Biologia e Arte
Biologia e Arte: à medida que as ciências biológicas avançam, biólogos e artistas encontram na própria natureza uma fonte inesgotável de inspiração. Mais do que simples padrões matemáticos, as formas naturais revelam milhões de anos de refinamento evolutivo.

Biologia e Arte: padrões que inspiram a ciência
15/7/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Desde as formas espiraladas de um caracol até as intricadas ramificações de uma samambaia, a natureza encanta nossos olhares. E na interface entre biologia e arte, emerge um campo fértil. De fato, ao observar formas e simetrias do mundo natural, artistas e cientistas encontram não apenas modelos de beleza, mas também princípios estruturantes de composição, harmonia e equilíbrio.
Antes de tudo, é preciso reconhecer que a biologia, enquanto ciência da vida, estuda fenômenos que se expressam visualmente por meio de formas recorrentes. Entre elas, destacam-se as simetrias radiais dos cnidários, os fractais das árvores e vasos sanguíneos, as espirais logarítmicas das conchas e galáxias, além das tesselações geométricas presentes em escamas, penas e carapaças. Tais padrões não são aleatórios. Pelo contrário, resultam de processos evolutivos que favorecem a eficiência funcional, a economia energética e a adaptação ao meio (Ball, 2009).

Nesse sentido, muitos artistas buscaram, ao longo da história, inspiração na morfologia biológica. Desde Leonardo da Vinci, que desenhava estruturas anatômicas com precisão científica, até os designers contemporâneos de bioarte, há uma longa tradição de diálogo entre observação natural e expressão estética. Nesse sentido, a arte não apenas reproduz a natureza, mas a reinterpreta, oferecendo novos modos de vê-la.
Padrões que inspiram a arte e a ciência
Além disso, a ‘geometria sagrada’ — presente em mandalas, vitrais e mosaicos — reflete uma intuição ancestral dos padrões naturais. Embora intuitiva, essa estética encontra respaldo em leis matemáticas que também regem os organismos vivos. A sequência de Fibonacci, por exemplo, aparece na disposição das pétalas, na formação das pinhas e no crescimento das conchas marinhas. Portanto, quando artistas utilizam essa lógica visual, estão, ainda que inconscientemente, captando princípios biológicos.

“A beleza do mundo natural está profundamente enraizada em sua história evolutiva.”
— Sean B. Carroll, Infinitas Formas de Grande Beleza (2005)
As inflorescências apresentam, em muitos casos, uma organização com características fractais. Em outras palavras, sua estrutura repete padrões geométricos semelhantes em diferentes escalas. Assim, ao ampliarmos uma pequena parte com o auxílio de uma lupa, ou ao observarmos uma região mais ampla da inflorescência, percebemos formas que se repetem com proporções similares. Essa autorreplicação espacial sugere que a morfologia das inflorescências pode seguir princípios de crescimento que se aproximam da geometria fractal, frequentemente observada na natureza, como em samambaias, brócolis romanesco (abaixo) e sistemas vasculares.

Morfologia, biomimética e modelagem 3D
De fato, diversos estudos em morfologia vegetal apontam que a organização das inflorescências está relacionada a padrões de ramificação auto-semelhantes, influenciados por regulações genéticas e condições ambientais específicas (Niklas, 1994). Além disso, tais padrões não apenas otimizam a exposição das flores à luz e aos polinizadores, como também refletem processos evolutivos que favorecem a eficiência reprodutiva.
Por outro lado, a ciência moderna tem possibilitado novas formas de visualização biológica. A microscopia eletrônica, a modelagem 3D de proteínas e as imagens de ressonância magnética revelam estruturas invisíveis ao olho nu, mas incrivelmente belas. Tais imagens, além de terem valor científico, inspiram formas abstratas que desafiam a percepção tradicional. Assim, a biologia contemporânea amplia o vocabulário visual da arte.
Com efeito, a natureza é também fonte de inovação estética. A Biomimética — campo que estuda soluções tecnológicas inspiradas em organismos vivos — influenciou desde a arquitetura até o design têxtil. O Estádio Nacional de Pequim, por exemplo, baseou sua estrutura em ninhos de aves, enquanto o revestimento da roupa de nadadores imita a pele hidrodinâmica dos tubarões. Essas criações não apenas evocam a forma, mas integram o funcionamento biológico aos objetos artísticos e utilitários (Benyus, 1997).

Conectando ao mundo natural
Ademais, em um contexto de crise ambiental, a arte inspirada na biologia ganha novo significado. Muitas instalações artísticas contemporâneas denunciam a perda de biodiversidade, os colapsos ecológicos e os impactos das mudanças climáticas. Nesses casos, o padrão natural torna-se não só inspiração formal, mas também símbolo de um equilíbrio ameaçado. Portanto, a estética biológica carrega uma dimensão ética e política.

Vale destacar, por exemplo, o trabalho da artista Heather Ackroyd, que cultiva retratos fotossintéticos em painéis de grama viva. Ou ainda o Tree of 40 Fruit, do artista Sam Van Aken, que utiliza enxertos para criar uma árvore que floresce com dezenas de variedades distintas. Ambos os casos revelam como a biologia não é apenas representada na arte, mas incorporada como matéria viva e processual.
Ainda assim, os padrões naturais também evocam experiências subjetivas e espirituais. Ao contemplar o movimento helicoidal de uma samambaia, muitos relatam uma sensação de ordem profunda e conexão. Tal resposta emocional é explorada pela land art e pela arte generativa, que se baseiam em algoritmos naturais para criar composições que parecem “crescer” organicamente, como se fossem organismos em expansão.

Ciência e arte para transformar
Em síntese, a interseção entre biologia e arte revela que a vida não é apenas um objeto de estudo científico, mas também uma fonte inesgotável de sentido e beleza. Quando artistas se inspiram nos padrões naturais, não apenas reproduzem o mundo visível, mas celebram as leis ocultas que o estruturam. Com isso, reforçam a percepção de que estética e natureza são inseparáveis — uma união que nos convida, ao mesmo tempo, à contemplação e ao cuidado.
Nesse encontro entre ciência e sensibilidade, o padrão biológico deixa de ser apenas uma forma e torna-se mensagem. Ele nos fala da complexidade da vida, da sua inteligência silenciosa, da sua capacidade de se repetir sem jamais ser igual. E, acima de tudo, nos lembra de que tudo o que é vivo — inclusive a arte — é fruto de um processo contínuo de transformação.
Fontes e referências :
- Ball, P. (2009). Shapes: Nature’s Patterns: A Tapestry in Three Parts. Oxford University Press.
- Benyus, J. M. (1997). Biomimicry: Innovation Inspired by Nature. HarperCollins. [PDF]
- Carroll, Sean B. Infinitas formas de grande beleza: a nova estética da evolução. Tradução de Alexandre Martins. Rio de Janeiro: Record, 2006.
- Ingold, T. (2011). Being Alive: Essays on Movement, Knowledge and Description. Routledge.
- Jones, A. (2009). Bioart: Altered Realities. Thames & Hudson.
- Sapp, J. (2003). Genesis: The Evolution of Biology. Oxford University Press.

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