Mulheres invisíveis na história da biologia
Mulheres “invisíveis”: durante séculos, a história da biologia destacou majoritariamente nomes masculinos, relegando muitas cientistas ao silêncio. No entanto, inúmeras mulheres realizaram descobertas essenciais, que transformaram a compreensão da vida. Resgatar suas trajetórias é um passo necessário para construir um futuro mais justo.

Mulheres “invisíveis” na história da biologia
2/9/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
Durante séculos, a biologia se desenvolveu com homens que dominaram laboratórios, instituições científicas e publicações. Entretanto, em meio a esse cenário, inúmeras mulheres contribuíram com descobertas fundamentais, muitas vezes com poucos recursos e sem o devido reconhecimento. Embora invisíveis nas narrativas tradicionais, elas moldaram a ciência com dedicação e coragem.

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Obstáculos e silenciamentos
Ao longo da história, o acesso das mulheres ao conhecimento científico foi limitado por barreiras sociais e culturais. Durante o século XIX, por exemplo, universidades europeias e americanas proibiam sua entrada em cursos de ciências naturais (Schiebinger, 1989). Assim, muitas mulheres se dedicaram à pesquisa em casa ou em jardins botânicos particulares, sem acesso a laboratórios equipados. Ainda assim, produziram contribuições de valor inestimável.
“As mulheres sempre fizeram ciência: apenas raramente foram lembradas por isso.”
— Margaret W. Rossiter, historiadora da ciência.

Um caso emblemático é o de Maria Sibylla Merian, naturalista alemã do século XVII. Ela viajou até a América do Sul, estudou ciclos de vida de insetos e registrou a relação íntima entre plantas e polinizadores. Sua obra Metamorphosis insectorum Surinamensium (1705) antecipou noções que se tornariam fundamentais para a ecologia (Etheridge, 2011). Apesar disso, foi muitas vezes lembrada apenas como ilustradora, e não como cientista.

Outro exemplo marcante é Nettie Stevens. No início do século XX, ela demonstrou o papel dos cromossomos sexuais na determinação do sexo biológico. Contudo, o crédito ficou majoritariamente com Edmund Wilson, que publicou resultados semelhantes logo depois (Brush, 1978). Essa apropriação de descobertas femininas, conhecida como “efeito Matilda”, tornou-se recorrente ao longo da história (Rossiter, 1993).
“Nettie Stevens mostrou que o sexo é determinado pelos cromossomos, mas a glória foi dada a outros.”
— Stephen Brush, em BioScience.
Assim, note que a marginalização feminina na biologia não ocorreu por falta de talento ou esforço, mas pela estrutura social que negava espaço e reconhecimento.
Avanços enormes com poucos recursos
Apesar das barreiras, muitas mulheres se destacaram com trabalhos transformadores. Rosalind Franklin, por exemplo, foi decisiva para a descoberta da estrutura do DNA. Suas fotografias de difração de raios-X permitiram a Watson e Crick elaborar o modelo da dupla-hélice (Maddox, 2002). Entretanto, seu nome permaneceu em segundo plano durante décadas, revelando como a ciência oficial minimizou a presença feminina.
Outra cientista fundamental foi Barbara McClintock. Trabalhando com milho, ela descobriu os transposons, elementos genéticos móveis que revolucionaram a genética. Embora tenha recebido o Prêmio Nobel em 1983, passou décadas ignorada, pois suas ideias pareciam ousadas demais para a época (Keller, 1983).

Memórias apagadas, conquistas eternas
Na biologia marinha, Rachel Carson também se destacou. Com o livro Silent Spring (1962), denunciou os efeitos devastadores dos pesticidas nos ecossistemas. Sua obra não apenas inaugurou a ecotoxicologia moderna, mas também inspirou movimentos ambientais globais (Lear, 1997). Ainda assim, enfrentou duras críticas de setores industriais que tentaram desqualificá-la por ser mulher.

