Papel dos ecossistemas aquáticos no ciclo do carbono
Ecossistemas aquáticos no ciclo do carbono: os rios respiram, processam energia e conectam a terra ao oceano. Em cada curva e corrente, ocorrem trocas invisíveis de gases que moldam o equilíbrio climático. Compreender o papel desses ecossistemas é essencial para entender o ciclo global do carbono e o futuro do planeta.

Quando o rio respira: papel dos ecossistemas aquáticos no ciclo do carbono
16/10/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
Os rios são frequentemente vistos apenas como condutores de água doce, ligando montanhas e continente ao mar. No entanto, à medida que a ciência avança, torna-se evidente que esses ecossistemas cumprem um papel muito mais profundo. Eles metabolizam e interagem intensamente com a atmosfera, influenciando o ciclo global do carbono. Assim, compreender os processos biogeoquímicos que ocorrem nas águas continentais é essencial para entender o equilíbrio climático do planeta.

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Ao contrário do que se imaginava, os rios e lagos não são apenas reservatórios de carbono dissolvido. Eles também emitem dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄), transformando-se em importantes componentes do sistema climático global (Raymond et al., 2013). Por isso, a respiração dos rios é um processo fundamental e dinâmico, onde a matéria orgânica vinda da terra encontra microrganismos aquáticos que a decompõem, liberando gases de efeito estufa para a atmosfera.
“Os rios e córregos do mundo emitem mais dióxido de carbono para a atmosfera do que se estimava anteriormente, destacando seu papel crítico no balanço global de carbono.” (Raymond, P. A. et al., Nature, 2013)
O metabolismo dos rios: uma respiração invisível
Em primeiro lugar, é importante compreender que a respiração fluvial é um fenômeno metabólico coletivo. Através da decomposição da matéria orgânica transportada pelos solos, microrganismos aquáticos liberam CO₂ e CH₄ em processos conhecidos como respiração heterotrófica e metanogênese (Battin et al., 2008). Assim, os rios funcionam como verdadeiras artérias ecológicas, transportando não apenas nutrientes, mas também energia e gases que conectam ecossistemas terrestres e marinhos.

Além disso, estudos recentes mostram que a taxa de emissão de carbono por rios tropicais é particularmente alta. Isso se deve às temperaturas elevadas e à grande disponibilidade de matéria orgânica oriunda da floresta (Abril et al., 2014). Em bacias como a Amazônica, estima-se que a liberação anual de CO₂ pela água doce seja comparável à absorção das florestas adjacentes, equilibrando os fluxos de carbono regionais (Richey et al., 2002).

“Os rios tropicais, especialmente o Amazonas, liberam quantidades imensas de CO₂, equilibrando o carbono absorvido pelas florestas adjacentes.”
(Abril, G. et al., Nature, 2014)
Entretanto, o metabolismo dos rios não é homogêneo. Cada trecho possui características próprias, influenciadas por fatores como velocidade da corrente, profundidade, cobertura vegetal e uso do solo nas margens. A urbanização, por exemplo, aumenta a carga de nutrientes e reduz a oxigenação, alterando a dinâmica respiratória e favorecendo a produção de metano. Portanto, a saúde biológica e química dos rios é determinante para sua contribuição ao ciclo do carbono.
Conexões entre a terra e a água
Além da decomposição direta, os ecossistemas aquáticos desempenham papel essencial como pontes biogeoquímicas entre ambientes terrestres e oceânicos. A matéria orgânica gerada nas florestas, ao ser transportada para os rios, pode seguir dois caminhos: ser mineralizada em CO₂ e CH₄ ou ser exportada para os oceanos, onde se tornará parte do carbono marinho (Regnier et al., 2013).
Contudo, apenas cerca de um terço do carbono fluvial chega ao mar. O restante é emitido para a atmosfera ou depositado nos sedimentos, onde pode ficar aprisionado por milhares de anos (Aufdenkampe et al., 2011). Esse balanço delicado entre emissões e sequestro mostra como os ecossistemas aquáticos controlam parte significativa do clima global.

