Poríferos
Poríferos: o filo Porifera, que compreende os animais popularmente conhecidos como esponjas, ocupa uma posição singular no reino Animalia.
Com cerca de 9.000 espécies descritas, esses organismos aquáticos representam a forma mais primitiva de vida animal multicelular (Hooper & Van Soest, 2002). Apesar de sua simplicidade anatômica, as esponjas fascinam cientistas por seu papel na compreensão da evolução dos metazoários.

O enigmático mundo dos Poríferos
26/6/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Diferentemente da maioria dos animais, os poríferos não possuem tecidos verdadeiros. Suas células, embora organizadas funcionalmente, não estão unidas por lâmina basal – estrutura característica dos tecidos epiteliais de organismos mais complexos (Simion et al., 2017). Além disso, carecem de sistema nervoso, órgãos internos e músculos. Permanecem fixas ao substrato, sem qualquer capacidade de locomoção. São, portanto, animais sésseis, com um modo de vida exclusivamente filtrador.

As esponjas obtêm alimento e oxigênio por meio de um sistema de canais que conduz a água através do corpo. Isto é, pequenas partículas e microrganismos presentes na água são retidos por células especializadas, chamadas coanócitos, responsáveis também por gerar correntes de água com o movimento de seus flagelos (Leys & Hill, 2012). Por certo, esta estratégia de alimentação é altamente eficiente, sendo capaz de filtrar milhares de litros de água por dia, mesmo em indivíduos de pequeno porte.
Vestígios da origem animal
Encontradas em ambientes marinhos e dulcícolas, as esponjas habitam desde águas rasas tropicais até as profundezas abissais. Ademais, em termos ecológicos, desempenham papel fundamental na ciclagem de nutrientes, na formação de recifes e como habitat para diversas espécies marinhas (Bell, 2008).
Poríferos: do latim porus, poro + phoros, portador de poros

A diversidade morfológica do grupo permite classificá-lo em quatro classes principais, baseadas sobretudo no tipo de espícula — estruturas de sustentação do corpo — e na organização do sistema de canais:
Classes do filo Porifera
- Classe Calcarea – Com espículas formadas por carbonato de cálcio, essas esponjas são geralmente pequenas, de corpo branco ou creme. Podem apresentar três formas de organização: asconoide, siconoide ou leuconoide, sendo as asconoides as mais simples e as leuconoides as mais complexas (Ruppert et al., 2005).
- Classe Hexactinellida – Conhecidas como esponjas vítreas, possuem espículas silicosas com seis raios. São predominantemente encontradas em grandes profundidades e apresentam uma estrutura sincicial — ou seja, um tecido com muitos núcleos compartilhando o mesmo citoplasma. A maioria é siconoide ou leuconoide (Leys et al., 2007)
- Classe Demospongiae – Inegavelmente trata-se da maior e mais diversificada classe, contendo cerca de 90% de todas as espécies de esponjas. Seu esqueleto é composto por espongina (uma proteína fibrosa) com ou sem espículas de sílica. Todas são leuconoides, o que garante maior complexidade estrutural e eficiência de filtração (Hooper & Van Soest, 2002).
- Classe Homoscleromorpha – Anteriormente incluídas nos Demospongiae, essas esponjas foram recentemente reconhecidas como uma classe separada devido à presença de características únicas, como uma membrana basal epitelial verdadeira e pinacócitos ciliados. Também possuem organização leuconoide (Gazave et al., 2012).
Evolução e registros fósseis – Poríferos
Do ponto de vista evolutivo, os poríferos representam uma linhagem basal dos metazoários. Desse modo, testes genéticos e filogenias moleculares indicam que eles divergiram muito cedo na história evolutiva dos animais. A estrutura simples de seu corpo, aliada à presença de genes compartilhados com grupos mais complexos, contribui para o entendimento da transição entre unicelulares e organismos multicelulares (King et al., 2008).
O registro fóssil dos poríferos remonta ao final do Neoproterozoico, há cerca de 600 milhões de anos. Apesar disso, fósseis bem preservados são raros, em parte devido à fragilidade das estruturas esqueléticas dessas criaturas. Contudo, quando encontrados, revelam aspectos valiosos da história da vida marinha (Antcliffe et al., 2014).

Só para exemplificar, um notável é o gênero fóssil Vauxia, encontrado em depósitos do Cambriano, como os famosos xistos de Burgess, no Canadá. Isto é, essa esponja ramificada revela como já no início da era Paleozoica existiam formas relativamente complexas de esponjas (Rigby, 1986). Durante o Jurássico, fósseis bem preservados surgiram nos Alpes europeus, indicando que o grupo continuou diversificando-se após eventos de extinção. No Cretáceo, importantes depósitos na França e na Inglaterra documentam a persistência e a adaptação do grupo ao longo de mudanças ambientais significativas.

Por fim, as esponjas despertam interesse biotecnológico. De fato diversos compostos bioativos extraídos desses organismos têm mostrado propriedades farmacológicas promissoras, como antibióticos, antivirais e antitumorais (Laport et al., 2009). Decerto, tais avanços impulsionam pesquisas em bioprospecção marinha e reforçam a importância da conservação dos ecossistemas aquáticos.
Portanto, embora à primeira vista pareçam simples, os poríferos encerram uma complexidade evolutiva, ecológica e biomédica surpreendente. Representam não apenas vestígios vivos de um passado remoto, mas também peças-chave para compreender as origens e o potencial da vida animal.
Fontes e referências:
- Antcliffe, J. B., Callow, R. H., & Brasier, M. D. (2014). Giving the early fossil record of sponges a squeeze. Biological Reviews, 89(4), 972–1004. https://doi.org/10.1111/brv.12090
- Bell, J. J. (2008). The functional roles of marine sponges. Estuarine, Coastal and Shelf Science, 79(3), 341–353. https://doi.org/10.1016/j.ecss.2008.05.002
- Gazave, E. et al. (2012). Origin and evolution of the Notch signalling pathway: an overview from eukaryotic genomes. BMC Evolutionary Biology, 9(1), 249. https://doi.org/10.1186/1471-2148-9-249
- Hooper, J. N. A., & Van Soest, R. W. M. (Eds.). (2002). Systema Porifera: A Guide to the Classification of Sponges. Springer.
- King, N., Westbrook, M. J., Young, S. L., Kuo, A., Abedin, M., Chapman, J., … & Rokhsar, D. (2008). The genome of the choanoflagellate Monosiga brevicollis and the origin of metazoans. Nature, 451(7180), 783–788. https://doi.org/10.1038/nature06617
- Laport, M. S., Santos, O. C. S., & Muricy, G. (2009). Marine sponges: potential sources of new antimicrobial drugs. Current Pharmaceutical Biotechnology, 10(1), 86–105.
- Leys, S. P., & Hill, A. (2012). The physiology and molecular biology of sponge tissues. Canadian Journal of Zoology, 90(1), 1–20.
- Rigby, J. K. (1986). Sponges of the Burgess Shale (Middle Cambrian), British Columbia. Palaeontographica Canadiana, 2, 1–105.
- Ruppert, E. E., Fox, R. S., & Barnes, R. D. (2005). Zoologia dos Invertebrados. 7ª ed. São Paulo: Roca.
- Simion, P. et al. (2017). A large and consistent phylogenomic dataset supports sponges as the sister group to all other animals. Current Biology, 27(7), 958–967. https://doi.org/10.1016/j.cub.2017.02.031

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