Cachorro-vinagre: o enigma do canídeo da América do Sul
Cachorro-vinagre: pouco visto e estudado, o cachorro-vinagre (Speothos venaticus) representa um dos maiores mistérios da fauna sul-americana. Entre as sombras da floresta, combina agilidade, inteligência e cooperação em estratégias únicas de sobrevivência diante das pressões humanas.

Cachorro-vinagre: o enigma do canídeo da América do Sul
26/9/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
Poucos mamíferos da América do Sul despertam tanta curiosidade quanto o cachorro-vinagre (Speothos venaticus). Embora não seja considerada uma espécie-bandeira, é um forte candidato para tal, por sua raridade e seu carisma.
Contudo, a falta de conhecimento público ainda limita esse papel. Por outro lado, já se encaixa na definição de espécie guarda-chuva, pois sua sobrevivência depende da preservação de grandes áreas florestais que sustentam diversas outras espécies ameaçadas (DeMatteo & Loiselle, 2008; Rodrigues et al., 2013). Assim, ao proteger o cachorro-vinagre, protegemos também a integridade de ecossistemas inteiros.

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Também chamado de aracambé, jaguacininga, jaguaracambé, janauíra ou januaíra, esse pequeno canídeo ocupa um papel ecológico singular. Além disso, seu comportamento social, suas adaptações corporais e sua ampla distribuição geográfica revelam uma história evolutiva fascinante. Entretanto, seu futuro permanece incerto diante das crescentes ameaças antrópicas. Segundo a IUCN as populações estão em declínio e consta como uma espécie “Quase ameaçada” e pelo ICMBio-MMA foi classificada de “Vulnerável”.

“O cachorro-vinagre é um dos canídeos mais enigmáticos da América do Sul, sendo raramente observado na natureza devido ao seu comportamento esquivo e às baixas densidades populacionais.” (DeMatteo & Loiselle, 2008, Oryx)
Ecologia e comportamento social
O cachorro-vinagre vive em bandos coesos, geralmente formados por 4 a 12 indivíduos. Diferentemente de outros canídeos sul-americanos, ele exibe intensa cooperação social durante a caça. Assim, o grupo persegue presas maiores do que um indivíduo poderia dominar sozinho, como pacas e tatus. Além disso, sua comunicação inclui vocalizações curtas, sinais olfativos e comportamentos coordenados, que garantem eficiência na captura.

Adicionalmente, sua dieta revela grande flexibilidade. Embora prefira presas terrestres, o cachorro-vinagre também caça em áreas alagadas e se mostra um nadador habilidoso (DeMatteo & Loiselle, 2008). Portanto, essa versatilidade aumenta suas chances de sobrevivência em diferentes habitats, mas sua dependência de ambientes florestais densos o torna vulnerável ao desmatamento.
Outro aspecto notável é sua estratégia reprodutiva. Os filhotes, que nascem geralmente em tocas abandonadas de tatus ou em cavidades naturais, recebem cuidados de todo o grupo. Assim, o sistema cooperativo assegura altas taxas de sobrevivência da prole, reforçando os laços sociais da matilha (Beisiegel & Zuercher, 2005).
“O comportamento social altamente cooperativo é uma das características mais notáveis de S. venaticus, especialmente durante atividades de caça.” (Beisiegel & Zuercher, 2005, Mammalian Species)
Morfologia e adaptações evolutivas
Embora seja de porte pequeno, com cerca de 5 a 7 kg, o cachorro-vinagre possui adaptações marcantes. Seu corpo é compacto, as pernas são curtas e a cauda é arredondada. Tais características permitem movimentação ágil em florestas densas e galerias subterrâneas. Além disso, suas membranas interdigitais indicam uma evolução voltada também para ambientes aquáticos (Michalski & Peres, 2007).

