Economia Azul
Economia Azul é o uso sustentável dos recursos oceânicos para impulsionar o crescimento econômico, melhorar a qualidade de vida e preservar os ecossistemas marinhos. Aqui veremos a importância vital de aliar a preservação à economia

Economia Azul e o Futuro dos Oceanos
17/6/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
A crescente pressão sobre os recursos naturais exige novos paradigmas econômicos. Entre eles, destaca-se a Economia Azul, conceito que propõe um modelo de desenvolvimento sustentável centrado nos ecossistemas marinhos e aquáticos. Muito além da simples exploração dos oceanos, a Economia Azul promove inovação, inclusão social e equilíbrio ecológico, aliando conservação à geração de riqueza.
A expressão “Economia Azul” surgiu no final da década de 1990, impulsionada por Gunter Pauli, que a definiu como uma forma de usar os recursos disponíveis localmente de maneira eficiente e regenerativa (Pauli, 2010). Contudo, ganhou força institucional a partir da década de 2010, com iniciativas promovidas por organizações internacionais como a ONU, a União Europeia e o Banco Mundial. A proposta central é clara: transformar os mares e corpos d’água em vetores de crescimento sustentável, por meio de atividades que respeitem os limites ecológicos.

Com cerca de 70% da superfície terrestre coberta por água, e mais de 40% da população mundial vivendo a até 100 km do litoral, é natural que os oceanos passem a ocupar um lugar estratégico no debate ambiental e econômico. Eles regulam o clima, produzem oxigênio, armazenam carbono, fornecem alimento, energia e rotas de transporte. No entanto, a degradação acelerada dos ambientes marinhos — causada pela sobrepesca, poluição, acidificação e aquecimento global — ameaça a própria base desses serviços (FAO, 2020).

O futuro dos oceanos
Nesse contexto, a Economia Azul emerge como alternativa ao modelo extrativista. Suas áreas de atuação são amplas. Incluem a pesca sustentável, a aquicultura responsável, o turismo ecológico costeiro, as energias renováveis oceânicas (como a eólica offshore e a energia das marés), a biotecnologia marinha e a proteção da biodiversidade aquática.
Por exemplo, ao promover a pesca sustentável, a Economia Azul busca evitar o colapso dos estoques pesqueiros, respeitando os ciclos reprodutivos e os habitats das espécies. Isso garante alimento a longo prazo, empregos e equilíbrio nos ecossistemas. Da mesma forma, a aquicultura moderna, quando bem planejada, pode reduzir a pressão sobre os estoques naturais e oferecer proteína de alto valor biológico com menor pegada ambiental.

Outro campo promissor é a biotecnologia azul. Organismos marinhos oferecem compostos com potencial farmacológico, cosmético e industrial. Estudar e explorar essa diversidade com responsabilidade pode gerar inovação científica e benefícios econômicos de forma sustentável (Leal et al., 2016).
Além disso, as energias renováveis marítimas são uma fronteira estratégica. A energia eólica offshore, por exemplo, vem crescendo exponencialmente, especialmente na Europa, representando uma alternativa limpa aos combustíveis fósseis e criando novas cadeias produtivas.


Ecologia social
Contudo, a transição para uma Economia Azul exige governança eficaz, políticas públicas integradas e participação social. A implementação de zonas marinhas protegidas, a regulamentação da pesca e o combate à poluição demandam cooperação entre governos, comunidades costeiras, setor privado e ciência.
A dimensão ética e social também é central. A Economia Azul não deve apenas conservar os mares, mas também promover justiça social, fortalecendo as comunidades tradicionais que deles dependem. Pescadores artesanais, povos indígenas litorâneos e ribeirinhos devem ser incluídos nos processos decisórios e beneficiados pelas transformações.
De fato, é preciso reconhecer que não há economia azul sem ecologia azul. Nesse sentido, o papel da educação ambiental e da ciência cidadã é fundamental para ampliar o engajamento social.
Vídeo: Economia Azul no Brasil e no mundo com o Projeto Baleia Jubarte e Projeto Coral Vivo
O Brasil, com mais de 8 mil quilômetros de litoral e vastas bacias hidrográficas, tem grande potencial para liderar iniciativas em Economia Azul. Programas de monitoramento costeiro, recuperação de manguezais e fomento à pesca sustentável são caminhos viáveis. O país também pode avançar em pesquisa e inovação, aproveitando a rica biodiversidade marinha de suas águas jurisdicionais.
“A chave é simplesmente descobrir valor no desperdício.”
― Gunter Pauli, A Economia Azul 3.0
Entretanto, os desafios são muitos. A falta de articulação entre órgãos ambientais, a carência de dados sobre os ecossistemas marinhos e a persistência de práticas predatórias são entraves à consolidação de uma agenda azul brasileira. Por isso, superá-los requer visão de longo prazo, financiamento e vontade política.
Em suma, a Economia Azul não é uma utopia, mas um caminho necessário para equilibrar desenvolvimento, conservação e inclusão. Ao investir na proteção e no uso sustentável das águas, abrimos horizontes para uma nova economia: mais resiliente, criativa e em compasso com os ritmos da natureza. Se os oceanos moldaram o passado da humanidade, agora têm a chance de inspirar um futuro mais justo e equilibrado.
Fontes e referências:
- FAO – Food and Agriculture Organization. The State of World Fisheries and Aquaculture 2020: Sustainability in Action. Roma: FAO, 2020.
- Leal, M. C., Puga, J., Serôdio, J., Gomes, N. C. M., & Calado, R. Trends in the discovery of new marine natural products from invertebrates over the last two decades – where and what are we bioprospecting? PLoS ONE, 11(1): e0144989, 2016.
- Pauli, G. The Blue Economy: 10 Years – 100 Innovations – 100 Million Jobs. Taos: Paradigm Publications, 2010.
- United Nations. The Ocean Economy in 2030. OECD Publishing, Paris, 2016.

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