Células zumbis: aplicações médicas
Células zumbis: apesar da morte do organismo, certas células continuam metabolicamente ativas por horas ou até dias. Assim, essas chamadas “células zumbis” desafiam a linha entre vida e morte. Decerto, seu estudo tem gerado avanços na medicina regenerativa e na conservação de órgãos. Portanto, compreender seus mecanismos pode revolucionar diagnósticos e tratamentos.

Células Zumbis: aplicações médicas de células mantidas “vivas” após a morte
4/7/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
Embora o conceito de “vida após a morte” habite o imaginário religioso ou ficcional, a ciência contemporânea trouxe à tona um fenômeno real e surpreendente: células que continuam ativas mesmo após a morte do organismo. Denominadas informalmente de células zumbis, essas estruturas desafiam a linha que tradicionalmente separa a vida da morte. Por tanto, vêm se tornando objeto de intenso interesse em áreas como a medicina regenerativa, a criobiologia e a neurociência.

O fenômeno não é novo, mas recentemente passou a ser melhor compreendido. Após a morte, embora o corpo como um todo deixe de funcionar, determinadas células, como neurônios, células-tronco e células epiteliais, mantêm por algum tempo sua integridade estrutural e funcional. De fato, em condições específicas, essas células não apenas resistem ao colapso fisiológico, como também continuam a expressar genes e a produzir proteínas (Pozhitkov et al., 2017). Assim, a morte orgânica não representa, necessariamente, o fim imediato da atividade celular.
Um dos exemplos mais notáveis vem de pesquisas com tecidos cerebrais. Em 2019, cientistas da Universidade Yale conseguiram restaurar parcialmente a atividade de cérebros suínos quatro horas após a morte dos animais. Por meio do sistema BrainEx, uma solução perfluorada foi utilizada para perfundir os tecidos, mantendo a estrutura sináptica e algumas funções celulares intactas (Vrselja et al., 2019). Embora não tenha havido consciência ou sinais de atividade elétrica global, a reativação de processos celulares em tecidos post-mortem abre perspectivas fascinantes — e inquietantes.
Uma revolução na medicina
Do ponto de vista médico, a preservação funcional de células após a morte representa uma oportunidade valiosa. Primeiramente, em transplantes de órgãos, entender quais células sobrevivem por mais tempo pode melhorar as técnicas de preservação e prolongar a viabilidade dos enxertos. Além disso, em ambientes hospitalares, essa abordagem pode ampliar a janela de tempo para o uso de tecidos doados, beneficiando milhares de pacientes à espera de um transplante.

