Por que redes de arrasto não são proibidas?
Por que redes de arrasto não são proibidas?: é amplamente difundido o conhecimento de que a pesca feita com redes de arrasto é muito danosa para a vida marinha. No entanto, no Brasil e outros países do mundo, essas técnicas rudimentares continuam sendo uma prática comum. Nesse artigo, analisamos por que não é proibida e o imenso impacto na biodiversidade.

Por que redes de arrasto não são proibidas?
15/5/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Os estoques pesqueiros brasileiros estão em franco declínio há muitos anos, conforme constatado pelo Programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva (ReviZEE). Todavia, muitas pessoas ignoram que uma das razões para esse declínio é a pesca feita de modo irresponsável, visando apenas o lucro imediato. Dentre essas práticas, destaca-se a controversa “pesca de arrasto”.

Como resultado, as redes de arrasto são amplamente utilizadas pela indústria pesqueira. Consistem em grandes redes que varrem o fundo do mar ou camadas intermediárias da coluna d’água, capturando quase tudo em seu caminho — desde os peixes-alvo (como o linguado e mais certas espécies de camarão) até uma grande variedade de espécies sem valor comercial e habitats marinhos inteiros.

Como resultado, é despejado de volta ao mar um alto número de animais mortos ou moribundos e uma forte devastação no leito, na área varrida pela rede. Dada essa natureza destrutiva, é natural que muitas pessoas se perguntem: por que as redes de arrasto não são proibidas? A resposta é complexa e envolve uma combinação de interesses econômicos, políticos, sociais e estruturais.
Por que tal devastação não cessa?
Em primeiro lugar, a pesca de arrasto é extremamente eficiente em termos de volume. Grandes quantidades de pescado podem ser obtidas em pouco tempo, o que torna a prática muito atraente para a indústria pesqueira. Essa eficiência garante não apenas lucros mais elevados, mas também o abastecimento de mercados nacionais e internacionais. Países que dependem fortemente da pesca como fonte de alimento e exportação muitas vezes veem o arrasto como economicamente indispensável.

Além disso, milhões de pessoas no mundo dependem da pesca para sua subsistência. Em regiões costeiras, especialmente em países em desenvolvimento, proibir o arrasto sem oferecer alternativas sustentáveis poderia gerar desemprego e instabilidade social. Isso leva muitos governos a priorizarem o equilíbrio entre conservação ambiental e segurança econômica.
Do mesmo modo, outro fator relevante é o poder dos lobbies da pesca industrial. Empresas multinacionais e pessoas lidadas à pesca em grande escala têm influência política considerável e frequentemente atuam para bloquear propostas de proibição ou restrição mais severa ao arrasto. Em muitos casos, as regulamentações acabam sendo moldadas para atender aos interesses dessas corporações, e não à preservação dos ecossistemas marinhos. A saber, a indústria da pesca tem subsídios anuais que podem passar de US$ 35 bilhões de dólares por ano.
“Sem subsídios dos governos, ninguém estaria ganhando um centavo com a pesca do arrasto.” – Enric Sala, biólogo marinho e Explorer in Residence da National Geographic que liderou um estudo que aponta, entre outros dados, a poluição química gerada pelas criações de camarão.

Regulamentar X Banir
Em vez de banir o arrasto, a maioria dos países opta por regulamentar sua prática. Assim sendo, incluem medidas como a limitação de áreas de pesca, proibição do arrasto em zonas sensíveis como recifes de coral e manguezais, definição de períodos de defeso (épocas de reprodução dos peixes) e exigência do uso de tecnologias que minimizam a captura acidental, como os TEDs (Turtle Excluder Devices).
Contudo, essas medidas são mal fiscalizadas e a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (INN) continua sendo um problema sério em muitas regiões do planeta. Por isso, sem fiscalização efetiva, as redes de arrasto continuam operando de forma predatória, destruindo habitats essenciais e comprometendo a recuperação das populações marinhas.
Esperança: podemos fazer algo
Por outro lado, vale lembrar que há pressão crescente da sociedade civil, cientistas e ambientalistas para que o arrasto seja limitado ou banido, especialmente em áreas marinhas protegidas. Diversas ONGs têm realizado campanhas internacionais mostrando os efeitos destrutivos dessa prática, o que tem levado alguns países a adotar legislações mais restritivas.
Por exemplo, algumas nações europeias já proibiram o arrasto de fundo em áreas profundas, e organizações internacionais como a ONU discutem a criação de tratados para proteger a biodiversidade marinha em águas internacionais, onde o arrasto ainda é amplamente praticado com pouca ou nenhuma supervisão.
Nesse sentido, uma medida simples para ajudar a frear essa indústria é parar de comer frutos do mar tipicamente pescados por redes de arrasto, como camarão, linguado, lagosta, entre outros. Assim também, é sabido que existem “fazendas” produtoras de camarão, mas estas causam grandes impactos ambientais, como, por exemplo, a poluição química.
Em resumo, as redes de arrasto ainda não são proibidas porque seu uso está profundamente enraizado em estruturas econômicas e políticas globais. Portanto, para que a proibição se torne viável, é necessário repensar os modelos de pesca, hábitos de consumo, oferecer alternativas sustentáveis para comunidades pesqueiras, investir em fiscalização e fortalecer a governança dos oceanos. Até lá, o desafio será equilibrar a necessidade humana de alimento e renda com a urgência da conservação marinha.
Fontes e referências:
- BRAGA, Miguel Sávio de Carvalho; SALLES, Rodrigo de; FONTELES FILHO, Antonio Adauto. Ictiofauna acompanhante da pesca de camarões com rede-de-arrasto na zona costeira do município de Fortaleza, estado do Ceará, Brasil. Arquivo de Ciências do Mar. Fortaleza, v. 34. n. 1-2, p.49-60. 2001.
- Watling, L. Deep-sea trawling must be banned. Nature 501, 7 (2013). https://doi.org/10.1038/501007a
- Sala, E., Mayorga, J., Bradley, D. et al. Protecting the global ocean for biodiversity, food and climate. Nature 592, 397–402 (2021). https://doi.org/10.1038/s41586-021-03371-z
- Oberle, Ferdinand K.J.; Storlazzi, Curt D.; Hanebuth, Till J.J. (July 2016). “What a drag: Quantifying the global impact of chronic bottom trawling on continental shelf sediment”. Journal of Marine Systems. 159: 109–119. doi:10.1016/j.jmarsys.2015.12.007.
- Programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva – ReviZEE.
- Comissão aprova proibição a pesca de arrasto – Agência Câmara de Notícias
- Você come camarão? Então, melhor se informar sobre o que está em jogo… – Mar Sem Fim

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Parabéns pelo texto. De fato, qualquer ação humana, que não vive a muito em pequenos bandos, é complexa de mensurar e resolver.