Homo fecalis
Enquanto
o canal da avenida General Garzon continua com sua triste sina
de vomitar esgoto na Lagoa em plena luz do dia diante de milhares
de pessoas, enquanto a CEDAE nega que aquilo seja aquilo chegando às águas
da Lagoa, enquanto a maioria das praias de minha cidade estão
impróprias para o banho devido à chegada de esgoto,
sem que esteja chovendo há mais de uma semana, enquanto “experts” ambientais
afirmam religiosamente que NUNCA existiram manguezais na Lagoa
e conseqüentemente por ser uma vegetação “exótica” após
quinze anos de projeto de recuperação, exigem
a sua retirada, nosso moderno cotidiano é rico em informações
dos mais variados tipos e qualidades.
7-
Mais de 100 milhões de brasileiros
não
contam
com rede de esgotos;
E aí satisfeitos com esse desfile de números frios? Frios no entanto dão uma ligeira idéia do que nossos administradores públicos, nas esferas federal, estadual e municipal bem como nossa sociedade quase que completamente entorpecida vêm deixando acontecer seja por omissão e ou ação com nossos recursos naturais. O que é claro é que a tal da economia dita todas as regras por mais insustentáveis ambientalmente que sejam. Aprisionados em redes de incompetência, impunidade, corporativismo, rabos presos, psicoses, onde todo mundo é amigo e inimigo de todo mundo ao mesmo tempo, onde nunca se sabe de que lado do balcão o administrador público está, onde reclamar publicamente por serviços muito bem pagos e NUNCA recebidos é quase que um pecado mortal, punível com prisão por desacato, afundamos num mar de mediocridade por quase completa falta de reação. Digo quase, pois o exemplo da população de Rondônia diante dos esquemas envolvendo apoio político em troca de apoio econômico veio à altura da falta de vergonha na cara da classe política. Pois é, assim mesmo, apesar dessa M de classe política, continuo acreditando no processo democrático que me garante escrever essas linhas sem que com isso tenha de ser preso. Cabe a nós democraticamente escolher o que tiver de melhor e expulsar o que há de pior. O que precisamos urgentemente é tomar posições agressivas
e objetivas em relação aos problemas ambientais que nos atingem
diariamente, seja nas praias, nas lagoas, baías, rios e no ar que respiramos.
Não podemos continuar aceitando o derrame de milhões de reais em
propaganda em horários nobres mostrando uma qualidade de serviço
que só existe no comercial, diante de um processo de degradação
generalizado onde às verbas para as questões de ordem ambiental
parecem não afligir os “experts” em economia, que arrotam
para a felicidade geral do mercado financeiro, que é quem manda no mundo
dos homens, sucessivos superávits primários com taxas de juros
estratosféricas para pagar uma dívida impagável onde o passivo
ambiental só faz aumentar. Sem dúvida, estamos no caminho da criação de nova espécie de antropóide no Brasil, isto é, Homo fecalis, aquele que só pensa, fala, faz e vive nela. Mais uma vez a decisão é só nossa. Mario Moscatelli - Biólogo - moscatelli@biologo.com.br |
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