Ademais, a pesquisa com células zumbis tem grande relevância para a medicina regenerativa. Células-tronco obtidas de tecidos recém-mortos ainda mantêm o potencial de diferenciação e proliferação. Com isso, torna-se possível cultivá-las em laboratório para aplicações terapêuticas, inclusive na engenharia de tecidos e no desenvolvimento de órgãos bioartificiais (Yousefzadeh et al., 2021).
Outro campo que se beneficia desse conhecimento é o da criobiologia. Como algumas células resistem por horas — ou até dias — à morte do organismo, técnicas de preservação a frio ou por vitrificação podem ser adaptadas para resgatar funções celulares em tecidos congelados. Com efeito, isso poderia ampliar as fronteiras do armazenamento biológico e favorecer a criação de bancos de órgãos mais eficientes.
Morte Orgânica, Vida Celular: implicações biomédicas
Contudo, a existência dessas células também levanta questões éticas. Até que ponto é aceitável manipular tecidos cerebrais pós-morte? A possibilidade de restaurar parcialmente tecidos humanos levanta o espectro da consciência residual, exigindo marcos regulatórios rigorosos e reflexão bioética constante. Portanto, embora as aplicações médicas sejam promissoras, o avanço nessa área exige prudência e responsabilidade.
Além disso, o fenômeno das células zumbis tem implicações forenses. A análise de genes que continuam ativos após a morte — chamada de thanatotranscriptoma — pode fornecer novos marcadores para estimar o tempo de morte com mais precisão. Em crimes ou mortes suspeitas, isso representa uma ferramenta valiosa para a investigação.
Surpreendentemente, mesmo o intestino humano parece colaborar com essa persistência celular. Após a morte, certas células intestinais continuam a proliferar, em um processo que parece ser impulsionado por bactérias intestinais e sinais inflamatórios residuais. Tal fenômeno sugere que a morte celular nem sempre é abrupta, mas frequentemente gradual e segmentada.
No contexto da neurociência, compreender o comportamento das células cerebrais após a morte pode lançar luz sobre os mecanismos de neurodegeneração. Como algumas células resistem mais do que outras, estudá-las em detalhe pode revelar alvos terapêuticos para doenças como Alzheimer, Parkinson e AVC. Nesse cenário, células zumbis não são apenas curiosidades fisiológicas, mas potenciais aliadas no combate a enfermidades devastadoras.
Então, o estudo das células que persistem após a morte orgânica pode revelar mecanismos fundamentais de autossuficiência celular. Como essas células gerenciam seus estoques de energia? Quais vias metabólicas são ativadas? Descobertas nessa área podem inspirar novos fármacos capazes de proteger tecidos em situações de trauma, hipóxia ou parada cardíaca.

Considerações finais
Apesar dos avanços, ainda há muito a ser investigado. Embora alguns estudos revelem a expressão gênica post-mortem em tecidos humanos, a maioria das evidências ainda provém de modelos animais. Portanto, a transposição desses achados para a medicina humana requer cautela, validação rigorosa e estudos longitudinais.
A pesquisa com células zumbis, por mais paradoxal que pareça, reflete um princípio fundamental da biologia: a vida resiste. Mesmo quando a ordem geral do organismo entra em colapso, fragmentos de vitalidade persistem, como se as células se recusassem a aceitar o fim. Essa resiliência abre caminhos para inovações médicas e redefine nossas fronteiras conceituais sobre o que significa estar vivo.
Por fim, entender as células zumbis pode ajudar a humanizar ainda mais a prática médica. Ao reconhecer a complexidade da transição entre vida e morte, ampliamos nossa sensibilidade sobre os limites da intervenção e da preservação. Portanto, ao estudar essas células tenazes, não apenas avançamos na ciência, mas também no respeito àquilo que resta vivo quando tudo parece terminado.
Fontes e referências:
- Pozhitkov, A. E., Neme, R., Domazet-Lošo, T., Leroux, B. G., Soni, S., Tautz, D., & Noble, P. A. (2017). Tracing the dynamics of gene transcripts after organismal death. Open Biology, 7(1), 160267. https://doi.org/10.1098/rsob.160267
- Vrselja, Z., Daniele, S. G., Silbereis, J., Talpo, F., et al. (2019). Restoration of brain circulation and cellular functions hours post-mortem. Nature, 568, 336–343.
- Yousefzadeh, M. J., Flores, R. R., Zhu, Y., McGowan, S. J., Angelini, L., Fuhrmann-Stroissnigg, H., … & Niedernhofer, L. J. (2021). An aged immune system drives senescence and ageing of solid organs. Nature, 594(7861), 100–105. https://doi.org/10.1038/s41586-019-1099-1

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O que tem a dizer sobre o caso das células de Henrietta Lacks?
Olá José Antonio,
Boa lembrança. Apesar da contribuição monumental, Henrietta e sua família nunca foram informados ou compensados pelo uso de suas células. Isso levantou debates sobre consentimento informado, direitos dos pacientes, justiça racial na medicina e lucro com material biológico humano.
A família Lacks passou décadas lutando por reconhecimento e compensação. Em anos recentes, houve avanços em acordos e homenagens, mas o caso ainda é símbolo de injustiça biomédica.