Microbioma humano
O Microbioma humano representa um vasto ecossistema invisível que habita nosso corpo.
Formado por trilhões de microrganismos, ele influencia digestão, imunidade e até o comportamento. Assim, compreender sua dinâmica tornou-se essencial para a saúde e para a biologia moderna.
Microbioma humano: nosso ecossistema invisível

18/8/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
Embora invisíveis a olho nu, um número impressionante de microrganismos habitam o corpo humano. Eles se distribuem pela pele, boca, intestino, pulmões e até pelo trato reprodutivo. Em conjunto, formam o chamado microbioma humano, um ecossistema complexo que rivaliza em diversidade com ambientes naturais como florestas e oceanos (Gilbert et al., 2018). Portanto, não somos apenas indivíduos isolados, mas sim organismos compostos por múltiplas formas de vida em constante interação.

Esses microrganismos incluem bactérias, vírus, fungos e arqueias. Juntos, desempenham papéis essenciais para nossa saúde. Por exemplo, ajudam a digerir alimentos, sintetizar vitaminas e treinar o sistema imunológico (Shreiner et al., 2015). Além disso, atuam como barreira contra micróbios patogênicos, competindo por espaço e recursos. Assim, a saúde humana depende, em grande medida, da harmonia desse ecossistema invisível.
“Diversos estudos têm mostrado a importante participação do microbioma humano nos processos de saúde e doença.”
— Marcelo Jenné Mimica, infectologista
Convém destacar que o microbioma é dinâmico. Ele varia conforme a dieta, o uso de antibióticos, o estilo de vida e até mesmo o local onde a pessoa vive (Marchesi & Ravel, 2015). Por essa razão, cada indivíduo possui uma assinatura microbiana única, comparável a uma impressão digital. Essa diversidade molda a forma como o corpo responde a infecções, medicamentos e mudanças ambientais.

A ponte entre o microbioma e a saúde humana
Com o avanço da biologia molecular, ficou claro que o microbioma exerce influência além da digestão. Pesquisas recentes demonstram que os microrganismos intestinais se comunicam com o sistema nervoso central. Esse diálogo, conhecido como eixo intestino-cérebro, pode afetar humor, comportamento e risco de doenças neurológicas (Cryan & Dinan, 2012). Assim, distúrbios no equilíbrio microbiano têm sido associados a ansiedade, depressão e até autismo.
Além disso, estudos revelam a importância do microbioma na regulação metabólica. A composição bacteriana do intestino influencia a absorção de nutrientes e a deposição de gordura. Portanto, desequilíbrios nesse ecossistema podem contribuir para obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares (Turnbaugh et al., 2007). Adicionalmente, o microbioma interage com o sistema imunológico, ajudando a calibrar respostas de defesa. Quando essa interação falha, aumentam as chances de inflamações crônicas e alergias (Shreiner et al., 2015).

O uso indiscriminado de antibióticos ilustra bem essa fragilidade. Ao eliminar bactérias nocivas, esses medicamentos também destroem espécies benéficas, abrindo espaço para desequilíbrios. Como consequência, podem surgir infecções recorrentes e resistência bacteriana. Portanto, compreender como restaurar a diversidade microbiana tornou-se prioridade da medicina moderna. Nesse contexto, probióticos e transplantes fecais despontam como estratégias inovadoras, capazes de restabelecer comunidades bacterianas saudáveis (Gilbert et al., 2018).
Novas fronteiras e desafios éticos
Embora a ciência tenha avançado muito, o microbioma ainda guarda segredos. Cada nova técnica de sequenciamento revela espécies antes desconhecidas, ampliando a percepção sobre nossa complexidade biológica (Marchesi & Ravel, 2015). Contudo, transformar esse conhecimento em terapias seguras exige cautela. Afinal, manipular ecossistemas internos pode trazer consequências imprevistas.
Além disso, surge uma questão ética relevante: até que ponto é aceitável modificar o microbioma humano para otimizar desempenho físico ou mental? Alguns pesquisadores já exploram a possibilidade de microbiomas “sob medida”, adaptados para maximizar saúde ou prolongar a longevidade (Gilbert et al., 2018). Porém, tais aplicações precisam de debates amplos, pois envolvem riscos de desigualdade e biotecnologias de difícil regulação.
“Alterações na microbiota intestinal estão associadas a diversas condições patológicas, incluindo doenças inflamatórias intestinais e metabólicas.”
— Isadora Barbosa de Almeida
Outro desafio é a preservação da diversidade microbiana em escala global. Assim como a biodiversidade de florestas sofre erosão, o microbioma humano também está ameaçado pela urbanização, pela industrialização e pelo consumo excessivo de produtos ultraprocessados (Shreiner et al., 2015). Nesse sentido, conservar microrganismos benéficos torna-se tão urgente quanto proteger espécies em extinção.
Portanto, entender o microbioma humano é compreender nossa própria essência biológica. Somos um mosaico de células humanas e microrganismos em simbiose. Ao estudar esse ecossistema invisível, não apenas revelamos as bases da saúde, mas também redescobrimos a profunda interdependência entre o ser humano e o mundo natural.
Fontes e referências:
- Cryan, J. F., & Dinan, T. G. (2012). Mind-altering microorganisms: the impact of the gut microbiota on brain and behaviour. Nature Reviews Neuroscience, 13(10), 701–712.
- Gilbert, J. A., Blaser, M. J., Caporaso, J. G., Jansson, J. K., Lynch, S. V., & Knight, R. (2018). Current understanding of the human microbiome. Nature Medicine, 24(4), 392–400.
- Marchesi, J. R., & Ravel, J. (2015). The vocabulary of microbiome research: a proposal. Microbiome, 3(1), 31.
- Shreiner, A. B., Kao, J. Y., & Young, V. B. (2015). The gut microbiome in health and disease. Current Opinion in Gastroenterology, 31(1), 69–75.
- Turnbaugh, P. J., Ley, R. E., Hamady, M., Fraser-Liggett, C. M., Knight, R., & Gordon, J. I. (2007). The human microbiome project. Nature, 449(7164), 804–810.

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