Gambás do Brasil: importância e desafios
Os Gambás do Brasil, embora frequentemente subestimados, desempenham funções ecológicas essenciais. Além disso, enfrentam ameaças crescentes que exigem compreensão, respeito e ações urgentes de conservação.

Gambás do Brasil: importância ecológica e desafios para a conservação
14/11/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
Nos quintais, nas florestas e até nas cidades, os gambás — ou saruês — transitam silenciosamente. Contudo, esses marsupiais têm papel essencial nos ecossistemas brasileiros, atuando como controladores biológicos, dispersores de sementes e verdadeiros indicadores da saúde ambiental.
Compreender sua importância e as ameaças que enfrentam é, portanto, uma forma de proteger não apenas suas espécies, mas também a complexa teia de vida da qual fazem parte.

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Diversidade e ecologia dos gambás do Brasil
As quatro espécies encontradas no Brasil são o gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita), o gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris), o gambá-comum (Didelphis marsupialis) e o gambá-amazônico (Didelphis imperfecta). Esses animais demonstram grande plasticidade ecológica: adaptam-se tanto a florestas úmidas quanto a áreas urbanas degradadas, mas mantêm características típicas dos marsupiais, como a bolsa marsupial e o comportamento noturno.
“Os didelfídeos influenciam fortemente a dinâmica das florestas tropicais por meio de sua dieta variada e de sua capacidade de dispersar sementes em longas distâncias.”
— Emmons & Feer, “Neotropical Rainforest Mammals” (1997)

Além disso, os gambás são onívoros oportunistas. Alimentam-se de frutos, insetos, pequenos vertebrados e até de restos orgânicos. Essa dieta variada lhes confere papel ecológico fundamental. Por exemplo, ao consumir frutas e defecar em diferentes locais, tornam-se dispersores de sementes, favorecendo a regeneração florestal (Pires et al., 2018). Paralelamente, ao se alimentar de insetos e pequenos roedores, ajudam a controlar populações potencialmente nocivas ao equilíbrio ecológico e à saúde pública.
Ademais, os gambás são presas de diversas espécies carnívoras, como corujas, serpentes e felinos silvestres. Assim, eles ocupam posição intermediária nas cadeias alimentares, contribuindo para a estabilidade trófica dos ecossistemas. Em áreas urbanas, onde predadores naturais diminuem, seu aumento pode refletir um desequilíbrio ecológico causado pela fragmentação ambiental.
Interações com o Homem e o Papel nos Ambientes Urbanos
Com o avanço das cidades e o desmatamento, os gambás se aproximaram das habitações humanas. Essa convivência, muitas vezes conflituosa, revela um paradoxo: enquanto são confundidos com ratos e perseguidos, os gambás prestam valiosos serviços ecossistêmicos. De fato, eles consomem escorpiões, baratas e serpentes venenosas, funcionando como agentes naturais de controle biológico (Gentile & Fernandez, 2019).

Entretanto, a percepção negativa persiste. Em muitos lugares, os gambás são mortos por medo ou ignorância, embora raramente representem risco real à saúde. Ao contrário, estudos mostram que sua fisiologia é singularmente resistente a venenos de serpentes, o que os torna objeto de pesquisas biomédicas (Vitt & Caldwell, 2014). Além disso, sua presença em áreas urbanas pode indicar a existência de remanescentes vegetais e fontes de alimento diversificadas, funcionando como bioindicadores da resiliência ecológica urbana.
“Os gambás desempenham papéis ecológicos essenciais como predadores, necrófagos e dispersores de sementes.” – Charles O. Handley Jr. & R. L. Pine
Por outro lado, o trânsito constante entre o ambiente silvestre e o urbano expõe esses animais a novos perigos. Entre eles estão atropelamentos, ataques de cães e gatos domésticos e contaminação por pesticidas e lixo. Em especial, as rodovias representam armadilhas fatais para espécies de deslocamento noturno. Portanto, medidas de mitigação, como passagens de fauna e educação ambiental, são urgentes para reduzir esses impactos.
Ameaças e Estratégias de Conservação
Embora amplamente distribuídos, os gambás enfrentam ameaças crescentes. O desmatamento continua a fragmentar seus habitats, reduzindo o acesso a abrigos e alimentos. Consequentemente, populações isoladas tornam-se mais vulneráveis à predação e à perda genética (Paglia et al., 2020). Além disso, incêndios florestais e mudanças climáticas afetam diretamente suas áreas de ocorrência, alterando a disponibilidade de recursos e aumentando a mortalidade.
Ainda que muitas espécies não estejam formalmente ameaçadas, a falta de dados populacionais dificulta o estabelecimento de políticas de conservação eficazes. Por essa razão, é fundamental ampliar o monitoramento ecológico, especialmente em biomas como o Cerrado e a Mata Atlântica, onde a urbanização avança rapidamente. A criação de corredores ecológicos e a restauração de matas ciliares podem favorecer a conectividade entre populações isoladas.

Ao mesmo tempo, campanhas de conscientização pública são essenciais. A valorização dos gambás como parte da fauna nativa pode transformar atitudes hostis em respeito e curiosidade científica. Projetos de educação ambiental em escolas e comunidades podem estimular o reconhecimento desses animais como aliados na manutenção do equilíbrio ecológico.
Em suma, conservar os gambás significa conservar funções ecológicas essenciais à estabilidade dos ecossistemas brasileiros. À medida que o país enfrenta desafios crescentes de urbanização e perda de biodiversidade, esses marsupiais lembram que a convivência harmoniosa entre humanos e natureza é não apenas possível, mas necessária.
“Os gambás funcionam como agentes importantes na regeneração florestal e na manutenção de populações de invertebrados.” — Passamani, M., & Chiarello, A., Mamíferos do Brasil, UFV (2007)
Os gambás, muitas vezes invisíveis aos olhos humanos, representam um elo discreto, porém indispensável, da vida silvestre brasileira. São guardiões das florestas e sentinelas das cidades. Valorizar sua presença é um passo importante rumo a uma nova ética ecológica — mais sensível, informada e solidária com todas as formas de vida.
Fontes e referências:
- Gentile, R., & Fernandez, F. A. S. (2019). Ecologia de mamíferos urbanos no Brasil. Revista Brasileira de Zoologia
- Paglia, A. P., et al. (2020). Annotated Checklist of Brazilian Mammals. Conservation International, 2ª ed.
- Pires, A. S., et al. (2018). Seed dispersal by marsupials in fragmented landscapes. Acta Oecologica, 92, 57–65.
- Vitt, L. J., & Caldwell, J. P. (2014). Herpetology: An Introductory Biology of Amphibians and Reptiles. Academic Press.