Além disso, os pântanos, manguezais e zonas úmidas funcionam como extensões respiráveis desses sistemas. Eles armazenam quantidades imensas de carbono, muitas vezes superiores às das florestas tropicais por unidade de área (Donato et al., 2011). Quando degradados, liberam grandes volumes de gases, transformando-se de sumidouros em fontes de carbono.
“O acoplamento entre os fluxos de carbono terrestres, de água doce e oceânicos deve ser reconhecido para fechar o balanço global de carbono.”
(Regnier, P. et al., Nature Geoscience, 2013)
Por isso, conservar esses ambientes é preservar um dos pulmões invisíveis do planeta. O manejo sustentável das bacias hidrográficas, o controle do desmatamento e a restauração de zonas ripárias são medidas fundamentais para manter o equilíbrio entre emissão e absorção de carbono (Tranvik et al., 2009).
Mudanças climáticas e retroalimentação
À medida que o clima aquece, os ecossistemas aquáticos também mudam. O aumento da temperatura da água intensifica a atividade microbiana, acelerando a decomposição da matéria orgânica e, consequentemente, ampliando a emissão de gases. Assim, o aquecimento global e o metabolismo dos rios formam um ciclo de retroalimentação perigoso: quanto mais quente o planeta, mais carbono é liberado pelas águas, agravando o próprio aquecimento.
Por outro lado, ações humanas como a construção de barragens modificam os fluxos naturais e criam zonas anóxicas propícias à metanogênese (Deemer et al., 2016). Isso transforma os reservatórios artificiais em importantes emissores de metano, um gás com potencial de aquecimento 28 vezes maior que o CO₂.

Em contrapartida, estratégias de mitigação vêm sendo estudadas. A restauração de margens vegetadas, a redução de efluentes e a proteção das zonas úmidas mostram resultados promissores na diminuição das emissões aquáticas. Essas medidas, somadas a políticas de descarbonização energética, podem reduzir significativamente a contribuição dos sistemas fluviais ao aquecimento global.
A troca constante de carbono entre as águas, a terra e a atmosfera revela uma complexa rede de interdependências ecológicas. Reconhecer os rios e lagos como parte ativa do sistema climático global é um passo essencial para compreender e enfrentar as mudanças em curso.
“Lagos e reservatórios regulam coletivamente o tempo e a magnitude da liberação de carbono, atuando simultaneamente como fontes e sumidouros.”
(Tranvik, L. J. et al., Limnology and Oceanography, 2009)
Portanto, mais do que canais de drenagem, os rios são sistemas vivos, pulsantes, que conectam os ciclos da Terra. Proteger sua integridade significa garantir que essa respiração continue equilibrada, sustentando a vida e o clima de que todos dependemos.
Fontes e referências:
- Abril, G., et al. (2014). Amazon River carbon dioxide outgassing fuelled by wetlands. Nature, 505, 395–398. doi.org/10.1038/nature12797
- Aufdenkampe, A. K., et al. (2011). Riverine coupling of biogeochemical cycles between land, oceans, and atmosphere. Frontiers in Ecology and the Environment, 9(1), 53–60.
- Battin, T. J., et al. (2008). Biophysical controls on organic carbon fluxes in fluvial networks. Nature Geoscience, 1, 95–100.
- Deemer, B. R., et al. (2016). Greenhouse gas emissions from reservoir water surfaces: A new global synthesis. BioScience, 66(11), 949–964.
- Donato, D. C., et al. (2011). Mangroves among the most carbon-rich forests in the tropics. Nature Geoscience, 4, 293–297.
- Raymond, P. A., et al. (2013). Global carbon dioxide emissions from inland waters. Nature, 503, 355–359.
- Regnier, P., et al. (2013). Anthropogenic perturbation of the carbon fluxes from land to ocean. Nature Geoscience, 6, 597–607.
- Tranvik, L. J., et al. (2009). Lakes and reservoirs as regulators of carbon cycling and climate. Limnology and Oceanography, 54(6), 2298–2314.










