Parasitismo complexo: na natureza, algumas relações entre parasitas e hospedeiros surpreendem pela sofisticação. Entre elas, destacam-se os casos em que organismos manipulam o comportamento de outros seres, transformando-os em instrumentos de sua própria sobrevivência.
Parasitismo complexo – manipulando o comportamento do hospedeiro
5/9/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
A natureza revela sua engenhosidade de forma inesperada quando observamos o parasitismo que altera comportamentos. Alguns organismos desenvolveram estratégias tão sutis quanto perturbadoras, capazes de transformar seus hospedeiros em marionetes biológicas. Esse fenômeno, embora cruel em aparência, é um exemplo impressionante de adaptação evolutiva.
Essa classe de parasitismo é interessante porque revela como a evolução molda interações refinadas entre organismos. Além disso, mostra que parasitas podem manipular sistemas nervosos e comportamentos com precisão notável. Por fim, oferece insights úteis para ecologia, neurobiologia e até aplicações médicas.
“Parasitismo é um palco onde a evolução encena alguns de seus experimentos mais engenhosos e perturbadores.” — Carl Zimmer, Parasite Rex (2000).
Fungos que controlam mentes
Entre os exemplos mais célebres encontram-se os fungos do gênero Ophiocordyceps. Esses microrganismos infectam insetos, principalmente formigas, e induzem mudanças drásticas no comportamento. Após a infecção, o fungo invade tecidos e atinge o sistema nervoso. Com o avanço do parasitismo, a formiga abandona seu comportamento normal. Em vez de seguir a trilha da colônia, ela escala plantas e se fixa a folhas ou galhos. Nesse ponto, o fungo cresce para fora do corpo, liberando novos esporos que atingem outras vítimas (Evans et al., 2011).
Esse mecanismo parece saído da ficção científica, mas possui explicações fisiológicas. Pesquisas mostram que moléculas bioativas do fungo interferem em neurotransmissores e em músculos mandibulares. Assim, o hospedeiro é compelido a se prender ao substrato em um “mordida da morte”, garantindo ao parasita a posição ideal para sua reprodução (de Bekker et al., 2014). Além disso, análises genômicas revelaram que o fungo ativa genes específicos apenas durante essa fase comportamental, reforçando que se trata de uma manipulação refinada (de Bekker et al., 2017).
Ademais, a relação não ocorre de modo uniforme. Diferentes espécies de Ophiocordyceps exercem pressões seletivas distintas sobre suas presas. Logo, o fenômeno também ilustra a coevolução. Enquanto o fungo se especializa em manipular, as formigas desenvolvem defesas sociais, como a remoção de indivíduos infectados da colônia (Loreto et al., 2014). Essa dança evolutiva mostra como o parasitismo molda não apenas organismos isolados, mas também sociedades inteiras.
“Parasitas são os ‘neurobiólogos’ da evolução, especialistas em manipular cérebros alheios para garantir sua perpetuação.” — Shelley A. Adamo (2013).
Vespas manipuladoras
Outro caso fascinante envolve vespas parasitoides. Muitas delas utilizam aranhas ou baratas como hospedeiros temporários. Por exemplo, vespas do gênero Hymenoepimecis injetam ovos em aranhas construtoras de teias. O desenvolvimento da larva ocorre lentamente, mas, em determinado estágio, o parasita libera substâncias que modificam o comportamento da aranha. Em vez de tecer sua teia normal, a hospedeira cria uma estrutura reforçada e estática. Essa construção, no entanto, serve apenas para sustentar o casulo da vespa, que se desenvolve em segurança (Eberhard, 2000).
Já a vespa esmeralda, Ampulex compressa, adota um processo ainda mais preciso. Ela pica diretamente o cérebro da barata e libera neurotoxinas que reduzem sua motivação de locomoção (Gal et al., 2005). A barata não perde funções vitais, mas se torna dócil e passiva. A vespa então conduz o inseto como se fosse um animal de estimação, levando-o até um abrigo, onde deposita um ovo. Posteriormente, a larva se alimenta do hospedeiro vivo.
Além disso, outras espécies de vespas mostram estratégias igualmente engenhosas. Algumas liberam hormônios que prolongam a vida de seus hospedeiros, garantindo alimento fresco por mais tempo (Harvey et al., 2010). Portanto, as manipulações variam de simples alterações motoras até complexas transformações comportamentais.
“Ao manipular o hospedeiro, o parasita redefine os limites entre autonomia e controle na biologia.”
— Robert Poulin (2010).
Esses exemplos evidenciam que o parasitismo não se resume à exploração fisiológica. Ele se estende ao controle de circuitos nervosos e de padrões instintivos. Assim, o parasita transforma o comportamento em recurso, ampliando suas chances de sucesso reprodutivo.
