A Vida nas Fossas Oceânicas
A Vida nas Fossas Oceânicas: embora muitas regiões da Terra já tenham sido amplamente exploradas, as fossas oceânicas permanecem como uma das últimas fronteiras da biologia. De fato, mesmo sob pressão extrema e total escuridão, formas de vida surpreendentes prosperam. Assim, investigar esses abismos revela não apenas adaptação, mas também resistência e inovação evolutiva.

A Vida nas Fossas Oceânicas: jogando luz na escuridão
25/7/2025 :: Por Marco Pozzana, biólogo
Abaixo dos limites onde a luz jamais chega, jaz um dos ambientes mais extremos da Terra: as fossas oceânicas. Embora essas profundezas sejam consideradas inóspitas, a ciência tem revelado ali uma biodiversidade surpreendente. Entre pressão esmagadora, frio extremo e escuridão absoluta, organismos adaptados de forma notável constroem ecossistemas desconhecidos — e ainda em grande parte inexplorados.

Uma fossa oceânica, por definição, é uma depressão longa, estreita e extremamente profunda no fundo do oceano. Ela se forma, sobretudo, quando uma placa tectônica mergulha sob outra, processo conhecido como subducção. Por isso, essas regiões estão entre as mais inóspitas da crosta terrestre. A mais conhecida, a Fossa das Marianas, atinge 10.984 metros de profundidade. Nesses ambientes, a pressão ultrapassa mil atmosferas, ou seja, mais de mil vezes a pressão ao nível do mar. Ainda assim, a vida floresce.
Com efeito, a diversidade biológica nas fossas abissais tem surpreendido os cientistas. Ainda que a luz solar não penetre, muitas espécies desenvolveram estratégias de sobrevivência únicas. Por exemplo, organismos quimiossintetizantes utilizam compostos inorgânicos — como o sulfeto de hidrogênio — para gerar energia, substituindo a fotossíntese (Thurber et al., 2014). Assim, comunidades inteiras se organizam em ambientes como fontes hidrotermais.

Além disso, espécies abissais possuem adaptações fisiológicas notáveis. Muitos peixes das profundezas têm ossos menos calcificados e tecidos gelatinosos, o que lhes permite resistir à alta pressão (Gerringer et al., 2021). Alguns, como o Pseudoliparis swirei, um peixe-lapa encontrado na Fossa das Marianas, vivem a mais de 8.000 metros de profundidade — onde quase nenhum outro vertebrado sobrevive.

“Explorar as profundezas é como visitar outro mundo — e, no entanto, está aqui, nas entranhas do nosso próprio planeta.”
— James Cameron, cineasta e explorador após atingir o fundo da Fossa das Marianas
A vida nas fossas: a última fronteira
Entretanto, a vida nas fossas não se restringe apenas a vertebrados. Invertebrados como anfípodes, equinodermos e cnidários abissais dominam o fundo marinho. Diversas espécies de crustáceos e vermes também se alimentam da “neve marinha”, um fluxo constante de matéria orgânica que desce das camadas superiores do oceano. Embora esse alimento seja escasso e esporádico, sua importância é indispensável na manutenção da cadeia trófica.

Por outro lado, o acesso às fossas oceânicas ainda é um grande desafio técnico. Apenas veículos submersíveis especialmente adaptados — como o DSV Limiting Factor e o histórico Trieste — conseguiram alcançar o fundo dessas regiões. Como resultado, menos de 5% do fundo abissal foi explorado diretamente (National Oceanic and Atmospheric Administration, 2023). No entanto, tecnologias recentes têm ampliado as possibilidades de mapeamento e coleta de amostras.

De forma preocupante, embora as fossas parecessem isoladas, já mostram sinais de impactos humanos. Resíduos plásticos, metais pesados e microplásticos foram detectados no trato digestivo de organismos abissais, mesmo nos pontos mais remotos. Isso evidencia que nenhuma região do planeta está imune à ação antrópica, o que impõe urgência a ações de preservação.
“Nas fossas oceânicas, a vida não apenas resiste — ela floresce, em silêncio, sob pressões que esmagariam qualquer certeza.”
— Alan Jamieson, biólogo marinho
Além disso, as fossas oceânicas guardam segredos evolutivos. Muitos organismos que ali vivem apresentam linhagens genéticas distintas, separadas há milhões de anos de outras formas de vida marinha. Assim, o estudo desses ecossistemas oferece pistas valiosas sobre os mecanismos da adaptação, especiação e resistência fisiológica.

Além das fossas: oceano deve ser explorado cientificamente
Curiosamente, essas profundezas também têm valor para a biotecnologia. Compostos bioativos encontrados em microrganismos abissais têm mostrado potencial para uso farmacêutico e industrial. Enzimas resistentes à pressão e ao frio, por exemplo, podem ser úteis em processos biotecnológicos extremos (Danovaro et al., 2020). Portanto, preservar esses ecossistemas não é apenas uma questão ética, mas também estratégica.
Do ponto de vista ecológico, as fossas funcionam como depósitos de carbono e matéria orgânica. Muitos organismos abissais capturam carbono em seus tecidos, contribuindo para o ciclo global. Assim, apesar da aparente desconexão com o restante da biosfera, essas regiões participam ativamente dos equilíbrios planetários.

Com o intuito de investigar formas de vida em regiões com profundidade extrema, o Dr. Bruce H. Robison, renomado biólogo e ecologista do Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI) na Califórnia se lança nas profundezas. Ele afirma: “Nós apenas começamos a explorar e continuamos a achar novas descobertas, toda vez que vamos ao oceano”. Ao propósito, é possível conferir o Dr. Bruce juntamente com outros cientistas no documentário Deep Ocean | Life in the Abyss, narrado por sir David Attenborough.

Assim sendo, estima-se que milhares de organismos ainda estejam por ser catalogados. Desse modo, a vida nas fossas ou em grandes profundidades desafia tanto a biologia quanto a imaginação. Cada nova descoberta reforça a ideia de que a Terra ainda guarda vastos mistérios e a importância de estudar e preservar esses ecossistemas únicos.
Em resumo, as fossas oceânicas revelam a resiliência da vida em condições extremas. Entre o silêncio, a escuridão e a pressão descomunal, organismos complexos seguem seus ciclos com precisão. Proteger esses ambientes é preservar uma fronteira biológica singular — e, ao mesmo tempo, um legado evolutivo que pertence a toda a humanidade.
Fontes e referências:
- Alfaro-Núñez, A., Astorga, D., Cáceres-Farías, L. et al. Microplastic pollution in seawater and marine organisms across the Tropical Eastern Pacific and Galápagos. Sci Rep 11, 6424 (2021). https://doi.org/10.1038/s41598-021-85939-3
- Danovaro, R., Dell’Anno, A., Corinaldesi, C., et al. (2020). Deep-Sea Biodiversity and Ecosystem Functioning: A Synthesis of Global Patterns. Nature Ecology & Evolution, 4, 181–192. DOI:10.1016/j.cub.2007.11.060
- Gerringer, M. E., Linley, T. D., Jamieson, A. J. (2021). High-Pressure Adaptations in Deep-Sea Fish. Journal of Experimental Biology, 224(1), jeb236562.
- National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). (2023). Exploration of the Mariana Trench: Deepest Part of the World’s Oceans. https://oceanexplorer.noaa.gov
- Thurber, A. R., Sweetman, A. K., Narayanaswamy, B. E., et al. (2014). Ecosystem Function and Services Provided by the Deep Sea. Biogeosciences, 11(14), 3941–3963. https://doi.org/10.5194/bg-11-3941-2014










