Simbiose: a vida na Terra não se organiza apenas por competição. Desde seus primórdios, organismos prosperam porque se associam em redes de cooperação.
Simbiose – alianças da harmonia oculta
8/9/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
A simbiose representa uma das forças mais sutis e poderosas da vida. Em vez de apenas competir, os organismos frequentemente estabelecem alianças que ampliam suas chances de sobrevivência.
Essas interações, que vão do mutualismo à parasitose, revelam a complexidade das relações ecológicas. Além disso, mostram que a vida se sustenta por redes de interdependência, visíveis ou invisíveis. Assim, compreender a simbiose é compreender o próprio tecido que mantém a biodiversidade.
- Relações interespecíficas harmônicas
- Parasitismo complexo
- Ecologia
- Espécie-Chave: os pilares invisíveis da vida
O termo simbiose foi introduzido no século XIX por Anton de Bary, que a definiu como a convivência próxima entre organismos de espécies distintas (Sapp, 1994). Desde então, o conceito se expandiu, revelando a imensa diversidade de interações possíveis. Além disso, a simbiose pode variar de relações mutualísticas, em que ambos os parceiros se beneficiam, a interações parasitárias, em que um organismo ganha enquanto o outro perde (Douglas, 2010).
“O maior erro de Darwin foi enfatizar demais a luta pela existência, quando a simbiose é a força central da inovação biológica.”
– Lynn Margulis
O conceito de simbiose e sua relevância biológica
Todavia, compreender a simbiose exige ir além da simples dicotomia entre “positivo” e “negativo”. Muitas relações transitam em um contínuo, mudando de acordo com o ambiente ou a condição fisiológica dos envolvidos. Por exemplo, fungos micorrízicos podem aumentar o crescimento das plantas em solos pobres, mas se tornar quase neutros em solos férteis (van der Heijden et al., 2015). Assim, a simbiose mostra sua flexibilidade e revela-se como um motor de adaptação ecológica.
Portanto, a relevância da simbiose não se limita a casos isolados. Ao contrário, ela estrutura ecossistemas inteiros, influenciando ciclos de nutrientes, estabilidade climática e biodiversidade global.
Biologia da parceria – a simbiose como força evolutiva
Do ponto de vista evolutivo, a simbiose moldou a própria arquitetura da vida. A teoria da endossimbiose seriada, proposta por Lynn Margulis, mostrou que organelas essenciais como mitocôndrias e cloroplastos descendem de bactérias incorporadas a células ancestrais (Margulis, 1970). Dessa maneira, a cooperação entre organismos distintos tornou-se responsável pela origem da complexidade celular.
“Na natureza, não existe isolamento: cada organismo vive em um campo de interações.”
– E. O. Wilson
Além disso, diversos exemplos reforçam esse papel criativo da simbiose. Corais, por exemplo, dependem de microalgas simbióticas para realizar fotossíntese e construir recifes, ecossistemas entre os mais diversos do planeta (Knowlton & Rohwer, 2003). Igualmente, insetos como cupins carregam comunidades de microrganismos no intestino, responsáveis pela digestão de celulose, o que permitiu sua expansão ecológica (Brune, 2014).
Assim, a simbiose não apenas facilita a sobrevivência imediata, mas também gera inovações que alteram profundamente os caminhos da evolução.
Simbiose e a perspectiva ecológica global
Quanto à ecologia, a simbiose se manifesta como um tecido invisível que conecta espécies em redes complexas. Plantas e fungos micorrízicos, por exemplo, formam vastos sistemas subterrâneos que distribuem nutrientes entre árvores, configurando uma espécie de “internet da floresta” (Simard et al., 1997). Além disso, a simbiose microbiana influencia o ciclo global de carbono, afetando diretamente o clima (Falkowski et al., 2008).
Adicionalmente, o microbioma humano ilustra como a simbiose permeia até mesmo nossa saúde. Bactérias intestinais regulam a digestão, a imunidade e até aspectos do comportamento, em uma interação que redefine os limites do que chamamos de indivíduo (Turnbaugh et al., 2007). Portanto, compreender a simbiose é também compreender a nós mesmos.
“A evolução é muito mais sobre cooperação do que competição.”
– Lynn Margulis
Por fim, a simbiose revela uma lição filosófica e ecológica. A vida não é apenas uma luta entre rivais. Pelo contrário, ela floresce porque múltiplos organismos constroem alianças, muitas vezes invisíveis aos nossos olhos, mas absolutamente vitais.
Fontes e referências:
- Brune, A. (2014). Symbiotic digestion of lignocellulose in termite guts. Nature Reviews Microbiology, 12(3), 168–180. DOI: doi.org/10.1038/nrmicro3182
- Douglas, A. E. (2010). The Symbiotic Habit. Princeton University Press.
- Falkowski, P. G., Fenchel, T., & Delong, E. F. (2008). The microbial engines that drive Earth’s biogeochemical cycles. Science, 320(5879), 1034–1039.
- Knowlton, N., & Rohwer, F. (2003). Multispecies microbial mutualisms on coral reefs: The host as a habitat. American Naturalist, 162(S4), S51–S62. DOI: 10.1086/378684
- Margulis, L. (1970). Origin of Eukaryotic Cells. Yale University Press. DOI: doi.org/10.1002/jobm.19730130220
- Sapp, J. (1994). Evolution by Association: A History of Symbiosis. Oxford University Press.
- Simard, S. W., Perry, D. A., Jones, M. D., Myrold, D. D., Durall, D. M., & Molina, R. (1997). Net transfer of carbon between tree species with shared ectomycorrhizal fungi. Nature, 388(6642), 579–582. DOI: doi.org/10.1038/41557
- Turnbaugh, P. J., Ley, R. E., Hamady, M., Fraser-Liggett, C. M., Knight, R., & Gordon, J. I. (2007). The human microbiome project. Nature, 449(7164), 804–810.
- van der Heijden, M. G., Martin, F. M., Selosse, M. A., & Sanders, I. R. (2015). Mycorrhizal ecology and evolution: The past, the present, and the future. New Phytologist, 205(4), 1406–1423.