Outros organismos e implicações evolutivas
Embora fungos e vespas se destaquem, outros organismos também exibem estratégias semelhantes. O protozoário Toxoplasma gondii, por exemplo, altera o comportamento de roedores. Animais infectados perdem o medo inato de odores de felinos, tornando-se presas fáceis. Dessa forma, o ciclo do parasita se completa, pois ele só se reproduz em intestinos de gatos (Berdoy et al., 2000).
Além disso, nematódeos também manipulam insetos aquáticos, induzindo-os a saltar para fora da água. Assim, os hospedeiros acabam servindo de presas para pássaros, que se tornam novos hospedeiros definitivos (Thomas et al., 2002). Portanto, a diversidade de mecanismos reforça que o controle comportamental evoluiu múltiplas vezes de maneira independente.
“O comportamento animal não pode ser entendido plenamente sem considerar a influência invisível, mas poderosa, dos parasitas.” — David P. Hughes (2012).
Parasitas invisíveis
Essas observações trazem reflexões amplas. Primeiro, elas revelam que o comportamento animal não resulta apenas de fatores genéticos ou ambientais clássicos. Ele também pode ser moldado por parasitas invisíveis. Segundo, mostram como a seleção natural favorece estratégias criativas, mesmo quando parecem cruéis sob a ótica humana. Finalmente, tais casos desafiam fronteiras conceituais. Afinal, até que ponto a ação de um organismo externo redefine a autonomia de outro?
Além disso, há implicações médicas. Estudos sobre Toxoplasma e fungos manipuladores ajudam a compreender como patógenos interferem em sistemas nervosos complexos. Assim, pesquisas sobre insetos e aranhas podem iluminar mecanismos úteis para a biomedicina (Adamo, 2013).
Em conclusão, o parasitismo que manipula comportamentos é uma vitrine da engenhosidade evolutiva. Fungos, vespas, protozoários e nematódeos mostram que a vida encontrou caminhos para transformar hospedeiros em ferramentas de perpetuação. Ainda que perturbadores, esses exemplos ampliam a compreensão da biologia como um campo em que a criatividade da natureza supera a imaginação humana.
Fontes e referências:
- Adamo, S. A. (2013). Parasites: evolution’s neurobiologists. Journal of Experimental Biology, 216(1), 3–10. DOI: 10.1242/jeb.073601
- Berdoy, M., Webster, J. P., & Macdonald, D. W. (2000). Fatal attraction in rats infected with Toxoplasma gondii. Proceedings of the Royal Society B, 267(1452), 1591–1594. doi: 10.1098/rspb.2000.1182
- de Bekker, C., Quevillon, L. E., Smith, P. B., Fleming, K. R., Ghosh, D., Patterson, A. D., & Hughes, D. P. (2014). Species-specific ant brain manipulation by a specialized fungal parasite. BMC Evolutionary Biology, 14, 166. DOI: doi.org/10.1186/s12862-014-0166-3
- de Bekker, C., Ohm, R. A., Loreto, R. G., Sebastian, A., Albert, I., Merrow, M., & Hughes, D. P. (2017). Gene-expression during zombie-ant biting behavior reflects the complexity underlying fungal parasitic behavioral manipulation. BMC Genomics, 18, 1–14. DOI: doi.org/10.1186/s12864-015-1812-x
- Eberhard, W. G. (2000). Spider manipulation by a wasp larva. Nature, 406(6793), 255–256. DOI: 10.1038/35018636
- Evans, H. C., Elliot, S. L., & Hughes, D. P. (2011). Hidden diversity behind the zombie-ant fungus Ophiocordyceps unilateralis. PLoS ONE, 6(3), e17024. DOI: 10.1371/journal.pone.0017024
- Gal, R., Libersat, F., & Luz, N. (2005). A wasp manipulates neuronal activity in the brain of its cockroach prey. Nature, 433(7024), 193–194. DOI: 10.1371/journal.pone.0010019
- Harvey, J. A., Poelman, E. H., & Tanaka, T. (2010). Intrinsic inter- and intraspecific competition in parasitoid wasps. Annual Review of Entomology, 55, 317–338. DOI: 10.1146/annurev-ento-120811-153622
- Loreto, R. G., Elliott, S. L., Freitas, M. L. R., Pereira, T. M., & Hughes, D. P. (2014). Long-term disease dynamics for a specialized parasite of ant societies. PLoS ONE, 9(8), e103516.
- Thomas, F., Poulin, R., & Brodeur, J. (2002). Host manipulation by parasites: a multidimensional phenomenon. Oikos, 97(1), 3–12. [PDF]