As principais ameaças incluem destruição de habitat, redução de presas silvestres e transmissão de doenças de cães domésticos. 📷 Tambako The Jaguar
Do ponto de vista dentário, apresenta molares robustos e especializados em cortar carne. Essa dentição, combinada à força da mandíbula, facilita a captura de presas de médio porte. Comparativamente, sua morfologia sugere convergência funcional com espécies sociais de canídeos de outros continentes, como o cão-selvagem-africano (Lycaon pictus) (Wozencraft, 2005). Portanto, sua evolução parece ter privilegiado a eficiência coletiva em vez da força individual
“As membranas interdigitais sugerem adaptações morfológicas para ambientes úmidos e corroboram relatos de comportamento semi-aquático.” (Wozencraft, 2005, Mammal Species of the World)
Distribuição, ameaças e conservação
A espécie ocorre desde a América Central até a Argentina. Contudo, sua distribuição é fragmentada e associada a florestas úmidas, cerrados e áreas de transição (DeMatteo & Loiselle, 2008). No Brasil, registros confirmam sua presença na Amazônia, no Cerrado e na Mata Atlântica, embora sempre de forma esparsa.

Entretanto, as pressões humanas ameaçam sua sobrevivência. O desmatamento reduz o espaço vital da espécie. Além disso, a caça de subsistência diminui a disponibilidade de presas. Paralelamente, doenças transmitidas por cães domésticos representam um risco adicional (Beisiegel, 2009). Dessa forma, a combinação de fatores ecológicos e antrópicos explica por que a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica o cachorro-vinagre como “Quase Ameaçado” (Rodrigues et al., 2013).
“As principais ameaças incluem destruição de habitat, redução de presas silvestres e transmissão de doenças de cães domésticos.” (Rodrigues et al., 2013, Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Canídeos Silvestres)
Em contrapartida, algumas iniciativas buscam reverter esse quadro. Projetos de monitoramento com câmeras-trap permitiram novos registros da espécie em áreas antes consideradas vazias. Ademais, a inclusão do cachorro-vinagre em planos de ação nacionais fortalece a criação de estratégias de conservação específicas. Portanto, a pesquisa científica aliada à proteção dos habitats surge como caminho essencial para seu futuro.
Importância ecológica e perspectivas futuras
O cachorro-vinagre exerce forte impacto ecológico ao controlar populações de roedores e outros vertebrados. Assim, funciona como regulador trófico em ecossistemas complexos. Além disso, seu comportamento social fornece dados comparativos valiosos para estudos de evolução dos canídeos.
Todavia, ainda existem lacunas consideráveis. Pouco se sabe sobre suas interações com predadores maiores ou sobre sua real densidade populacional. Portanto, ampliar pesquisas de campo é indispensável. Da mesma forma, o engajamento de comunidades locais pode favorecer a coexistência entre humanos e esse predador discreto.
Finalmente, o cachorro-vinagre simboliza a riqueza e a fragilidade da fauna sul-americana. Embora pequeno e pouco conhecido, sua conservação depende de grandes decisões coletivas. Portanto, a sobrevivência da espécie representa também o compromisso humano com a diversidade biológica.
Fontes e referências:
- DeMatteo, K., Michalski , F. & Leite-Pitman, M.R.P. 2011. Speothos venaticus. The IUCN Red List of Threatened Species 2011: e.T20468A9203243. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2011-2.RLTS.T20468A9203243.en. Accessed on 25 September 2025.
- Beisiegel, B. M. (2009). First camera trap records of bush dogs (Speothos venaticus) from the Brazilian Atlantic Forest. Canid News, 12: 1–5.
- Beisiegel, B. M., & Zuercher, G. L. (2005). Speothos venaticus. Mammalian Species, 783: 1–6.
- DeMatteo, K. E., & Loiselle, B. A. (2008). New data on bush dog (Speothos venaticus) in Paraguay: range, habitat, and conservation status. Oryx, 42(3): 458–463.
- Michalski, F., & Peres, C. A. (2007). Disturbance-mediated mammal persistence and abundance-area relationships in Amazonian forest fragments. Conservation Biology, 21(6): 1626–1640.
- Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Canídeos Silvestres. ICMBio, Brasília.
- Wozencraft, W. C. (2005). Order Carnivora. In: Wilson, D. E., & Reeder, D. M. (Eds.), Mammal Species of the World. 3rd ed. Johns Hopkins University Press.










