Os fungos micorrízicos desempenham um papel vital na absorção de nutrientes pelas plantas. Por meio de uma associação simbiótica com as raízes, eles ampliam a área de absorção do sistema radicular. Além disso, fortalecem a resistência das plantas a estresses ambientais e patógenos. Sua presença é crucial para a saúde e sustentabilidade dos ecossistemas terrestres.
O papel vital dos fungos micorrízicos: Florestas Invisíveis
3/7/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Embora invisíveis a olho nu, os fungos micorrízicos desempenham um papel silencioso e essencial na sustentação da vida terrestre. Esses organismos formam associações simbióticas com as raízes da maioria das plantas, estabelecendo uma complexa rede de trocas bioquímicas e benefícios mútuos. Ao penetrar ou envolver as raízes, eles ampliam significativamente a capacidade das plantas de absorver minerais, especialmente fósforo, além de aumentar a tolerância à seca e a resistência a patógenos.
Desde os primeiros registros de plantas terrestres, há cerca de 450 milhões de anos, acredita-se que os fungos micorrízicos tenham sido aliados fundamentais na colonização do ambiente terrestre. De fato, evidências fósseis e análises moleculares indicam que essa simbiose precede a evolução das raízes modernas. Assim, ao longo da história evolutiva, os fungos micorrízicos moldaram a arquitetura e a fisiologia das plantas (Redecker et al., 2000).
As micorrizas são classificadas, principalmente, em dois tipos: ectomicorrizas e endomicorrizas. As primeiras envolvem as raízes sem penetrar nas células, sendo comuns em árvores de florestas temperadas. Já as endomicorrizas, especialmente as do tipo arbuscular, penetram nas células radiculares, formando estruturas especializadas chamadas arbúsculos. Essas estruturas aumentam exponencialmente a superfície de troca entre fungo e planta (Smith & Read, 2008).
“Wood wide web”: Uma “rede social” de plantas e fungos no solo
Sob o solo, essas associações simbióticas geram aquilo que os cientistas chamam de “wood wide web” — uma rede subterrânea interconectada que permite a transferência de nutrientes, sinais químicos e até mesmo compostos defensivos entre diferentes plantas. Assim, por meio dos fungos micorrízicos, as florestas tornam-se verdadeiras comunidades interdependentes, capazes de compartilhar recursos e informações, atuando como organismos coletivos (Simard et al., 1997).
Além disso, os fungos micorrízicos contribuem decisivamente para a estruturação do solo. Suas hifas criam agregados estáveis, favorecendo a retenção de água, a aeração e o armazenamento de carbono. Nesse contexto, eles atuam como engenheiros invisíveis dos ecossistemas, promovendo a fertilidade e o equilíbrio edáfico (Rillig et al., 2019).
No entanto, o papel desses fungos vai muito além da esfera bioquímica. Como resultado, em ambientes naturais, a diversidade micorrízica está fortemente correlacionada com a resiliência ecológica. Assim sendo, quanto maior a variedade de fungos simbiontes em um ecossistema, mais robusto ele tende a ser diante de distúrbios ambientais, como incêndios, seca e introdução de espécies invasoras (van der Heijden et al., 1998).
Fungos micorrízicos na economia e na ecologia
A saber, em sistemas agrícolas, a inoculação com fungos micorrízicos tem sido uma prática promissora. Nesse sentido, diversos estudos demonstram que culturas como milho, soja e trigo apresentam melhor desempenho quando associadas a fungos simbióticos. De tal forma que o uso racional dessas interações pode reduzir a necessidade de fertilizantes químicos, promovendo uma agricultura mais sustentável (Berruti et al., 2016).
Entretanto, as práticas humanas têm causado impactos negativos significativos sobre essa simbiose ancestral. A compactação do solo, o uso excessivo de agrotóxicos e a fragmentação de habitats naturais comprometem a diversidade e funcionalidade das comunidades micorrízicas. Portanto, conservar e restaurar ecossistemas passa, inevitavelmente, por compreender e proteger essas relações invisíveis (Helgason & Fitter, 2009).
Além disso, estudos recentes indicam que a presença ou ausência de fungos micorrízicos pode alterar a composição vegetal de um ambiente. De fato, certas plantas, ao se beneficiarem da rede fúngica, tornam-se mais competitivas, alterando o equilíbrio entre espécies e influenciando os processos sucessórios (Teste et al., 2009).
Eu pensava que uma floresta era composta inteiramente de árvores, mas agora sei que a base está abaixo do solo, nos fungos.
– Derrick Jensen, ambientalista norte-americano
Um mundo a ser revelado
Apesar de sua importância, ainda há muito a ser descoberto sobre os mecanismos moleculares que regem essa interação simbiótica. Embora saibamos que fungos micorrízicos modulam genes de defesa, transporte de nutrientes e desenvolvimento radicular, os detalhes dessas vias bioquímicas continuam a ser objeto de intensa investigação científica (Plett & Martin, 2011).
