Biólogos “esquecidos”
Biólogos “esquecidos”: muitos cientistas mudaram silenciosamente o rumo do conhecimento humano. Suas descobertas, embora essenciais, permaneceram ofuscadas por nomes mais célebres, esperando enfim o merecido reconhecimento.

Biólogos “esquecidos“: contribuições fundamentais que mudaram a ciência
13/11/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
A história da biologia é repleta de nomes que iluminaram o conhecimento humano. Contudo, muitos cientistas que deram contribuições fundamentais à compreensão da vida permaneceram à sombra de colegas mais famosos. Este artigo celebra alguns desses biólogos esquecidos, resgatando suas trajetórias e o impacto de suas descobertas.
À Sombra da Glória: os biólogos que o tempo quase esqueceu
Desde o século XVII, quando a curiosidade pela natureza começou a ganhar contornos científicos, vários observadores dedicaram-se a registrar o comportamento dos seres vivos.
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Entre eles, destaca-se Maria Sibylla Merian (1647–1717), naturalista alemã que desafiou os limites impostos às mulheres de sua época. Ela documentou com precisão a metamorfose dos insetos, provando que lagartas não surgiam por geração espontânea. Suas ilustrações, de rara beleza e rigor técnico, influenciaram profundamente a entomologia. No entanto, por séculos, sua obra foi subestimada, reduzida a curiosidade artística.

Outro exemplo é Jan Swammerdam (1637–1680), cuja dissecação minuciosa de insetos revelou estruturas microscópicas antes ignoradas. Embora contemporâneo de figuras como Leeuwenhoek, Swammerdam introduziu métodos anatômicos que anteciparam a histologia moderna (Gest, 2004). Ainda assim, sua importância raramente aparece nos manuais de biologia.
“Na ciência, o crédito vai para quem convence o mundo, não para quem teve a ideia primeiro.”
— Francis Darwin, filho de Charles Darwin
Além deles, Georges Cuvier é frequentemente lembrado por fundar a anatomia comparada, mas foi seu colega Étienne Geoffroy Saint-Hilaire que ousou propor que todos os animais compartilhavam um plano estrutural comum — uma ideia precursora da evolução (Appel, 1987). Embora criticado por Cuvier, Geoffroy lançou sementes intelectuais que Darwin mais tarde faria florescer.
Os esquecidos na sombra de Darwin e Mendel
Quando se fala em evolução, o nome de Charles Darwin surge de imediato. Entretanto, Alfred Russel Wallace (1823–1913) chegou às mesmas conclusões, de forma independente, após suas longas expedições pela Amazônia e o Arquipélago Malaio. Wallace reconheceu a seleção natural como força central da transformação das espécies e delineou o conceito de biogeografia moderna (Quammen, 2018). Apesar disso, sua memória foi diluída pela grandiosidade de Darwin, com quem manteve uma relação cordial, porém desigual.

No Brasil, o naturalista Fritz Müller permanece como um gênio quase esquecido. Suas observações sobre evolução e mutualismo influenciaram o próprio Darwin, mas seu legado ainda carece do reconhecimento que merece.

Da mesma forma, a genética não nasceu apenas com Gregor Mendel. Poucos conhecem Nettie Stevens (1861–1912), bióloga americana que identificou os cromossomos sexuais X e Y, revelando o mecanismo genético da determinação sexual. Seu contemporâneo, Edmund Wilson, chegou às mesmas conclusões, mas foi seu nome que atravessou os séculos (Brush, 1978). Assim, Stevens foi duplamente silenciada — por seu gênero e pela seletividade da história científica.
Por outro lado, Oswald Avery (1877–1955) demonstrou, em 1944, que o DNA é o material hereditário, uma descoberta revolucionária que precedeu Watson e Crick em quase uma década. Contudo, à época, sua hipótese foi recebida com ceticismo. Só depois da elucidação da dupla hélice, em 1953, o valor de seu trabalho foi reconhecido, ainda que tardiamente (Griffiths et al., 2020).
Vozes contemporâneas e legados esquecidos
No século XX, muitos cientistas também trabalharam nas fronteiras da Biologia sem alcançar notoriedade. Entre eles, Lynn Margulis (1938–2011) propôs a teoria da endossimbiose, segundo a qual mitocôndrias e cloroplastos derivam de antigas bactérias incorporadas por células ancestrais. Apesar das resistências iniciais, sua hipótese foi confirmada por evidências moleculares e revolucionou a compreensão da evolução celular (Sagan, 1967; Margulis, 1981). Ainda assim, seu nome raramente aparece ao lado dos grandes marcos científicos.

“A verdade científica não depende da fama de quem a enuncia, mas da força das evidências que a sustentam.”
— Lynn Margulis
Outro caso notável é o de Rosalind Franklin (1920–1958), cuja fotografia de difração de raios X — a famosa “Foto 51” — foi crucial para desvendar a estrutura do DNA. Apesar disso, Franklin teve seu crédito diminuído, e sua contribuição só foi amplamente reconhecida décadas após sua morte (Maddox, 2002). Sua história tornou-se símbolo das dificuldades enfrentadas por mulheres na ciência, sobretudo em tempos de forte viés institucional.

“Rosalind Franklin devia ter ganho o Prêmio Nobel.”
— James Watson, reconhecendo tardiamente a contribuição da colega
Por fim, vale citar Barry Commoner (1917–2012), ecólogo norte-americano que, nas décadas de 1960 e 1970, advertiu sobre os impactos ecológicos da industrialização e do uso indiscriminado de energia nuclear. Sua visão integrada dos sistemas vivos inspirou o pensamento ambiental contemporâneo (Commoner, 1971). Ainda assim, é lembrado mais como ativista do que como cientista, embora suas ideias antecipassem o conceito moderno de sustentabilidade.

Ao revisitar esses nomes, percebemos que a história da Biologia não é feita apenas de grandes descobertas, mas também de vozes silenciadas. Cada uma dessas trajetórias revela a importância de reconhecer a diversidade de olhares que moldam o conhecimento científico. Assim, resgatar biólogos esquecidos não é apenas um exercício de justiça histórica — é um ato de renovação ética e intelectual. Afinal, compreender a vida em todas as suas formas exige também compreender o valor de quem a estudou com dedicação, ainda que sem glória.
Fontes e referências:
- Appel, T. A. (1987). The Cuvier–Geoffroy Debate: French Biology in the Decades Before Darwin. Oxford University Press.
- Brush, S. G. (1978). Nettie M. Stevens and the discovery of sex chromosomes. Isis, 69(1), 163–172.
- Commoner, B. (1971). The Closing Circle: Nature, Man, and Technology. Alfred A. Knopf. [PDF]
- Griffiths, A. J. F., et al. (2020). An Introduction to Genetic Analysis. 12th ed. W.H. Freeman.
- Maddox, B. (2002). Rosalind Franklin: The Dark Lady of DNA. HarperCollins.
- Margulis, L. (1981). Symbiosis in Cell Evolution. W.H. Freeman. [PDF]
- Quammen, D. (2018). The Tangled Tree: A Radical New History of Life. Simon & Schuster.











Agradeço tanto conhecimento com essas mensagens.
Obrigado Antonio!