As Trimatas: o legado de Jane Goodall, Dian Fossey e Birutė Galdikasvsv
As Trimatas: a recente morte de Jane Goodall, em 2025, aos 91 anos, comoveu o mundo e reacendeu o reconhecimento pelo legado das cientistas que transformaram a primatologia. Assim, suas trajetórias continuam a inspirar novas gerações na defesa da vida selvagem.

As Trimatas: o legado de Jane Goodall, Dian Fossey e Birutė Galdikas na primatologia
07/9/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
No século XX, três mulheres mudaram para sempre a maneira como a humanidade enxerga os grandes primatas. Jane Goodall, Dian Fossey e Birutė Galdikas — batizadas de As Trimatas por L. Leakey — , viveram em ambientes hostis e revelaram dimensões inesperadas da inteligência, cultura e emoção de chimpanzés, gorilas e orangotangos. Além disso, construíram pontes entre ciência, ética e conservação, abrindo caminho para uma biologia mais compassiva e interdisciplinar (Montgomery, 1991).

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Essas pioneiras foram incentivadas por Louis Leakey, renomado paleoantropólogo britânico, que acreditava que apenas mentes livres de preconceitos acadêmicos poderiam revelar a verdadeira natureza dos grandes símios. Assim, cada uma delas iniciou uma jornada singular, mas interligada por um propósito comum: compreender nossos parentes evolutivos mais próximos e, ao mesmo tempo, lutar por sua sobrevivência.
“As Trimatas mostraram ao mundo que a empatia e a observação cuidadosa podem revelar verdades que a ciência fria jamais alcançaria.”
— Frans de Waal, Are We Smart Enough to Know How Smart Animals Are? (2016)
Jane Goodall e os chimpanzés de Gombe
Em 1960, Jane Goodall chegou ao Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia, com um caderno, binóculos e uma curiosidade sem limites. Decerto, sua abordagem revelou-se profundamente revolucionária. Em vez de manter distância, ela preferiu aproximar-se gradualmente, estabelecendo uma relação de confiança com os chimpanzés. Assim, passou a observá-los com empatia e atenção, dando-lhes nomes — como David Greybeard e Flo —, o que, por sua vez, transformou a forma como a ciência via o comportamento animal (Goodall, 1986).

Essa escolha metodológica, embora inicialmente criticada, revelou comportamentos complexos que transformaram a primatologia. Por exemplo, Goodall foi a primeira a documentar o uso de ferramentas por chimpanzés, desafiando a crença de que apenas humanos eram capazes de tal façanha (Goodall, 1964). Além disso, ela descreveu rituais de agressão, alianças políticas e até gestos de consolo, evidenciando a profundidade emocional e cognitiva desses animais (de Waal, 2016).

Nesse sentido, com o passar das décadas, Jane tornou-se uma defensora incansável da conservação. Fundou o Jane Goodall Institute e o programa Roots & Shoots, voltado para a educação ambiental global. Hoje, seu legado ultrapassa os limites da ciência, inspirando movimentos de empatia e responsabilidade planetária (Goodall & Bekoff, 2002).
“Jane, Dian e Birutė não apenas estudaram os grandes primatas; elas mudaram a própria definição do que significa ser humano.”
— Sy Montgomery, em Walking with the Great Apes (1991)
Dian Fossey e os gorilas das montanhas
Enquanto Jane observava chimpanzés nas savanas africanas, Dian Fossey subia as encostas frias das Montanhas Virunga, em Ruanda. Ali, entre névoas densas e florestas de bambu, ela travou uma das mais difíceis batalhas pela conservação dos gorilas. Fossey começou seu trabalho em 1967, com apoio de Leakey, e logo percebeu a ameaça crescente da caça e do tráfico de animais (Fossey, 1983).
A convivência com os gorilas foi intensa e emocionalmente transformadora. Ela registrou suas vocalizações, rituais e estruturas sociais, revelando uma espécie dotada de laços familiares fortes e surpreendente gentileza. Contudo, sua luta contra caçadores a tornou uma figura controversa e, por vezes, solitária. Mesmo assim, ela permaneceu firme, movida por uma convicção ética profunda.

Infelizmente, sua trajetória terminou tragicamente com seu assassinato em 1985, crime nunca totalmente esclarecido. Ainda assim, seu trabalho inspirou a criação do Dian Fossey Gorilla Fund, responsável por proteger centenas de gorilas até hoje (Harcourt & Stewart, 2007). Dessa forma, sua vida tornou-se símbolo de coragem científica e compromisso com a natureza.
Birutė Galdikas e os orangotangos de Bornéu
Por fim, Birutė Galdikas levou a missão das Trimatas às florestas úmidas do Sudeste Asiático. Desde 1971, ela estuda os orangotangos de Bornéu, primatas solitários e de comportamento enigmático. Sua pesquisa revelou padrões de longa maternidade, aprendizado lento e notável inteligência na manipulação de objetos (Galdikas, 1995).

Além da pesquisa, Galdikas enfrentou o desmatamento massivo causado pela exploração madeireira e pelas plantações de óleo de palma. Assim, ela se tornou não apenas uma cientista, mas uma ativista política e ambiental. Criou o Orangutan Foundation International, responsável pela reabilitação e reintrodução de centenas de órfãos na natureza (Rijksen & Meijaard, 1999).

Seu trabalho ampliou a compreensão da diversidade comportamental dos grandes primatas, mostrando que cada espécie expressa de forma singular a complexidade da mente animal. Ao mesmo tempo, ela defende a necessidade de integrar ciência e compaixão como pilares inseparáveis da conservação.
“O legado das Trimatas é duplo: científico e moral. Elas provaram que compreender nossos parentes evolutivos é também um ato de compaixão.”
— Donna Haraway, Primate Visions (1989)

Um legado para a posteridade
Em síntese, as Trimatas redefiniram a relação entre humanos e outros primatas. Elas provaram que a ciência pode ser sensível, que a observação pode coexistir com a empatia e que o conhecimento verdadeiro nasce da convivência e do respeito. Além disso, suas trajetórias desafiaram o sexismo da época, provando que a curiosidade feminina não apenas enriquece a biologia, mas transforma paradigmas culturais inteiros (Montgomery, 1991; Harcourt & Stewart, 2007).
Hoje, quando as florestas tropicais se reduzem e as espécies enfrentam novas ameaças, o legado dessas três mulheres permanece vivo. Cada uma delas deixou uma lição essencial: compreender a natureza é também compreender a nós mesmos.
Fontes e referências:
- de Waal, F. (2016). Are We Smart Enough to Know How Smart Animals Are? W.W. Norton & Company.
- Fossey, D. (1983). Gorillas in the Mist. Houghton Mifflin.
- Galdikas, B. M. F. (1995). Reflections of Eden: My Years with the Orangutans of Borneo. Little, Brown & Co.
- Goodall, J. (1964). “Tool-using and Aimed Throwing in a Community of Free-living Chimpanzees.” Nature, 201(4926), 1264–1266.
- Goodall, J. (1986). The Chimpanzees of Gombe: Patterns of Behavior. Harvard University Press.
- Harcourt, A. H., & Stewart, K. J. (2007). Gorilla Society: Conflict, Compromise, and Cooperation between the Sexes. University of Chicago Press.
- Montgomery, S. (1991). Walking with the Great Apes: Jane Goodall, Dian Fossey, Biruté Galdikas. Houghton Mifflin.
- Rijksen, H. D., & Meijaard, E. (1999). Our Vanishing Relative: The Status of Wild Orangutans at the Close of the Twentieth Century. Springer.

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