Peixes que respiram ar: a transição da água para a terra moldou um dos capítulos mais fascinantes da evolução dos vertebrados. Entre os protagonistas desse enredo, os peixes que respiram ar revelam estratégias únicas para sobreviver na fronteira entre dois mundos.
Peixes que respiram ar: fronteiras entre a água e a terra
23/9/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
A vida na Terra começou nos oceanos, mas em certo ponto da evolução, alguns organismos conseguiram cruzar a fronteira para o ambiente terrestre. Entre eles, destacam-se os peixes capazes de respirar o ar diretamente, seres que habitam um território liminar entre água e terra. Eles revelam não apenas estratégias de sobrevivência excepcionais, mas também pistas valiosas sobre a transição evolutiva que levou à origem dos tetrápodes.
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De fato, em condições adversas como seca, ambientes hipoxêmicos ou marés instáveis, esses peixes acionam mecanismos fisiológicos surpreendentes para absorver oxigênio diretamente da atmosfera. Alguns utilizam pulmões primitivos, outros adaptaram brânquias modificadas ou até mesmo superfícies cutâneas vascularizadas (Graham, 1997). Assim, representam um dos exemplos mais impressionantes da plasticidade biológica.
“A passagem do ambiente aquático para o terrestre não ocorreu de forma abrupta, mas por meio de organismos intermediários, capazes de respirar tanto água quanto ar.” (Clack, Gaining Ground, 2012)
Estratégias respiratórias e adaptações
Embora a respiração aquática continue predominante, diversas espécies desenvolveram estruturas complementares que lhes permitem extrair oxigênio do ar. Os dipnoicos, conhecidos como peixes pulmonados, talvez sejam os exemplos mais emblemáticos. Eles possuem pulmões verdadeiros, homólogos aos de anfíbios e mamíferos, e realizam movimentos de deglutição de ar para manter sua oxigenação (Nelson et al., 2016).
Por outro lado, espécies como os anabantídeos — grupo que inclui o peixe-beta e o gourami — desenvolveram o chamado órgão labirinto, uma estrutura derivada do epitélio faríngeo que possibilita a captação direta de oxigênio atmosférico (Kramer, 1983). Além deles, alguns bagres e enguias exibem respiração cutânea significativa, absorvendo oxigênio pela pele, especialmente quando se locomovem fora d’água (Sayer, 2005).
Outro caso fascinante é o dos manguezais, onde espécies como o peixe-borboleta-da-lama (Periophthalmus spp.) caminham sobre o lodo e respiram ar com ajuda de cavidades bucais mantidas úmidas. Essas adaptações garantem não apenas a sobrevivência em condições de baixa oxigenação, mas também ampliam as possibilidades ecológicas de ocupação de novos nichos.
Ecologia e comportamento na zona de transição
A vida de um peixe que respira ar exige escolhas arriscadas. Embora obtenham liberdade para explorar margens, charcos temporários ou troncos expostos, eles se tornam também mais vulneráveis a predadores terrestres e às mudanças ambientais rápidas. Contudo, essa estratégia oferece vantagens importantes, especialmente em regiões tropicais sujeitas à sazonalidade extrema.
Durante as secas, por exemplo, o peixe pulmonado sul-americano Lepidosiren paradoxa entra em estivação, enterrando-se no substrato e utilizando seus pulmões para sobreviver por meses até o retorno das chuvas. Já o peixe-borboleta-da-lama (Periophthalmus sp.) explora a borda dos manguezais, caçando insetos e crustáceos fora d’água, em um comportamento que sugere uma antecipação evolutiva ao estilo de vida anfíbio (Gibb & Ashley-Ross, 2006).
Além disso, espécies com respiração aérea exibem tolerância notável a ambientes com baixos níveis de oxigênio dissolvido, condição fatal para a maioria dos peixes estritamente aquáticos. Isso lhes garante vantagens competitivas em habitats instáveis e sujeitos a variações bruscas, como lagoas temporárias e zonas de maré. Assim, esses organismos revelam como a flexibilidade fisiológica pode moldar estratégias de sobrevivência em ecossistemas desafiadores.
“Ao observarmos um peixe que respira ar, vislumbramos não apenas uma curiosidade biológica, mas um espelho dos primeiros passos de nossa própria linhagem.” (Shubin, Your Inner Fish, 2008)
Implicações evolutivas e científicas
A existência de peixes que respiram ar lança luz sobre um dos capítulos mais importantes da história da vida: a transição dos vertebrados para a terra firme. Embora não sejam os ancestrais diretos dos tetrápodes, muitos deles preservam características que ajudam a compreender os passos evolutivos necessários para a colonização do ambiente terrestre.
Pesquisas com fósseis como Tiktaalik roseae mostram como nadadeiras robustas e sistemas respiratórios mistos foram essenciais na passagem para a vida terrestre (Daeschler et al., 2006). Por sua vez, os peixes atuais fornecem modelos vivos para estudar como órgãos respiratórios múltiplos podem coexistir e se complementar.
Além disso, a investigação sobre essas espécies traz aplicações biomédicas e ecológicas. O estudo da estivação em peixes pulmonados, por exemplo, oferece insights sobre metabolismo reduzido e resistência a hipóxia, temas relevantes para a medicina humana (Storey & Storey, 2012). Do ponto de vista conservacionista, compreender a ecologia desses organismos é crucial, pois muitos habitam áreas ameaçadas por desmatamento, mudanças climáticas e poluição aquática.
“A sobrevivência de peixes em ambientes anóxicos mostra que a vida sempre encontra caminhos inesperados para persistir.” (Storey & Storey, Journal of Experimental Biology, 2012)
Os peixes que respiram ar são testemunhas vivas da transição entre dois mundos. Eles revelam como a vida encontrou soluções criativas para enfrentar ambientes hostis e como a evolução pode operar em cenários de instabilidade. Ao mesmo tempo, inspiram pesquisas que conectam paleontologia, fisiologia e conservação.
Assim, compreender esses seres significa reconhecer não apenas um passado compartilhado, mas também refletir sobre os limites da adaptação biológica diante das mudanças ambientais aceleradas. Na fronteira entre a água e a terra, esses peixes continuam a contar a história da vida em movimento.
Fontes e referências:
- Daeschler, E. B., Shubin, N. H., & Jenkins, F. A. (2006). A Devonian tetrapod-like fish and the evolution of the tetrapod body plan. Nature, 440(7085), 757–763.
- Gibb, A. C., & Ashley-Ross, M. A. (2006). Fish out of water: terrestrial jumping by fully aquatic fishes. Journal of Experimental Zoology Part A, 305(9), 689–705. DOI:10.1002/jez.711
- Graham, J. B. (1997). Air-breathing fishes: evolution, diversity, and adaptation. Academic Press.
- Kramer, D. L. (1983). The evolutionary ecology of respiratory mode in fishes: an analysis based on the costs of breathing. Environmental Biology of Fishes, 9, 145–158. doi.org/10.1007/BF00690859
- Nelson, J. S., Grande, T. C., & Wilson, M. V. H. (2016). Fishes of the World. Wiley.
- Sayer, M. D. J. (2005). Adaptations of amphibious fish for surviving life out of water. Fish and Fisheries, 6(3), 186–211. doi.org/10.1111/j.1467-2979.2005.00193.x
- Storey, K. B., & Storey, J. M. (2012). Aestivation: signaling and hypometabolism. Journal of Experimental Biology, 215, 1425–1433. DOI: 10.1242/jeb.054403