A microbiota do solo, da qual os fungos micorrízicos fazem parte, representa um vasto universo ainda subexplorado. Estima-se que apenas uma fração ínfima das espécies fúngicas tenha sido descrita. Além disso, novas tecnologias de sequenciamento vêm revelando uma diversidade muito maior do que se imaginava, abrindo horizontes para aplicações inovadoras em biotecnologia e conservação (Tedersoo et al., 2014).
Dessa maneira, pesquisas mostram que espécies vegetais ameaçadas de extinção frequentemente dependem de fungos micorrízicos específicos para germinar e crescer. Nesse sentido, programas de conservação ex situ, como jardins botânicos e bancos de sementes, precisam considerar a simbiose como um componente essencial da restauração ecológica (Miller et al., 2017).
Conclusão
Não apenas o papel funcional, os fungos micorrízicos também nos convidam a uma reflexão filosófica. Já que eles desafiam a visão tradicional de competição e individualismo na natureza, oferecendo um paradigma baseado em colaboração e redes de apoio. Assim, em vez de lutarem isoladamente por recursos, as plantas interligadas pelas micorrizas constroem comunidades solidárias.
Portanto, ao andarmos por uma floresta, talvez devêssemos imaginar, sob nossos pés, uma teia viva e vibrante, tecida por bilhões de filamentos fúngicos, conectando árvores, arbustos e ervas em um elo silencioso de cooperação. Esses fungos são, em essência, os fios invisíveis que costuram a integridade ecológica da Terra.
Em tempos de grave crise ambiental, reconhecer a importância dos fungos micorrízicos não é apenas um ato de ciência, mas também de sabedoria. Proteger esses organismos discretos é proteger as bases da vida vegetal, e, por conseguinte, garantir a estabilidade dos ecossistemas dos quais dependemos.
Em resumo, se quisermos restaurar florestas degradadas, combater as mudanças climáticas e promover uma agricultura sustentável, devemos olhar além da superfície. Afinal, são as florestas invisíveis, sustentadas pelos fungos micorrízicos, que tornam possível a exuberância da vida acima do solo.
Fontes e referências:
- Berruti, A., Lumini, E., Balestrini, R., & Bianciotto, V. (2016). Arbuscular mycorrhizal fungi as natural biofertilizers: let’s benefit from past successes. Frontiers in Microbiology, 6, 1559. https://doi.org/10.3389/fmicb.2015.01559
- Helgason, T., & Fitter, A. H. (2009). Natural selection and the evolutionary ecology of the arbuscular mycorrhizal fungi (Phylum Glomeromycota). Journal of Experimental Botany, 60(9), 2465–2480. https://doi.org/10.1093/jxb/erp144
- Miller, R. M., Reinhardt, D. R., & Jastrow, J. D. (2017). External hyphal production of vesicular–arbuscular mycorrhizal fungi in pasture and tallgrass prairie communities. Oecologia, 114, 356–364. DOI: 10.1007/BF00328420
- Plett, J. M., & Martin, F. (2011). Blurred boundaries: lifestyle lessons from ectomycorrhizal fungal genomes. Trends in Genetics, 27(1), 14–22. https://doi.org/10.1016/j.tig.2010.10.005
- Redecker, D., Kodner, R., & Graham, L. E. (2000). Glomalean fungi from the Ordovician. Science, 289(5486), 1920–1921. https://doi.org/10.1126/science.289.5486.1920
- Rillig, M. C., Aguilar-Trigueros, C. A., Camenzind, T., Cavagnaro, T. R., Degrune, F., Hohmann, P., … & Yang, G. (2019). Why farmers should manage the arbuscular mycorrhizal symbiosis. New Phytologist, 205(4), 1385–1391. https://doi.org/10.1111/nph.13292
- Simard, S. W., Perry, D. A., Jones, M. D., Myrold, D. D., Durall, D. M., & Molina, R. (1997). Net transfer of carbon between ectomycorrhizal tree species in the field. Nature, 388, 579–582. https://doi.org/10.1038/41557
- Smith, S. E., & Read, D. J. (2008). Mycorrhizal Symbiosis (3rd ed.). Academic Press. https://doi.org/10.1016/B978-0-12-370526-6.X5001-6
- Tedersoo, L., Bahram, M., Toots, M., et al. (2014). Global diversity and geography of soil fungi. Science, 346(6213), 1256688. https://doi.org/10.1126/science.1256688
- Teste, F. P., Simard, S. W., Durall, D. M., et al. (2009). Access to mycorrhizal networks and roots of trees: importance for seedling survival and resource transfer. Ecology, 90(10), 2808–2822. https://doi.org/10.1890/08-1884.1
- van der Heijden, M. G., Klironomos, J. N., Ursic, M., et al. (1998). Mycorrhizal fungal diversity determines plant biodiversity, ecosystem variability and productivity. Nature, 396(6706), 69–72. https://doi.org/10.1038/23932