Vaca-marinha-de-steller
A vaca-marinha-de-steller (Hydrodamalis gigas) foi um enorme mamífero marinho herbívoro, extinto em 1768, apenas 27 anos após ser descoberto por europeus. Dessa forma, com até nove metros de comprimento e toneladas de gordura, tornou-se presa fácil para caçadores.
Vaca-marinha-de-steller: quando o mar perdeu um gigante

1/7/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Evidências genéticas revelam um passado amplo para a vaca-marinha-de-steller (Hydrodamalis gigas). Sua distribuição se estendia por vastas áreas costeiras do Pacífico Norte. Durante os períodos glaciais, o recuo dos mares e o resfriamento global reduziram severamente os habitats adequados. Assim, a população fragmentou-se.
Com a elevação do nível do mar, há cerca de 5.000 anos, a espécie já se encontrava em declínio acentuado. Estudos genéticos apontam uma diversidade tão baixa quanto a dos últimos mamutes-lanosos da Ilha Wrangel, o que sugere forte consanguinidade e alta vulnerabilidade.

Mesmo sem interferência humana, a vaca-marinha provavelmente caminhava para a extinção. O tamanho populacional mínimo e a baixa variabilidade genética indicavam um vórtice de extinção. A influência humana, porém, acelerou esse processo.
Hydrodamalis gigas
Pertencente à ordem Sirenia, destacava-se como um colosso herbívoro dos mares subárticos, atingindo impressionantes 9 metros de comprimento e cerca de 10 toneladas de peso. Sua pele, espessa, enrugada e acinzentada, lembrava a textura da casca de uma árvore e funcionava como eficaz proteção térmica contra as águas frias do Pacífico Norte.
Embora sua movimentação fosse lenta e seu comportamento notoriamente dócil, vivia em grupos coesos e alimentava-se exclusivamente de kelps, que raspava do fundo com seus grandes lábios córneos. Por essa razão, sua presença contribuía significativamente para o equilíbrio das florestas de algas, favorecendo a entrada de luz e o recrutamento vegetal.
Fatores que levaram à extinção da vaca-marinha-de-steller
A ecologia da região contribuía para o declínio das populações. A lontra-marinha (Enhydra lutris), por exemplo, é uma espécie-chave. Ao controlar os ouriços-do-mar, protege as florestas de algas. Quando sua população caiu nas Ilhas Aleutas, os ouriços proliferaram. Como consequência, as algas desapareceram, prejudicando o alimento da vaca-marinha (Estes & Palmisano, 1974).
“É fácil pensar que, como resultado da extinção do dodô, agora estamos mais tristes e mais sábios, mas há muitas evidências que sugerem que estamos apenas mais tristes e mais bem informados.”
– Douglas Adams, “Last Chance to See”
A caça indígena também pode ter contribuído. O povo Aleuta, por exemplo, teria migrado em direção às Ilhas Comandante para explorar essa nova fonte de alimento. No entanto, as evidências arqueológicas ainda são inconclusivas (West, 2009).
Já o povo Yupik da Ilha de São Lourenço, estabelecido há dois milênios, caçava intensamente mamíferos marinhos. Outrossim, é plausível que tenha levado à extinção local da vaca-marinha naquela área.

Outros fatores
Outros autores sugerem uma interação indireta. Com a caça intensiva das lontras, os ouriços proliferaram, consumindo ainda mais as algas. Como a vaca-marinha dependia desse recurso, sofreu com a escassez. Porém, é provável que esse impacto tenha ocorrido de forma localizada (Estes et al., 2016).
De todo modo, à época da chegada de Vitus Bering, a espécie já estava confinada a pequenas áreas costeiras e desabitadas. Mesmo assim, seria uma presa fácil para caçadores experientes. A presença humana selou seu destino.

Da descoberta à rápida extinção
Em 1741, Georg Wilhelm Steller observou o animal pela primeira vez. Então, relatou sua docilidade, tamanho colossal e dieta herbívora. Estimou-se que restavam apenas 2.000 indivíduos. Em menos de três décadas, estavam extintos.
A saber, a caça foi intensa. Assim, comerciantes russos e caçadores de focas exploravam suas rotas pelo Pacífico Norte e caçavam o animal por sua valiosa gordura subcutânea. Entre 1754 e 1762, expedições registraram os últimos abates. Em 1768, a espécie desapareceu oficialmente.
Curiosamente, os primeiros ataques da tripulação de Bering não obtiveram sucesso. A pele era espessa e resistente. Somente após várias tentativas conseguiram abater um exemplar. Em seguida, desenvolveram métodos eficazes para encalhá-las e abatê-las. O acesso fácil à carne e à gordura atraiu inúmeros caçadores.
Extinção da H. gigas empobreceu a ecologia do Oceano Pacifico
Com o sumiço da vaca-marinha, o ecossistema perdeu mais do que uma espécie. Apesar de não ser uma espécie-chave, seu papel funcional era notável. Ao se alimentar das algas, abria espaço para a entrada de luz, favorecendo o crescimento vegetal. Esse comportamento promovia resiliência ecológica.
Além disso, sua movimentação facilitava a dispersão de esporos de algas, como Nereocystis. Assim, auxiliava na colonização de novos habitats e estimulava o fluxo genético (Estes et al., 2016). Assim sendo, sem ela a conectividade ecológica foi comprometida.
Seja como for, outros efeitos foram registrados. Por exemplo, a coexistência entre lontras-marinhas e invertebrados marinhos — como o quíton-de-couro-preto — pode ter sido possível graças à presença da vaca-marinha. Sua ausência rompeu esse equilíbrio delicado, favorecendo o declínio dos invertebrados (Simenstad et al., 1978).

Em síntese, a extinção da vaca-marinha-de-steller evidencia como alterações climáticas naturais, combinadas com pressões humanas, podem colapsar rapidamente espécies já vulneráveis. Assim, mesmo sem ser uma espécie-chave, sua ausência afetou profundamente a dinâmica das florestas de algas do Pacífico Norte.
Dessa forma, seu desaparecimento ilustra os riscos da exploração predatória e da perda de funções ecológicas sutis. Hoje, seu legado ecoa como um alerta sobre a fragilidade dos grandes herbívoros marinhos. Proteger o que resta é, mais do que nunca, uma urgência planetária.
Fontes e referências:
- Domning, D. 2016. Hydrodamalis gigas. The IUCN Red List of Threatened Species 2016: e.T10303A43792683. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2016-2.RLTS.T10303A43792683.en. Accessed on 01 July 2025.
- Estes, J. A., & Palmisano, J. F. (1974). Sea otters: Their role in structuring nearshore communities. Science, 185(4156), 1058–1060.
- Estes, J. A., Burdin, A., & Doak, D. F. (2016). Sea otters, kelp forests, and the extinction of Steller’s sea cow. Proceedings of the National Academy of Sciences, 113(4), 880–885.
- Simenstad, C. A., Estes, J. A., & Kenyon, K. W. (1978). Aleuts, sea otters, and alternate stable-state communities. Science, 200(4340), 403–411.
- West, C. F. (2009). A renewed look at Aleutian subsistence strategies: Recent research at Amchitka Island, Alaska. Human Ecology, 37(5), 607–619.










