Biologia Urbana: a vida selvagem adaptada às cidades
Biologia Urbana: mesmo entre ruas movimentadas e edifícios de concreto, a resiliente vida selvagem encontra formas surpreendentes de se adaptar. Assim, a biologia urbana revela estratégias evolutivas e comportamentais que permitem a sobrevivência em ambientes artificiais.
Biologia Urbana: a vida selvagem adaptada às cidades

22/7/2025 :: Por Marco Pozzana, biólogo
À primeira vista, as grandes cidades parecem incompatíveis com a vida selvagem. Ruídos constantes, luz artificial, poluição atmosférica e espaços verdes fragmentados compõem um cenário hostil à maioria das espécies. No entanto, à medida que as metrópoles crescem, um número surpreendente de organismos encontra formas engenhosas de sobreviver — e até prosperar — nesses ambientes transformados. A biologia urbana surge, assim, como um campo fascinante que revela como a natureza responde à expansão das paisagens humanas.

Desde pombos e ratos até falcões e gambás, muitas espécies urbanas tornaram-se especialistas em explorar recursos criados pelos seres humanos. Não por acaso, estudiosos da ecologia urbana observam que certos animais não apenas se adaptaram ao concreto, mas evoluíram comportamentos, dietas e ciclos reprodutivos específicos para esse novo habitat. As estratégias variam. Algumas espécies mudam de horário de atividade para evitar o movimento humano, enquanto outras ajustam seus cantos para competir com o ruído do tráfego.
“O ambiente urbano age como um potente filtro ecológico, permitindo que apenas algumas espécies prosperem, enquanto outras são excluídas.”
— Marc Johnson em artigo na Science (2017).
Além disso, cidades oferecem vantagens inesperadas. Decerto, a temperatura média costuma ser mais elevada, criando microclimas favoráveis durante o inverno. A disponibilidade frequente de alimento, muitas vezes oriunda do lixo doméstico, também representa uma fonte de energia estável. Não é coincidência que guaxinins, corvos e javalis tenham ampliado seus territórios urbanos em diversas partes do mundo.

Espécies resilientes: os novos habitantes urbanos
Outro exemplo notável é o do falcão-peregrino (Falco peregrinus), espécie que sofreu declínio populacional devido ao uso indiscriminado de pesticidas no século XX. Atualmente, indivíduos dessa ave se reproduzem com sucesso nos arranha-céus de Nova York, Londres e São Paulo. As estruturas elevadas simulam penhascos naturais, enquanto os pombos urbanos servem como presas abundantes. Essa readaptação representa não apenas resiliência, mas também flexibilidade ecológica diante de desafios extremos.

Contudo, a urbanização também impõe pressões severas. Muitas espécies não conseguem acompanhar o ritmo das mudanças ambientais. Fragmentação de habitats, colisões com veículos e envenenamento por substâncias químicas limitam a diversidade biológica nas cidades. Dessa forma, embora algumas espécies prosperem, muitas desaparecem silenciosamente. É justamente essa dualidade — resiliência e perda — que torna a biologia urbana um campo tão relevante para a conservação contemporânea.
“Cidades não são apenas construções humanas, mas também ecossistemas emergentes onde a vida selvagem encontra novas oportunidades de sobrevivência.
— Menno Schilthuizen, biólogo evolutivo
Desafios Éticos e Políticos da Vida Selvagem Urbana
Pesquisadores buscam hoje compreender não apenas quais espécies sobrevivem nos centros urbanos, mas por quê. Essa investigação inclui o estudo do comportamento, do aprendizado social e da genética populacional. Graças a métodos como armadilhas fotográficas, bioacústica e sequenciamento de DNA ambiental, cientistas identificam padrões antes invisíveis. Assim, torna-se possível propor medidas de planejamento urbano mais sensíveis à biodiversidade.
Outro campo em ascensão é o da chamada infraestrutura verde. Telhados vegetados, corredores ecológicos e parques urbanos bem conectados funcionam como preciosos refúgios para aves, insetos e pequenos mamíferos. Além disso, promovem serviços ecossistêmicos essenciais, como a polinização, a regulação do clima e o bem-estar humano. Ao integrar natureza e urbanismo, abre-se caminho para uma convivência mais harmoniosa entre humanos e outras espécies.

Cidades do Futuro: integrando natureza e urbanismo
Nesse sentido, também devemos considerar a educação ambiental como ferramenta indispensável. A percepção da natureza presente nos espaços urbanos pode ser ampliada por meio de observação de aves, hortas escolares e ciência cidadã. Quando moradores reconhecem a fauna que compartilha seus bairros — desde o canto do sabiá-laranjeira até a presença dos morcegos polinizadores —, desenvolvem uma relação mais empática e informada com o ambiente.
Afinal, a ideia de que a natureza começa onde a cidade termina não é precisa. Árvores em calçadas, jardins abandonados, lagos em praças e até rachaduras em muros servem de abrigo e alimentação para múltiplas formas de vida. Do mesmo modo, mesmo a água pluvial acumulada em calhas pode abrigar ecossistemas efêmeros, como larvas de insetos aquáticos. Dessa forma a vida encontra caminhos inesperados mesmo em ambientes profundamente alterados.
Portanto, a biologia urbana nos convida a olhar com novos olhos para os espaços cotidianos. Ao reconhecer a presença — muitas vezes silenciosa — de outras espécies em meio ao asfalto, podemos transformar a maneira como planejamos, habitamos e cuidamos das cidades. Mais do que uma curiosidade científica, esse campo oferece insights valiosos para o futuro da conservação em um planeta cada vez mais urbano.
Links e referências:
- Aronson, M. F. J., et al. (2014). A global analysis of the impacts of urbanization on bird and plant diversity reveals key anthropogenic drivers. Proceedings of the Royal Society B, 281(1780), 20133330.
- Francis, R. A., & Chadwick, M. A. (2013). Urban Ecosystems: Understanding the Human Environment. Routledge.
- McDonnell, M. J., & Hahs, A. K. (2015). Adaptation and adaptedness of organisms to urban environments. Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics, 46, 261–280. https://doi.org/10.1146/annurev-ecolsys-112414-054258
- Schilthuizen, M. (2018). Darwin Comes to Town: How the Urban Jungle Drives Evolution. Picador.
- Grimm, N. B., et al. (2008). Global change and the ecology of cities. Science, 319(5864), 756–760. https://doi.org/10.1126/science.1150195

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