Rewilding é a prática de restaurar ecossistemas degradados, reintroduzindo espécies nativas, permitindo que a natureza retome seus próprios processos. Dessa forma, promove a biodiversidade e fortalece a resiliência ambiental.
Rewilding: o retorno de grandes animais à natureza
13/8/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
A relação entre humanos e animais de grande porte percorre um caminho longo e complexo. Desde o início da civilização, a caça, a domesticação e a expansão agrícola reduziram populações e alteraram ecossistemas inteiros. Hoje, no entanto, um conceito ganha força no campo da conservação: o rewilding. Esse termo, que pode ser traduzido como “renaturalização”, propõe devolver à natureza espécies ausentes, recriando processos ecológicos perdidos.
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Ao contrário de projetos tradicionais de preservação, o rewilding busca restaurar funções ecológicas completas. Isso significa reintroduzir animais que desempenham papéis-chave, como predadores de topo ou grandes herbívoros. Essas espécies moldam paisagens, regulam cadeias alimentares e mantêm a biodiversidade. Portanto, não se trata apenas de trazer de volta uma espécie, mas de recuperar a dinâmica viva de um ecossistema.
“Rewilding não é apenas sobre trazer de volta espécies, mas sobre restaurar a tapeçaria viva que sustenta a vida.”
— George Monbiot, escritor e ativista ambiental.
Embora pareça ousado, essa abordagem já apresenta resultados concretos. Em vários lugares, a reintrodução de animais alterou positivamente a estrutura e a resiliência de habitats. No entanto, também exige debates éticos, planejamento científico e diálogo com comunidades locais.
O conceito e sua aplicação
O rewilding ganhou notoriedade nos anos 1990, quando conservacionistas começaram a discutir a restauração de ecossistemas em grande escala (Soulé & Noss, 1998). Ao focar em “espécies-chave” — organismos que exercem papel desproporcional em relação à sua abundância — a estratégia visa restabelecer interações essenciais. Assim, um lobo que controla populações de herbívoros ou um bisão que mantém campos abertos exemplificam o papel ecológico central desses animais.
Um caso emblemático é o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. A reintrodução do lobo-cinzento, em 1995, trouxe efeitos cascata. Os cervos reduziram o sobrepastoreio, permitindo que salgueiros e álamos se recuperassem. Essa vegetação renovada atraiu castores, que criaram represas, beneficiando aves e peixes (Ripple & Beschta, 2012). Assim, o rewilding mostrou como uma única espécie pode redefinir a paisagem.
“O retorno dos grandes animais não é nostalgia: é ecologia em ação.”
— Benedict Macdonald, naturalista e autor de Rebirding.
Na Europa, a reintrodução de grandes herbívoros, como o cavalo-de-Przewalski e o bisão-europeu, ajudou a restaurar áreas abertas, favorecendo polinizadores e plantas raras (Svenning et al., 2016). Ao mesmo tempo, esses projetos estimulam o ecoturismo e a economia local.
Entretanto, nem sempre os desafios são biológicos. Muitas vezes, barreiras políticas e sociais limitam o avanço. A convivência com grandes predadores, por exemplo, pode gerar conflitos com pecuaristas. Por isso, o rewilding precisa incluir compensações, programas educativos e medidas preventivas contra ataques a rebanhos.
Benefícios ecológicos e sociais
O retorno de grandes animais não beneficia apenas a biodiversidade. Ao restaurar processos naturais, o rewilding também aumenta a resiliência ecológica. Isso significa que ecossistemas reequilibrados respondem melhor a mudanças climáticas e eventos extremos. Por exemplo, o pastoreio natural de herbívoros pode reduzir o risco de incêndios florestais, pois mantém a biomassa vegetal sob controle.
Além disso, predadores regulam populações e evitam explosões demográficas que poderiam degradar habitats. Assim, o rewilding atua como uma solução natural para problemas que, de outra forma, exigiriam manejo humano constante.
O impacto positivo se estende à sociedade. Projetos de reintrodução frequentemente se tornam atrativos turísticos, criando empregos e incentivando o orgulho comunitário pela fauna local. Em regiões rurais, a presença de grandes animais pode valorizar a paisagem e atrair investimentos.
Ainda assim, é essencial considerar riscos ecológicos. Reintroduzir espécies fora de seu contexto histórico pode gerar desequilíbrios. Por isso, estudos genéticos, análises de habitat e avaliação de impactos socioeconômicos são passos indispensáveis (IUCN, 2013).
“O rewilding nos lembra que somos apenas uma parte de algo muito maior e mais antigo.”
— Kristine Tompkins, conservacionista e fundadora da Tompkins Conservation.
Desafios e perspectivas futuras
Apesar dos avanços, o rewilding enfrenta críticas. Alguns especialistas argumentam que, em um mundo alterado pela urbanização e pela agricultura intensiva, nem sempre é possível restaurar ecossistemas a um estado “prístino”. Outros alertam para a possibilidade de impactos negativos não previstos, especialmente quando se reintroduzem espécies extintas localmente há séculos.
No entanto, defensores destacam que a essência do rewilding não é recriar o passado de forma exata, mas restaurar funções ecológicas perdidas. Assim, mesmo em paisagens modificadas, é possível recuperar processos que beneficiem tanto a biodiversidade quanto as pessoas.
Com as mudanças climáticas acelerando a perda de habitats, o rewilding pode se tornar uma das estratégias mais promissoras para manter ecossistemas funcionais. Ademais, essa abordagem incentiva a reconexão emocional entre humanos e natureza, lembrando que coexistimos em uma rede viva e interdependente.
Em síntese, futuro dessa prática dependerá de políticas públicas, apoio comunitário e pesquisa contínua. A cooperação internacional e a troca de experiências entre países já se mostram essenciais para o sucesso de novos projetos. Se conduzido com responsabilidade, o rewilding poderá transformar não apenas paisagens, mas também a relação que a humanidade mantém com o mundo natural.
Fontes e referências:
- IUCN (2013). Guidelines for reintroductions and other conservation translocations. IUCN Species Survival Commission.
- Ripple, W. J., & Beschta, R. L. (2012). Trophic cascades in Yellowstone: The first 15 years after wolf reintroduction. Biological Conservation, 145(1), 205–213.
- Soulé, M. E., & Noss, R. F. (1998). Rewilding and biodiversity: Complementary goals for continental conservation. Wild Earth, 8(3), 18–28.
- Svenning, J. C., et al. (2016). Science for a wilder Anthropocene: Synthesis and future directions for trophic rewilding research. PNAS