A biologia de Darwin nos dias de hoje: o naturalista é visto como o pioneiro de uma teoria evolutiva fundamental, constantemente atualizada por novas descobertas. Segue uma pequena análise.
A biologia de Darwin nos dias de hoje
2/6/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
A teoria da evolução por seleção natural de Charles Darwin em A origem das espécies (1859), representou uma das mais profundas revoluções intelectuais da história da ciência. Todavia, foi recebida com ceticismo por parte da comunidade científica de sua época, especialmente por carecer de uma explicação mecanicista da hereditariedade. Mas suas ideias sobreviveram ao crivo do tempo, sendo posteriormente corroboradas e refinadas por avanços subsequentes em genética, biologia molecular e ecologia evolutiva.
Desde os primeiros passos da chamada Síntese Moderna, nos anos 1930 e 1940, quando geneticistas como Theodosius Dobzhansky, Ernst Mayr e Julian Huxley integraram a genética mendeliana com os princípios darwinianos, a biologia evolutiva tem-se mostrado uma das disciplinas mais dinâmicas da ciência contemporânea. Essa integração original, que já foi suficiente para explicar grande parte da diversidade observável na natureza, expandiu-se enormemente com o advento das técnicas de sequenciamento genômico, possibilitando uma visão mais profunda sobre os mecanismos de adaptação, especiação e evolução convergente.
Uma ciência cada vez mais complexa
Nos dias atuais, as ideias darwinianas permanecem no cerne da biologia, porém renovadas por uma miríade de descobertas que Darwin jamais poderia ter antecipado. Entre essas, destacam-se os estudos sobre epigenética, que revelam como alterações na expressão gênica — sem modificações no DNA em si — podem ser transmitidas entre gerações, influenciando o fenótipo e, em certos casos, até a adaptabilidade de uma espécie ao ambiente. Ainda que esses mecanismos não invalidem a teoria darwiniana, eles a enriquecem, ao fornecerem uma camada adicional de complexidade ao processo evolutivo.
Além disso, a biologia evolutiva moderna beneficia-se amplamente da bioinformática, da modelagem computacional e da simulação de cenários evolutivos, o que permite testar hipóteses com precisão estatística e observar padrões evolutivos em larga escala. Ao mesmo tempo, disciplinas como a evo-devo (biologia evolutiva do desenvolvimento) têm elucidado como pequenas mudanças em genes reguladores podem resultar em profundas modificações morfológicas, lançando luz sobre a origem da forma e da complexidade nos organismos multicelulares.
Uma nova perspectiva a cada avanço
Adicionalmente, o estudo do microbioma revelou um universo até então oculto de interações entre organismos e suas comunidades microbianas simbióticas. Tal conhecimento vem transformando nossa compreensão da biologia e da evolução. Não é mais possível pensar no organismo como uma entidade isolada. Antes, ele deve ser entendido como um holobionte — um conjunto funcional de genes próprios e alheios, moldado conjuntamente pela seleção natural.
“Todas as explicações científicas para a evolução hoje consideram o darwinismo”.
biólogo João Morgante, da USP
Por outro lado, a teoria darwiniana também se tornou indispensável para entender problemas práticos e urgentes do mundo contemporâneo. A resistência bacteriana a antibióticos, por exemplo, é um fenômeno evolutivo direto, cuja dinâmica populacional pode ser descrita com clareza à luz da seleção natural. Da mesma forma, o surgimento de novas variantes virais, como observado na pandemia de COVID-19, segue os mesmos princípios básicos de mutação, variabilidade e seleção diferencial (Grubaugh et al., 2020).
Ademais, em tempos de crise ecológica e perda acelerada da biodiversidade, a biologia evolutiva torna-se fundamental para estratégias de conservação. O conceito de diversidade genética, por exemplo, é essencial para garantir a resiliência das espécies frente a mudanças ambientais rápidas. Projetos de reintrodução, corredores ecológicos e bancos genéticos dependem de uma sólida compreensão dos processos evolutivos para terem sucesso a longo prazo.
“O tempo está sempre propício para a reinterpretação de teorias à luz de novas visões e novos fatos. Este é o verdadeiro domínio da ciência.”
Autobiografia de Charles Darwin (1809-1882)
Um legado gigantesco para a biologia
Contudo, a teoria evolutiva não é estática. Ela cresce e se refina constantemente, incorporando descobertas oriundas de campos tão diversos quanto a antropologia, a paleontologia, a ecologia comportamental e até mesmo as ciências sociais. Em um mundo cada vez mais interconectado, a biologia de Darwin ganha novas nuances, mantendo-se relevante tanto para a ciência quanto para o debate filosófico sobre o lugar da humanidade na natureza.
Em síntese, as ideias de Darwin, embora originadas em um contexto vitoriano e baseadas em observações meticulosas de pombos, tartarugas e besouros, desdobraram-se. A biologia moderna não apenas reconhece Darwin como patrono intelectual, mas também como um ponto de partida para horizontes ainda em expansão. A força de sua teoria está, justamente, em sua capacidade de se integrar a novas descobertas, mantendo sua essência enquanto acolhe a complexidade do mundo vivo.
Enquanto a ciência continuar a explorar os mistérios da vida — seja em florestas tropicais, oceanos abissais ou em laboratórios de genômica —, a centelha darwiniana continuará a iluminar o caminho, convidando-nos a compreender não apenas como a vida evolui, mas por que ela se transforma incessantemente em direção a novas formas.
Fontes e referências:
- Darwin, C. (1859). On the Origin of Species. London: John Murray.
- Dobzhansky, T. (1937). Genetics and the Origin of Species. Columbia University Press.
- Carroll, S. B. (2005). Endless Forms Most Beautiful: The New Science of Evo Devo. W. W. Norton & Company.
- Jablonka, E., & Lamb, M. J. (2005). Evolution in Four Dimensions. MIT Press.
- Bordenstein, S. R., & Theis, K. R. (2015). Host biology in light of the microbiome: Ten principles of holobionts and hologenomes. PLoS Biology, 13(8), e1002226.
- Grubaugh, N. D., et al. (2020). Tracking virus outbreaks in the twenty-first century. Nature Microbiology, 5, 118–126.