Morcegos não são “ratos com asas”
Morcegos não são “ratos com asas”: temos visto jornalistas perpetuarem preconceitos sem base científica. A desinformação dificulta na proteção dos morcegos, muito valiosos para a flora e a fauna, e para nós.

Morcegos não são “ratos com asas”: preconceito e desinformação como ameaças silenciosas
22/5/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Ao longo da história, os morcegos têm sido alvo de inúmeras crendices, mitos e medos infundados. Não são os únicos — tubarões, por exemplo, foram mortos aos milhares depois que o filme Jaws (1975) consolidou a imagem de assassino do animal.
Comumente chamados de “ratos com asas”, esses mamíferos alados, que pertencem à ordem Chiroptera, não têm qualquer relação direta com os roedores. Essa expressão, além de cientificamente incorreta, revela o preconceito enraizado no desconhecimento, ao qual tem consequências reais e devastadoras para a conservação desses animais essenciais ao equilíbrio ecológico.

A origem desse estigma está profundamente ligada a fatores culturais e religiosos. Figuras literárias como Drácula e outras representações da ficção contribuíram para reforçar a imagem do morcego como criatura temível e perigosa, associando-os à escuridão, à morte e ao sobrenatural. No entanto, tais narrativas não se sustentam diante do conhecimento científico, que aponta os morcegos como peças-chave em ecossistemas tropicais e temperados.

O que ganha asas é a ignorância – desinformação é ameaça para a fauna
No dia 15 desse mês, o jornal O Globo publicou um artigo intitulado Vivi para Contar: ‘O morcego não só me mordeu. Ele me ‘esfaqueou’. Nele, a jornalista Rosane Serro em depoimento ao repórter Eduardo Graça relatou sua experiência traumática após ser mordida por um morcego. No entanto, o texto revelou mais que o trauma — mas ódio e certa ignorância — da autora para com esses mamíferos.
No artigo, Rosane usa duas vezes a expressão “rato voador”, sem sequer empregar o uso de aspas como feito aqui. Além disso, aponta os morcegos como vetores da raiva, sem destacar que qualquer mordida de mamífero silvestre pode transmitir a mesma. Por fim, e menos grave, não são ‘178 tipos de morcegos no Brasil’, mas 186 espécies no território nacional. O título sensacionalista foi editado dias depois, atenuando o ‘esfaqueou’ o para o sentido do prejuízo financeiro, e não o da dentada do animal. De qualquer modo, o estrago na imagem do animal está feito.
Informação: a melhor arma para combater a desinformação

Assim, infelizmente a desinformação continua a gerar medo e repulsa. Isto ocorre durante surtos de doenças como a raiva. E recentemente — não podemos esquecer — durante a pandemia de COVID-19. A associação direta e sensacionalista entre morcegos e agentes patogênicos provocou uma onda de perseguições, com extermínio de colônias e incêndios em cavernas. A mídia, em muitos casos, reforçou esses estigmas, ignorando a complexidade das relações ecológicas e as verdadeiras causas das zoonoses, que em geral envolvem a degradação ambiental e o contato indevido entre humanos e animais silvestres.
É nesse ponto que o preconceito se revela mais perigoso. Ao invés de enxergarmos os morcegos como aliados na manutenção da biodiversidade e da saúde dos ecossistemas, os tratamos como inimigos, alimentando um ciclo vicioso de destruição e desequilíbrio. Além disso, campanhas de extermínio, muitas vezes motivadas pelo medo e pela ignorância, causam impactos significativos na biodiversidade, afetando inclusive espécies ameaçadas de extinção.
Os morcegos e seu precioso papel ecossistêmico
Primeiramente, é fundamental compreender que os morcegos exercem funções ecológicas insubstituíveis. Espécies frugívoras atuam na dispersão de sementes, promovendo a regeneração natural das florestas. Outras, nectarívoras, são polinizadoras de inúmeras plantas, muitas delas de valor econômico, como o agave e a banana. Há ainda os insetívoros, que desempenham um papel crucial no controle biológico de pragas agrícolas e vetores de doenças, consumindo diariamente toneladas de insetos.

Um estudo recente, por exemplo, revelou que a queda da população de morcegos na América do Norte levou a um aumento do uso de pesticidas por agricultores como método alternativo para proteger seus cultivos de insetos, o que resultou em um aumento da mortalidade infantil humana.
Esses são somente alguns dos indispensáveis serviços ecossistêmicos entregue pelos morcegos. Não podemos deixar de falar que — inseridos na cadeia ecológica — eles são predados por muitos animais silvestres. Aves como corujas; répteis como jiboias e serpentes; mamíferos como gatos selvagens; macacos e muitos animais dependem dos morcegos como fonte de alimento. Até mesmo peixes e aranhas já foram registrados predando morcegos. Isso sem falar que fertilizam o solo no campo e na floresta. Portanto, conheça outros motivos para lutar por esses mamíferos em A importância dos morcegos.

Os morcegos são nossos aliados para o futuro. Informação é arma para proteger espécies.
Para que possamos reverter esse quadro é imprescindível investir em educação ambiental, divulgação científica acessível e políticas públicas que protejam os morcegos e seus habitats. Museus, escolas, universidades e ONGs desempenham um papel estratégico na construção de uma nova percepção sobre esses animais. Ao conhecer sua biologia, comportamento e importância ecológica, torna-se possível superar a aversão instintiva e substituí-la por respeito e admiração.
Divulgação científica e educação ambiental são fundamentais para que a sociedade conheça a importância dos morcegos e se interesse por sua preservação.”
– Júlia Luz, bióloga
Ademais, a ciência precisa ocupar o espaço da superstição. Das mais de 1.500 espécies conhecidas todas tem potencial zoonótico. Mas, a ideia de que todo morcego é perigoso ou transmite doenças ignora o fato de que, o risco de transmissão pode ser drasticamente reduzido com medidas simples de convivência respeitosa, como evitar manipulações diretas e preservar os habitats naturais.
Por fim, cabe lembrar que o preconceito contra os morcegos é apenas um reflexo da forma como, muitas vezes, lidamos com a natureza: com medo, dominação e exploração. Romper com essa lógica exige um esforço coletivo de conscientização, empatia e reconexão com o mundo natural. Os morcegos, longe de serem vilões alados, são sentinelas da saúde ambiental e, portanto, merecem não o nosso repúdio, mas nossa proteção.
Fontes e referências:
- Vivi para Contar: ‘O morcego não só me mordeu. Ele me ‘esfaqueou’ – O Globo 15/05/2025
- Queda da população de morcegos impulsionou mortalidade infantil nos EUA, aponta estudo – Folha de Pernambuco
- Maria-bola é aranha introduzida no Brasil capaz de predar aves e morcegos – g1.globo.com/
- Eyal G. Frank The economic impacts of ecosystem disruptions: Costs from substituting biological pest control. Science 385,eadg0344(2024). DOI:10.1126/science.adg0344










