Os Últimos Gigantes
Os Últimos Gigantes: entre 50 mil e 10 mil anos atrás, mais de 70% dos grandes mamíferos — como mamutes, preguiças-gigantes e tigres-dente-de-sabre — foram extintos em todo o mundo. A ação humana pré-histórica é tida como uma das principais causas para tal declínio.

Os Últimos Gigantes: o colapso da megafauna e a chegada do Homo sapiens
8/7/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Ao final do Pleistoceno, o planeta era um palco de colossos. Mamutes, preguiças gigantes, gliptodontes, diprotodontes e outros titãs percorriam terras vastas e selvagens. Contudo, em poucos milhares de anos, a maioria dessas espécies desapareceu. O fenômeno, conhecido como extinção da megafauna, ainda intriga a ciência. Embora múltiplos fatores estejam em jogo, a chegada do Homo sapiens figura como elemento central nesse colapso ecológico global.

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De fato, os estudos apontam que as extinções em massa da megafauna ocorreram quase simultaneamente à expansão dos humanos modernos por diversos continentes. Na Austrália, por exemplo, quase 90% das grandes espécies desapareceram pouco depois da chegada humana, há cerca de 50 mil anos (Wroe et al., 2013). De modo semelhante, na América do Sul, preguiças gigantes e toxodontes sumiram após a entrada dos primeiros povos, há cerca de 13 mil anos (Dillehay et al., 2008).

Embora o clima tenha mudado no final do Pleistoceno, transições semelhantes em períodos anteriores não causaram extinções tão drásticas. Assim, muitos estudiosos defendem que os humanos, como predadores altamente eficientes, romperam equilíbrios antigos. Armados com tecnologia, linguagem e organização social, nossos ancestrais impuseram uma nova e letal pressão seletiva. Não apenas caçavam, mas alteravam paisagens com fogo e introduziam novas formas de competição.

Ademais, a extinção não foi uniforme. Em ilhas oceânicas, onde megafaunas sobreviveram por mais tempo, como em Madagascar e Nova Zelândia, as perdas ocorreram milênios após a chegada humana. Isso reforça a hipótese de que a presença humana foi um gatilho primário (Boivin et al., 2016). Ainda que eventos climáticos tivessem papel coadjuvante, eles não explicam sozinhos a sincronia global das extinções.
Túmulos de Ossos: vestígios da megafauna em um mundo transformado
No caso da América do Norte, o desaparecimento quase simultâneo de mamutes, mastodontes, cavalos e camelos coincidiu com a cultura Clóvis, conhecida por suas sofisticadas pontas de lança (Faith & Surovell, 2009). A caça excessiva, nesse contexto, parece não ter sido esporádica, mas sistemática. Mesmo em regiões onde a megafauna era abundante, a pressão humana rapidamente reduziu populações até um ponto irreversível.

Contudo, nem todos os pesquisadores concordam com a teoria da supercaça. Alguns sugerem que os gigantes já enfrentavam desafios devido ao aquecimento pós-glacial. Além disso, modelos climáticos indicam secas e mudanças abruptas nos biomas. No entanto, populações resilientes por milhares de anos sucumbiram justamente após a chegada humana. Essa coincidência temporal, portanto, é difícil de ignorar.
Outros indícios reforçam essa associação. Na Sibéria, por exemplo, restos de mamutes mostram marcas claras de abate. Ossos partidos, ferramentas associadas e até armadilhas escavadas indicam ação deliberada (Pitulko et al., 2004). Em suma, os humanos não apenas se adaptaram ao novo ambiente — eles o transformaram profundamente.
Além disso, o desaparecimento da megafauna teve consequências ecológicas duradouras. Sem grandes herbívoros, florestas densas substituíram pastagens abertas. Ciclos de nutrientes se alteraram. Predadores que dependiam desses grandes animais, como o tigre-dente-de-sabre, também foram extintos. Dessa forma, o colapso não afetou apenas as espécies diretamente caçadas, mas toda a teia trófica.
As Pegadas que Restaram: memórias fósseis de um mundo colossal
Nesse sentido, a extinção da megafauna representa uma das primeiras grandes intervenções humanas no planeta. E, ainda mais importante, ela antecipa padrões de impacto que se repetiriam ao longo da história: exploração intensa, alterações ambientais e perdas em cascata. A chegada do Homo sapiens inaugurou, assim, uma nova era ecológica.

Não por acaso, muitos especialistas consideram o fim do Pleistoceno como o início do Antropoceno — uma época geológica marcada pelo domínio humano. Ainda que este termo seja debatido, seu simbolismo é claro: a humanidade tornou-se uma força geológica. Não apenas moldamos paisagens, mas influenciamos a própria evolução de outras espécies.
“O megatério some no poente / como um pressentimento pesado.”
– Fernando Fernandez (O Poema Imperfeito)
Curiosamente, algumas espécies escaparam do destino trágico. Elefantes africanos, bisões norte-americanos e cangurus sobreviveram, embora com populações reduzidas. Sua persistência pode estar ligada a fatores ecológicos, menor densidade humana ou, talvez, pura sorte. Ainda assim, essas exceções não minimizam a escala do colapso global.
Hoje, os fósseis da megafauna são testemunhos silenciosos de um mundo perdido. Museus e sítios paleontológicos nos lembram que esses gigantes habitaram florestas, estepes e savanas que agora não existem mais. E, acima de tudo, revelam como a presença humana pode acelerar processos naturais até o colapso.
Portanto, entender a extinção da megafauna não é apenas um exercício acadêmico. Trata-se de um alerta. Em tempos de aquecimento global, destruição de habitats e nova onda de extinções, o passado ilumina o presente. Afinal, a história dos últimos gigantes é, em última instância, a nossa própria história.
Fontes e referências:
- Boivin, N. L., Zeder, M. A., Fuller, D. Q., Crowther, A., Larson, G., Erlandson, J. M., … & Petraglia, M. D. (2016). Ecological consequences of human niche construction: Examining long-term anthropogenic shaping of global species distributions. Proceedings of the National Academy of Sciences, 113(23), 6388–6396.
- Dillehay, T. D., Goodbred, S., Pino, M., Vásquez, V., Rosales Tham, T., Conklin, W., … & Netherly, P. J. (2008). Monte Verde: seaweed, food, medicine, and the peopling of South America. Science, 320(5877), 784–786.
- Faith, J. T., & Surovell, T. A. (2009). Synchronous extinction of North America’s Pleistocene mammals. Proceedings of the National Academy of Sciences, 106(49), 20641–20645.
- Pitulko, V. V., Nikolsky, P. A., Girya, E. Y., Basilyan, A. E., Tumskoy, V. E., Koulakov, S. A., … & Pavlova, E. Y. (2004). The Yana RHS site: humans in the Arctic before the last glacial maximum. Science, 303(5654), 52–56.
- Wroe, S., Field, J., Fullagar, R., & Jermin, L. S. (2013). Megafaunal extinction in the late Quaternary and the global overkill hypothesis. Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, 32(s1), 15–34.

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