Contudo, mulheres negras enfrentavam ainda mais obstáculos para fazer ciência. Nesse contexto, Marie Maynard Daly foi a primeira mulher negra a conquistar um doutorado em química nos Estados Unidos, em 1947, pela Columbia University. Desde então, seu trabalho passou a transitar entre química e biologia, investigando a estrutura do DNA, a síntese proteica e, além disso, os efeitos da hipertensão na saúde cardiovascular. Paralelamente, Daly também pesquisou como a pressão arterial elevada afetava a função arterial e, desse modo, abriu caminho para a compreensão de doenças cardiovasculares em populações vulneráveis. Ao mesmo tempo, ela se dedicou a abrir portas para outras mulheres negras na ciência, criando bolsas de estudo e, sobretudo, defendendo maior inclusão no ensino superior.

Esses exemplos, entre tantos nomes icônicos de cientistas que marcaram a história da biologia, mostram que, embora invisíveis em muitos registros oficiais, as mulheres estiveram na linha de frente da ciência, ampliando horizontes de pesquisa e desafiando convenções.
O legado e os novos caminhos
Hoje, a biologia começa a revisitar sua própria história, reconhecendo figuras antes esquecidas. Projetos acadêmicos buscam resgatar trajetórias femininas, demonstrando que o progresso científico sempre foi plural (Jones & Bartlett, 2019). Além disso, o crescente número de pesquisadoras em laboratórios e universidades evidencia uma mudança estrutural importante, ainda que desigualdades persistam.
“O efeito Matilda mostra como as contribuições femininas foram sistematicamente minimizadas na ciência.”
— Margaret W. Rossiter, em Social Studies of Science (1993).
Com esse resgate, percebe-se que a história da biologia não pode ser contada apenas por nomes masculinos. As mulheres foram responsáveis por descobertas revolucionárias em campos como genética, ecologia, evolução, fisiologia e conservação, entre outros. Elas abriram caminhos para novas gerações que hoje ocupam espaços antes negados.
O chamado efeito Matilda, portanto, descreve como descobertas feitas por mulheres foram sistematicamente atribuídas a homens ao longo da história da ciência. Esse padrão de invisibilidade, além disso, reforçou estereótipos de gênero e dificultou o reconhecimento feminino. Assim, muitas pioneiras da biologia, consequentemente, tiveram suas contribuições minimizadas ou até mesmo apagadas (Rossiter, 1993).
Portanto, ao reconhecer o papel feminino na ciência, não apenas fazemos justiça histórica, mas também fortalecemos o futuro da biologia. Afinal, a diversidade de olhares e experiências enriquece a investigação científica e amplia suas possibilidades.
As “mulheres invisíveis” na história da biologia não foram coadjuvantes. Pelo contrário, estiveram no cerne de descobertas que mudaram a forma como entendemos a vida. No entanto, o tempo insistiu em apagar ou minimizar suas contribuições. Ao recontar essa história de forma mais justa, devolvemos voz e lugar às pioneiras, inspirando novas gerações de cientistas. Assim, a biologia torna-se não apenas mais inclusiva, mas também mais fiel à sua própria trajetória.
Fontes e referências:
- Brush, S. (1978). Nettie M. Stevens and the discovery of sex determination by chromosomes. BioScience, 28(11), 712-717. DOI: 10.1086/352001
- Etheridge, K. (2011). Maria Sibylla Merian and the metamorphosis of natural history. Endeavour, 35(1), 16-22. DOI:10.1016/j.endeavour.2010.10.002
- Jones, C., & Bartlett, A. (2019). Women in the history of science: A sourcebook. Routledge. DOI: 10.14324/111.9781800084155
- Keller, E. F. (1983). A feeling for the organism: The life and work of Barbara McClintock. W.H. Freeman. [PDF]
- Lear, L. (1997). Rachel Carson: Witness for nature. Henry Holt.n Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, 118(2), 135-142.
- Maddox, B. (2002). Rosalind Franklin: The dark lady of DNA. HarperCollins.
- Rossiter, M. W. (1993). The Matthew Matilda effect in science. Social Studies of Science, 23(2), 325-341.
- Schiebinger, L. (1989). The mind has no sex? Women in the origins of modern science. Harvard University Press. DOI: 10.1177/030631293023002004

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