Micologia ou micetologia é a ciência que estuda os fungos, organismos que ocupam um lugar singular no mundo vivo.
Os micólogos (micologistas ou micetologistas) pesquisam taxonomia, sistemática, morfologia, fisiologia, bioquímica, utilidades, e os efeitos benéficos e maléficos das espécies de fungos, que podem ser parasitas, saprófitos ou decompositores.
Micologia, a ciência dos fungos
30/8/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
Fungos não são plantas nem animais, mas formam um reino próprio, com características únicas. Embora muitos associem os fungos apenas a mofo ou doenças, sua diversidade e importância são imensas. De fato, eles atuam como decompositores fundamentais, reciclando nutrientes e sustentando ecossistemas inteiros.
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Além disso, mantêm associações simbióticas vitais, como as micorrizas que auxiliam as plantas na absorção de nutrientes. No campo humano, oferecem benefícios notáveis, desde antibióticos até alimentos fermentados. Contudo, também podem causar enfermidades sérias em plantas, animais e pessoas. Assim, compreender os fungos significa reconhecer tanto seus riscos quanto seu papel indispensável para a vida na Terra.
Historicamente, os fungos foram estudados dentro da Botânica, porque eram vistos como “plantas inferiores”. Autores clássicos, como Lineu, incluíram os fungos na classificação das plantas. Assim, durante séculos, a Botânica abrigou a micologia como uma de suas áreas.
“Conhecer os fungos é conhecer parte essencial da própria biosfera.”
– C. J. Alexopoulos (Introductory Mycology, 1996).
No entanto, à medida que a ciência avançou, ficou claro que os fungos formam um reino próprio, distinto de plantas e animais, com características únicas, como a parede celular de quitina e a nutrição heterotrófica (Alexopoulos et al., 1996). Hoje, a Micologia é considerada uma disciplina independente, embora ainda dialogue muito com a Botânica, já que muitas universidades mantêm departamentos de “Botânica e Micologia” devido à tradição e à afinidade ecológica.
História da Micologia
A história da micologia reflete a lenta construção do conhecimento científico sobre os fungos. Inicialmente, filósofos da Grécia Antiga, como Teofrasto, mencionaram fungos apenas como curiosidades naturais, sem compreender sua biologia. No entanto, durante a Idade Média, eles foram associados sobretudo a usos medicinais e práticas místicas.
A palavra Micologia vem do grego “Mykes” que quer dizer cogumelo e “logos” estudo.
Com o avanço do Renascimento, estudiosos começaram a descrevê-los de forma mais sistemática, embora ainda sem distinção clara entre plantas e fungos. Somente no século XVIII, com Lineu, os fungos foram incluídos na classificação biológica, ainda que de modo limitado,
Posteriormente, no século XIX, micologistas como Elias Magnus Fries estabeleceram uma base taxonômica sólida, tornando-se referência até hoje. Além disso, a invenção do microscópio revelou estruturas reprodutivas antes invisíveis, transformando a compreensão desses organismos (Watling & Moore, 1994).
“Fries foi para a micologia o que Lineu foi para a botânica.”
– John Webster
Já no século XX, avanços em bioquímica e genética consolidaram os fungos como modelo de pesquisa. Finalmente, com as ferramentas moleculares do século XXI, a micologia alcançou novas fronteiras, ampliando seu papel na ecologia, medicina e biotecnologia (Blackwell, 2011). Assim, a trajetória histórica da micologia mostra como a ciência evolui de observações empíricas para análises sofisticadas e integradas.
Micologia medicinal
A micologia medicinal estuda os fungos com relevância direta para a saúde humana. Desde o início do século XX, o uso da penicilina, derivada de Penicillium notatum, revolucionou a medicina ao introduzir os antibióticos (Fleming, 1929).
Além disso, outras espécies forneceram drogas valiosas, como a ciclosporina, essencial em transplantes, e as estatinas, usadas no controle do colesterol (Moore & Fraiture, 2014). Entretanto, os fungos também representam ameaças sérias, pois causam micoses superficiais e sistêmicas, que podem ser letais em pacientes imunocomprometidos (Brown et al., 2012).
Nesse sentido, compreender a biologia dos fungos torna-se fundamental para desenvolver novos antifúngicos. Ao mesmo tempo, pesquisas atuais exploram metabólitos secundários com potencial farmacológico pouco conhecido. Portanto, a micologia medicinal revela tanto riscos quanto oportunidades, reafirmando a importância dos fungos na medicina contemporânea.
“Muitos medicamentos que salvaram milhões de vidas são presentes dos fungos.”
– Arturo Casadevall, microbiologista e imunologista
Conclusão: a importância da Micologia
A micologia revela-se um campo essencial para compreender a complexidade da vida. De fato, os fungos desempenham papéis insubstituíveis nos ecossistemas, garantindo a reciclagem de nutrientes e sustentando cadeias alimentares (Peay et al., 2016).
Além disso, sua aplicação na medicina e na biotecnologia oferece soluções inovadoras para desafios de saúde e sustentabilidade (Hyde et al., 2019). Contudo, os riscos associados às micoses e à resistência antifúngica reforçam a necessidade de aprofundar pesquisas nesse campo (Fisher et al., 2020).
Assim, o estudo dos fungos não se limita ao interesse acadêmico, mas impacta diretamente a vida humana e a conservação ambiental. Portanto, a micologia deve ser valorizada como ciência estratégica. Em síntese, compreender os fungos é também decifrar parte fundamental da dinâmica planetária.
Fontes e referências:
- Blackwell, M. (2011). The Fungi: 1, 2, 3 … 5.1 million species? American Journal of Botany, 98(3), 426–438. DOI: 10.3732/ajb.1000298
- Watling, R., & Moore, D. (1994). Guided Tour of the Fungi. Cambridge University Press.
- Brown, G. D., Denning, D. W., & Levitz, S. M. (2012). Tackling human fungal infections. Science, 336(6082), 647. DOI: 10.1126/science.1222236
- Fleming, A. (1929). On the antibacterial action of cultures of Penicillium, with special reference to their use in the isolation of B. influenzae. British Journal of Experimental Pathology, 10(3), 226–236.
- Moore, D., & Fraiture, A. (2014). Fungal Biology in the Origin and Emergence of Life. Cambridge University Press.
- Fisher, M. C., et al. (2020). Threats posed by the fungal kingdom to humans, wildlife, and agriculture. mBio, 11(3), e00449-20. https://doi.org/10.1017/CBO9781139524049
- Hyde, K. D., et al. (2019). The amazing potential of fungi: 50 ways we can exploit fungi industrially. Fungal Diversity, 97, 1–136. https://doi.org/10.1007/s13225-019-00430-9
- Peay, K. G., Kennedy, P. G., & Talbot, J. M. (2016). Dimensions of biodiversity in the Earth mycobiome. Nature Reviews Microbiology, 14(7), 434–447. https://doi.org/10.1038/nrmicro.2016.59
