Reflexões sobre o Dia do Professor: em 15 de outubro celebramos aqueles que cultivam o solo fértil do saber e mantêm viva a curiosidade humana. Para os biólogos que ensinam, esse dia simboliza também o compromisso com a continuidade da vida e da ciência.
Reflexões biológicas sobre o Dia do Professor
15/10/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
Todo 15 de outubro convida à reflexão sobre o papel transformador do professor. Embora se trate de uma celebração voltada a todos os que dedicam a vida ao ensino, ela adquire um significado especial quando pensamos nos biólogos que também se tornam educadores.
Em salas de aula, laboratórios ou trilhas ecológicas, eles semeiam curiosidade e despertam a consciência sobre o valor da vida. A docência, nesse sentido, torna-se uma extensão natural da biologia: compartilham o desejo de compreender e transmitir as conexões que sustentam o mundo vivo.
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Assim como um ecossistema depende da diversidade de espécies para manter o equilíbrio, a sociedade precisa de professores para nutrir a pluralidade do pensamento. Cada aula, cada explicação paciente, cada olhar atento sobre um aluno curioso representa uma forma de crescimento intelectual. O professor não apenas transmite informações, mas cria condições para que o conhecimento floresça — e, como nas florestas tropicais, a fertilidade desse solo depende do cuidado contínuo.
Biólogos que ensinam não são apenas mediadores entre ciência e aluno. Ao explicar a fotossíntese, o ciclo da água ou o comportamento animal, revelam não apenas processos, mas histórias de sobrevivência, adaptação e interdependência. É essa sensibilidade ecológica que torna o ensino biológico um gesto de amor ao planeta e ao futuro.
“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção.”
— Paulo Freire
A docência como ecossistema vivo – uma analogia
O ato de ensinar é, em si, um fenômeno biológico. Envolve memória, emoção, comunicação e reciprocidade — processos que também regem a dinâmica da vida. Em uma sala de aula, por exemplo, circulam ideias como em um rio; há fluxo, trocas, absorção e perda. O professor age como uma força de equilíbrio, estimulando o crescimento de mentes jovens enquanto aprende, ele mesmo, com a diversidade intelectual de seus alunos.
Na biologia, sabemos que toda espécie exerce um papel ecológico. O professor, então, é um “engenheiro de ecossistemas mentais”: altera paisagens mentais, favorece o florescimento de habilidades e influencia gerações que, por sua vez, moldarão o ambiente social e natural. Em muitos casos, o trabalho do educador é invisível, como o das micorrizas que alimentam as árvores por baixo do solo. Contudo, sem essa “rede subterrânea de saber”, nenhuma “floresta humana” permaneceria de pé.
Além disso, ensinar biologia significa lidar com a própria natureza da curiosidade. O professor desperta no aluno a capacidade de observar, questionar e compreender fenômenos complexos — qualidades essenciais à sustentabilidade e à ética ambiental. Em tempos de negacionismo científico e crise ecológica, o educador torna-se uma espécie de resistência evolutiva, preservando o valor da razão e o respeito à evidência. Como observou Paulo Freire (1996), “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção”.
“Os professores inspiram, os mestres transformam.”
— Willian Arthur Ward, escritor norte-americano
Herdeiros de uma longa linhagem
Os professores pertencem a uma linhagem ancestral. Desde os primeiros naturalistas que ensinaram ao ar livre até os cientistas que hoje ocupam salas virtuais, há um fio que une a curiosidade humana à vocação pedagógica. Gregor Mendel, por exemplo, era monge e professor: sua paciência em cultivar ervilhas não foi apenas científica, mas profundamente educativa. Charles Darwin, ao relatar suas descobertas, também ensinava — não apenas aos colegas cientistas, mas a toda a humanidade — a importância de compreender a vida em sua complexidade.
Entre os biólogos contemporâneos, muitos seguem esse mesmo caminho: pesquisam e, simultaneamente, educam. A sala de aula se torna extensão do campo, e o campo, uma sala sem paredes. A fronteira entre aprender e ensinar dissolve-se, dando origem a uma experiência dinâmica, em que ambos os lados crescem. A docência, assim, é essencial para a ciência.
Celebrar o Dia do Professor é, portanto, celebrar a continuidade da vida do conhecimento. É reconhecer que, tal como a fotossíntese sustenta os ecossistemas, o ensino sustenta as sociedades. E, se a biologia nos ensina algo, é que nenhum ser — nem mesmo o mais forte — sobrevive isolado. O saber, como a biodiversidade, só prospera quando compartilhado.
O professor é, enfim, um “jardineiro da mente humana”. Nesse sentido, planta ideias, cultiva dúvidas, poda preconceitos e colhe compreensão. Sua missão é tão vital quanto a dos polinizadores que mantêm a vida em movimento. E, como toda espécie essencial, merece ser protegida, valorizada e celebrada.
“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”
— Nelson Mandela
Fontes e referências:
- Freire, P. (1996). Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. [PDF]
- Margulis, L. & Sagan, D. (1995). What Is Life?. Berkeley: University of California Press.
- Wilson, E. O. (1998). Consilience: The Unity of Knowledge. New York: Knopf. [PDF]
- Maturana, H., & Varela, F. (1980). Autopoiesis and Cognition: The Realization of the Living. Dordrecht: Springer.
- Odum, E. P. (1983). Basic Ecology. Philadelphia: Saunders College Publishing.
- Morin, E. (2000). Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. UNESCO.