Linguagem das Baleias: embora os cientistas há décadas tentem decifrar a comunicação dos cetáceos, só hoje, graças ao avanço tecnológico, surgem pistas promissoras. Com efeito, os sons se mostram bastante complexos, comparáveis às linguagens humanas. Estamos, talvez, às portas de compreender a verdadeira linguagem das baleias.
A Linguagem das Baleias: novas descobertas da comunicação em cetáceos
2/7/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Nas profundezas dos oceanos, as baleias emitem sons que ressoam como poemas. Assim, estes cantos, por muito tempo tidos apenas como chamados instintivos, hoje revelam surpreendente sofisticação. Sobretudo graças à união entre bioacústica, ecologia comportamental e inteligência artificial, cientistas vêm decifrando fragmentos do vasto vocabulário desses gigantes do mar. A linguagem das baleias, portanto, emerge como um novo campo de conhecimento, onde se entrelaçam ciência, mistério e sensibilidade.
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Embora a comunicação entre cetáceos já tenha sido observada há mais de meio século, apenas recentemente foi possível estudar seus padrões em larga escala. Sons emitidos por baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae), por exemplo, apresentam repetições, variações tonais e estruturas rítmicas que lembram canções com refrões. Não se trata de mero acaso. Tais padrões sofrem mudanças sazonais, sugerindo aprendizado coletivo e transmissão cultural — características notoriamente raras no reino animal (Payne & McVay, 1971; Garland et al., 2011)
Além disso, diferentes populações da mesma espécie apresentam dialetos únicos. Estudos com orcas (Orcinus orca), por exemplo, revelaram conjuntos distintos de sons entre grupos familiares. Dessa forma, cada grupo, ou pod, compartilha um repertório vocal próprio, transmitido entre gerações. Esses dialetos funcionam como marcadores sociais, reforçando laços e identificando indivíduos dentro de uma estrutura social complexa.
Novas fronteiras da linguagem das baleias
Então, recentemente, algoritmos de aprendizado de máquina permitiram análises mais refinadas dos registros sonoros subaquáticos. Nesse sentido, uma das iniciativas mais ambiciosas é o projeto CETI (Cetacean Translation Initiative), focado na comunicação dos cachalotes (Physeter macrocephalus). Esses cetáceos emitem sequências curtas de estalidos — chamados de “cliques” — que, segundo os pesquisadores, podem carregar significado contextual, funcionando como unidades linguísticas básicas ou até “palavras”. A hipótese é ousada: os cachalotes poderiam possuir uma gramática rudimentar.
A saber, tais descobertas da linguagem das baleias não se limitam à fonética. Há evidências crescentes de que baleias também se comunicam por meio de gestos e toques, especialmente em interações mãe-filhote ou durante rituais de acasalamento. O corpo, assim como o som, torna-se veículo de expressão e informação.
(…) e as baleias, que “miam e grasnam” em jazz ultramarino — uma verdadeira rapsódia em azul — são caçadas até a beira do silêncio.
– Jay Griffiths (Escritora britânica)
Finalmente, vale destacar que a comunicação entre cetáceos não ocorre de modo isolado. Fatores ambientais influenciam diretamente sua transmissão e recepção. Nesse sentido, a poluição sonora marinha — provocada por navios, sonares e perfurações submarinas — interfere gravemente na propagação dos sons. Em locais com tráfego intenso, baleias precisam “gritar” para serem ouvidas, o que aumenta o estresse e prejudica o comportamento social (Hatch et al., 2008). Com isso, compromete-se não apenas a comunicação, mas também a sobrevivência.
A complexidade da linguagem cetácea desafia fronteiras conceituais. Desse modo as baleias mostram que sistemas comunicativos elaborados também florescem sob as águas. Ainda não sabemos se baleias discutem memórias, planejam o futuro ou compartilham ideias abstratas. No entanto, tudo indica que sua comunicação vai muito além da simples emissão de sons automáticos.
O fascinante mundo da linguagem cetácea
Além de instigar questões científicas, essas descobertas impõem dilemas éticos. Se as baleias possuem formas próprias de linguagem e cultura, devemos reconsiderar nossa interação com elas? Captura, turismo invasivo e degradação de habitats se tornam, sob essa luz, práticas ainda mais problemáticas. Afinal, estamos perturbando seres inteligentes que mal compreendemos.
Ao mesmo tempo, essas revelações ampliam nossa percepção sobre a inteligência não humana. Ao estudar as baleias, não apenas nos aproximamos de outra espécie: também nos afastamos de uma visão antropocêntrica do mundo. Voltar nossa atenção para animais tão importantes é algo essencial diante da atual crise ambiental. Afinal, baleias devem estar vivas e saudáveis para a economia azul.
Enfim, na interseção entre ciência e sensibilidade, a linguagem das baleias convida a uma nova escuta. Seus cantos, há tantos milênios presentes nos oceanos, carregam não apenas sons, mas também sentidos. Decifrá-los talvez seja uma das mais belas formas de reencontrar nosso lugar na natureza.
Fontes e referências:
- Ford, J. K. B. (1991). Vocal traditions among resident killer whales (Orcinus orca) in coastal waters of British Columbia. Canadian Journal of Zoology, 69(6), 1454–1483.
- Garland, E. C., Goldizen, A. W., Rekdahl, M. L., et al. (2011). Dynamic horizontal cultural transmission of humpback whale song at the ocean basin scale. Current Biology, 21(8), 687–691.
- Hatch, L. T., Clark, C. W., Merrick, R., et al. (2008). Characterizing the relative contributions of large vessels to total ocean noise fields: A case study using the Gerry E. Studds Stellwagen Bank National Marine Sanctuary. Environmental Management, 42(5), 735–752.
- Payne, R. S., & McVay, S. (1971). Songs of humpback whales. Science, 173(3997), 585–597.
- Yurk, H., Barrett-Lennard, L., Ford, J. K. B., & Matkin, C. O. (2002). Cultural transmission within maternal lineages: Vocal clans in resident killer whales in southern Alaska. Animal Behaviour, 63(6), 1103–1119.
