O exemplo das Cagarras
O exemplo das Cagarras: em um Oceano Atlântico cada vez mais degradado, a iniciativa feita há 14 anos da criação do Monumento Natural das Ilhas Cagarras tem ajudado a recuperar a biodiversidade marinha, da flora e proteger espécies características da fauna das ilhas, como fragatas, atobás e tantas outras.

O exemplo das Cagarras: a recuperação da biodiversidade do arquipélago carioca
17/12/2024 :: por Marco Pozzana, biólogo
Cariocas e turistas estão acostumados a apreciar a beleza das Ilhas Cagarras a uma distância de cerca de 5km que separam as ilhas das praias. No entanto, da costa não dá pra ter ideia das maravilhas que escondem o arquipélago. Tampouco se nota os muitos avanços na recuperação da área (feito em especial por biólogos do ICMBio), degradada por séculos de exploração sem controle.
Hoje sabemos que as ilhas eram acessadas por indígenas antes da chegada dos primeiros portugueses. Isso porque foi revelado um sítio arqueológico tupi-guarani no arquipélago, com artefatos como ferramentas líticas e fragmentos de cerâmica que chegam a datar até cerca de 1480. Tal descoberta, foi possível graças a parceria do Projeto Ilhas do Rio, responsável pelo estudo, com a equipe do ICMBio MONA Cagarras.

Monumento Natural do Arquipélago das Ilhas Cagarras (MONA Cagarras)
De todo modo, a descoberta do sítio arqueológico é apenas um dos aspectos positivos do investimento na preservação das ilhas. A biodiversidade no arquipélago e seu entorno vem sendo mais estudada e conhecida ano a ano. Essa história começou em 2010, quando foi criada a MONA Cagarras, Unidade de Conservação de proteção integral no litoral do Rio de Janeiro.

“É bonito ver como o trabalho da equipe do ICMBio MONA Cagarras e seus parceiros tem contribuído para preservar a rica biodiversidade do arquipélago, ajudando para a saúde de todo o ecossistema do entorno. É uma iniciativa que não deve cessar jamais. Algo que me dá satisfação e orgulho”.
– Tatiana Teixeira Leite Ribeiro, analista ambiental do ICMBio, há sete anos diretora do MONA Cagarras
As ilhas e ilhotas que compõem o monumento são refúgios para várias espécies de fauna e flora, incluindo espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. O ICMBio desenvolve ações de monitoramento e proteção dessas espécies, garantindo a conservação desse ecossistema. Além de sua importância ecológica, o arquipélago possui grande beleza cênica, sendo um ícone natural da cidade do Rio de Janeiro. O ICMBio é responsável por implementar o plano de manejo do MONA Cagarras, que regula o uso do espaço e orienta as atividades permitidas na região, como o turismo ecológico e pesquisas científicas. Além disso, o instituto atua na fiscalização contra atividades ilegais como a pesca predatória e uso irregular do espaço.

Menos espécies exóticas e invasoras: mais biodiversidade

Outro trabalho importante é o da retirada das espécies invasoras, como o coral-sol (Tubastraea tagusensis e Tubastraea coccinea) que ameaçam a fauna nativa ao se espalharem com facilidade, dominando costões rochosos e recifes. Pesquisas mostraram que com a retirada dessa espécie de reprodução agressiva, as espécies nativas ganham espaço, aumentando a diversidade, exatamente como ocorre no arquipélago. Esse trabalho constante é capitaneado pela bióloga Adriana Gomes, cujo trabalho tem se mostrado indispensável para a recuperação da fauna marinha local.
Reflorestamento
Já o reflorestamento, que inclui também a retirada de espécies problemáticas e invasoras como o capim-colonião (Panicum maximum), foi coordenado pelo botânico Massimo Bovini, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, atuando no âmbito do Projeto Ilhas do Rio. O biólogo vem recuperando áreas que foram dominadas pelo capim-colonião, por meio de mutirões cujo objetivo é plantar somente espécies que ocorrem historicamente no arquipélago, como a Aroeira (Schinus terebinthifolia). As mudas plantadas por Bovini e sua equipe já são arvoretas que cobrem de verde boa parte da área degradada. Para saber mais sobre esse trabalho, leia Retirada do capim-colonião.

A área do MONA Cagarras é um laboratório natural valioso para estudos sobre ecologia marinha e conservação ambiental. O ICMBio apoia e coordena pesquisas que geram dados sobre a biodiversidade local, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias de conservação baseadas em evidências. Também incentiva o turismo sustentável, garantindo que visitantes possam desfrutar das belezas naturais das Ilhas sem causar impactos negativos ao meio ambiente. A iniciativa inclui atividades como mergulho recreativo, exploração controlada das trilhas e observação de aves.

Serviços ecossistêmicos
Os ecossistemas do MONA desempenham papéis cruciais, como a regulação do clima, proteção da costa contra erosão, e suporte para a pesca sustentável. O trabalho do ICMBio no MONA Cagarras é fundamental para garantir que essa área continue sendo um refúgio para a vida selvagem e um legado para as futuras gerações, preservando tanto seu valor ambiental quanto cultural. A proteção do MONA Cagarras é um exemplo prático de como áreas naturais podem ser geridas para beneficiar tanto o meio ambiente quanto as populações humanas.

Por fim, a proximidade a uma grande metrópole reforça a importância de um órgão como o ICMBio para gerenciar a coexistência entre o ambiente urbano e o ecossistema protegido. Essa proximidade destaca o MONA como um símbolo de que é possível equilibrar conservação, desenvolvimento humano e esperança. No ano passado, por exemplo, o arquipélago foi designado um hope spot, área ecologicamente única do oceano designada para proteção sob uma campanha de conservação global, supervisionada pela Mission Blue, uma organização sem fins lucrativos fundada por Sylvia Earle.
Fontes e referências:
- IUCN SSC Amphibian Specialist Group & Instituto Boitatá de Etnobiologia e Conservação da Fauna. 2023. Ololygon perpusilla. The IUCN Red List of Threatened Species 2023: e.T55988A172214325. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2023-1.RLTS.T55988A172214325.en. Accessed on 16 December 2024.
- Frost, D.R. (2014). «Scinax perpusillus». Amphibian Species of the World: an Online Reference. Version 6.0. American Museum of Natural History, New York, USA
- Creed, J.C., Fenner, D., Sammarco, P. et al. ThThe invasion of the azooxanthellate coral Tubastraea (Scleractinia: Dendrophylliidae) throughout the world: history, pathways and vectors. Biol Invasions 19, 283–305 (2017). https://doi.org/10.1007/s10530-016-1279-y
- Equipe do RJ1 acompanha cientistas em pesquisa na Ilha Redonda – Reportagem mostra trabalho de pesquisadores do projeto Ilhas do Rio no Monumento Natural das Ilhas Cagarras.
- Equipe passa a noite na Ilha Redonda e registra pés de batata doce plantados há séculos – Segunda reportagem sobre a maior ilha do Monumento Natural das Cagarras










