esse modelo tão eficaz? Primeiramente, a ausência de uma autoridade central impede erros sistemáticos. Quando todos contribuem com informações parciais, a probabilidade de vieses se dilui. Em segundo lugar, o sistema é resiliente: mesmo se parte do grupo falhar, a decisão coletiva pode se manter funcional. Além disso, o consenso só é atingido quando há evidência suficiente, evitando decisões precipitadas.
“A colaboração é a essência da vida. O vento, as abelhas e as flores trabalham juntos para espalhar o pólen.”
Amit Ray, autor indiano
Inteligência coletiva
Ao contrário do que se poderia supor, não há necessidade de consciência individual para que surja inteligência coletiva. A cognição do grupo emerge da interação entre regras simples, comunicação eficaz e experimentação constante. Nesse sentido, insetos sociais demonstram que o todo pode ser mais do que a soma das partes, mesmo sem liderança explícita.

Portanto, ao estudarmos essas sociedades, não estamos apenas admirando sua biologia. Certamente estamos também desvendando princípios universais de organização, aplicáveis à robótica, à política, à economia e ao design de sistemas complexos. Assim, modelos inspirados em colônias de formigas e abelhas já foram empregados em algoritmos de roteamento de redes, gestão de tráfego urbano e inteligência artificial distribuída (Dorigo & Stützle, 2004).
Enfim, em tempos de crises de confiança nas democracias humanas, a observação dos insetos sociais oferece um sopro de inspiração. Eles nos mostram que decisões eficazes podem emergir sem líderes autoritários, desde que haja diversidade, comunicação transparente e mecanismos de validação coletiva. A natureza, mais uma vez, nos oferece lições valiosas.
Fontes e referências:
- Seeley, T. D. (2010). Honeybee Democracy. Princeton University Press.
- Passino, K. M., Seeley, T. D., & Visscher, P. K. (2008). Swarm cognition in honey bees. Behavioral Ecology and Sociobiology, 62, 401–414.
- Pratt, S. C., Mallon, E. B., Sumpter, D. J. T., & Franks, N. R. (2002). Quorum sensing, recruitment, and collective decision-making during colony emigration by the ant Leptothorax albipennis. Behavioral Ecology and Sociobiology, 52, 117–127.
- Franks, N. R., Mallon, E. B., Bray, H. E., Hamilton, M. J., & Mischler, T. C. (2003). Strategies for choosing between alternatives with different attributes: exemplified by house-hunting ants. Animal Behaviour, 65(1), 215–223.
- Grassé, P. P. (1959). La reconstruction du nid et les coordinations interindividuelles chez Bellicositermes natalensis et Cubitermes sp.. Insectes Sociaux, 6(1), 41–80.
- Theraulaz, G., & Bonabeau, E. (1999). A brief history of stigmergy. Artificial Life, 5(2), 97–116. https://doi.org/10.1162/106454699568700
- Garnier, S., Gautrais, J., & Theraulaz, G. (2007). The biological principles of swarm intelligence. Swarm Intelligence, 1, 3–31.
- Dorigo, M., & Stützle, T. (2004). Ant Colony Optimization. MIT Press.










