A saíra-apunhalada é uma joia rara da avifauna brasileira, avistada quase exclusivamente na Mata Atlântica do Espírito Santo. Com seu colorido marcante e nome peculiar, essa ave simboliza os desafios da conservação no país. Ainda assim, sua história continua pouco conhecida fora dos círculos especializados.
Saíra-apunhalada a última canção de um tesouro da Mata Atlântica
5/8/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Entre as muitas preciosidades da fauna escondidas nas florestas tropicais do Brasil, poucas despertam tanta curiosidade e preocupação quanto a saíra-apunhalada (Nemosia rourei). Essa pequena ave colorida carrega em si não apenas a beleza típica dos passeriformes neotropicais, mas também o símbolo de uma biodiversidade ameaçada e, por isso mesmo, valiosa.
Por mais de um século, permaneceu conhecida por um único exemplar, capturado em 1870, por Jean de Roure. No entanto, sua redescoberta na década de 1990 reacendeu a esperança de conservação, embora, infelizmente, os riscos permaneçam alarmantes. Segundo a lista da IUCN, a espécie é classificada como “criticamente em perigo”, o nível mais alto antes da extinção na natureza.
“É uma das aves mais ameaçadas das Américas, e sua sobrevivência depende da proteção urgente dos últimos remanescentes florestais.”
— BirdLife International (2019)
Características
De início, o que chama atenção na saíra-apunhalada é sua plumagem exuberante. A garganta de um vermelho intenso, que lhe confere o nome popular, contrasta com o cinza-azulado do corpo e o branco do ventre. Mede entre 12,5 e 14 centímetros de comprimento e pesa cerca de 22 gramas. Até o momento, não se conhece dimorfismo sexual (Ridgely, 1989).
Além disso, a saíra-apunhalada é considerada endêmica da Mata Atlântica, mas com distribuição extremamente restrita às matas montanas do Espírito Santo, em altitudes entre 850 e 1.100 metros. Essa limitação geográfica torna a espécie particularmente vulnerável à perda de habitat. Com o desmatamento, os fragmentos de floresta restantes se tornaram pequenos, isolados e sujeitos a múltiplas pressões, como incêndios e expansão da agropecuária.
Ademais, seu canto é melodioso e complexo, contribuindo para sua identificação em meio à vegetação densa. Todavia, como é uma ave extremamente rara e tímida, sua observação exige paciência e conhecimento especializado.
Ouça o canto
Esforços de conservação
Apesar dos desafios, esforços importantes vêm sendo realizados por organizações como a SAVE Brasil e o Instituto Marcos Daniel, que atuam diretamente na proteção de áreas críticas, sobretudo no município de Conceição do Castelo. Além disso, comunidades locais vêm sendo envolvidas em ações de monitoramento e educação ambiental, o que é essencial para o sucesso a longo prazo.
Por outro lado, a biologia da espécie ainda é pouco conhecida. Devido à sua raridade e hábitos discretos, há poucos registros comportamentais detalhados. Ainda assim, sabe-se que a saíra-apunhalada vive em pares ou pequenos grupos e se alimenta principalmente de insetos e frutos. Estudos indicam que ela prefere áreas de floresta madura, com dossel fechado e rica biodiversidade.
Portanto, a preservação da saíra-apunhalada depende diretamente da conservação da Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos e ameaçados do planeta. É fundamental, por exemplo, investir em corredores ecológicos que conectem os fragmentos florestais restantes, ampliando a área disponível para a espécie e reduzindo o isolamento genético.
O que podemos fazer?
Embora pareça distante da realidade urbana, a proteção da saíra-apunhalada diz respeito a todos nós. A Mata Atlântica, seu habitat, é responsável por serviços ecológicos essenciais, como a regulação climática, a proteção dos mananciais e a manutenção da biodiversidade.
Portanto, apoiar reservas privadas, evitar produtos associados ao desmatamento, valorizar o conhecimento científico e pressionar por políticas públicas eficazes são atitudes que fazem diferença. Mais ainda: divulgar a existência dessa ave rara é um passo importante para fortalecer o vínculo entre as pessoas e o patrimônio natural brasileiro.
Além disso, programas de incentivo à restauração florestal, aliados a políticas públicas eficazes, podem criar um cenário mais promissor. Não se trata apenas de salvar uma ave. Em última análise, proteger a saíra-apunhalada é também preservar todo um ecossistema que abriga milhares de outras espécies, muitas ainda desconhecidas da ciência.
“Encontrar a Nemosia rourei é como descobrir um poema perdido da floresta.”
— Pedro Develey, biólogo e diretor da SAVE Brasil
Curiosamente, o nome científico da espécie – Nemosia rourei – presta homenagem ao próprio descobridor. Contudo, mais do que homenagens históricas, o futuro da saíra-apunhalada exige ações concretas no presente. Assim, cada hectare restaurado, cada floresta preservada, representa um passo na direção da sua sobrevivência.
Em síntese, a saíra-apunhalada simboliza tanto a fragilidade quanto a resiliência da natureza brasileira. Por isso, sua proteção deve ser vista como prioridade nacional e internacional. Afinal, ao assegurar a existência dessa joia rara, reafirmamos nosso compromisso com a vida e com a herança natural do planeta.
Fontes e referências:
- BirdLife International. 2018. Nemosia rourei. The IUCN Red List of Threatened Species 2018: e.T22722293A130617765. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2018-2.RLTS.T22722293A130617765.en. Accessed on 05 August 2025.
- Cherry-throated Tanager Nemosia Rourei Species Factsheet
- Silveira, L. F., Bencke, G. A., & Repenning, M. (2005). Rediscovery of Nemosia rourei, a critically endangered Brazilian tanager. Bird Conservation International, 15(3), 201–206.