Impacto do Lixo nos recifes de coral no Brasil
Lixo nos recifes de coral: os oceanos sofrem cada vez mais com a poluição plástica. Para enfrentar esse desafio, comunidades, cientistas e voluntários se unem em torno de ações coletivas que buscam restaurar o equilíbrio. Nesse espírito, o Projeto Coral Vivo participa do World Cleanup Day 2025, promovendo mutirões de limpeza em quatro estados brasileiros.

Impacto do Lixo nos recifes de coral no Brasil
3/9/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
Estudos recentes trazem um alerta preocupante: os corais estão se tornando verdadeiros sumidouros de plástico nos oceanos.
Um exemplo marcante vem do artigo Possible sink of missing ocean plastic: Accumulation patterns in reef-building corals in the Gulf of Thailand, publicado em 2024 na revista Science of The Total Environment. A pesquisa analisou espécies de corais da Ilha Si Chang, no Golfo da Tailândia, e identificou microplásticos em seus tecidos, no muco e até no esqueleto. Assim, os recifes podem estar funcionando como reservatórios invisíveis para as partículas que desaparecem da superfície marinha, o que reforça a urgência de ampliar estudos sobre os impactos e padrões de acúmulo dessas substâncias.

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As consequências são graves. O acúmulo de microplásticos aumenta a incidência de doenças nos corais e fragiliza animais que dependem deles para abrigo e alimentação. Além disso, as partículas podem comprometer a capacidade dos recifes de manter a biodiversidade que sustenta ecossistemas inteiros.
“Se continuarmos nesse ritmo, até 2050 haverá mais plástico do que peixes nos oceanos.” — Ellen MacArthur, velejadora e fundadora da Ellen MacArthur Foundation.
No contexto brasileiro, a preocupação se intensifica. O Brasil ocupa a quarta posição entre os maiores produtores de lixo plástico do mundo e figura entre os países que mais despejam esse material no mar (Fundação Heinrich Böll, 2019). Portanto, enfrentar essa realidade torna-se indispensável para proteger os ecossistemas costeiros e a vida marinha que deles depende.
Mutirões de limpeza em quatro estados brasileiros
Portanto, para enfrentar esse desafio, comunidades, cientistas e voluntários se unem em torno de ações coletivas que buscam restaurar o equilíbrio perdido. Nesse espírito, o Projeto Coral Vivo participa entre os dias 13 e 20 de setembro do World Cleanup Day 2025, promovendo mutirões de limpeza em quatro estados brasileiros.

Trata-se de uma das maiores campanhas de voluntariado do planeta, que conecta milhões de pessoas em mais de 190 países em torno de uma mesma causa: enfrentar o descarte inadequado de resíduos no meio ambiente. No Brasil, a iniciativa ganhará força em quatro estados, reunindo comunidades costeiras, lideranças locais e instituições de ensino. Assim, ciência, sensibilização ambiental e engajamento popular se encontram para proteger a saúde dos oceanos e, sobretudo, dos recifes de coral.

Desde 2018, o Coral Vivo atua lado a lado com a Rede BIOMAR — formada também pelos projetos Albatroz, Baleia Jubarte, Golfinho Rotador e Meros do Brasil. Todos contam com o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Nesse período, os mutirões de limpeza consolidaram-se como estratégia de educação ambiental e conservação. O resultado é expressivo: mais de 4.400 voluntários já retiraram cerca de 17 toneladas de resíduos sólidos de praias e mares. Entre eles, destacam-se fragmentos de plástico, microplásticos, canudos e embalagens descartadas sem cuidado.
Muito mais que um ato simbólico: ação com base na ciência
Contudo, as ações não se limitam à coleta. O Coral Vivo registra, classifica e sistematiza cada item recolhido, seguindo metodologia oficial do Ministério do Meio Ambiente e de plataformas como o Instituto Limpa Brasil. Esses dados alimentam bases nacionais e internacionais, fortalecendo a produção científica. Além disso, fornecem subsídios para políticas públicas e regulamentações mais rigorosas. Um exemplo emblemático foi a aprovação da “Lei do Canudinho” em Porto Seguro, apoiada em informações originadas dos mutirões.
“Cada mutirão é um instrumento de transformação cultural, um laboratório de ciência cidadã e um espaço de educação ativa. Mais que recolher resíduos, buscamos despertar uma consciência coletiva sobre a crise do lixo no mar.”
– Flavia Guebert, diretora do Coral Vivo
Os impactos do plástico nos ecossistemas são cada vez mais graves. Estudos mostram que a presença de resíduos plásticos em recifes aumenta em até 20 vezes a ocorrência de doenças nos corais. Com o avanço das mudanças climáticas, o quadro se intensifica. O calor excessivo fragiliza os organismos, tornando-os mais suscetíveis à ingestão de microplásticos. Em 2024, uma pesquisa publicada na Science of the Total Environment revelou microplásticos no muco, no tecido e até no esqueleto de quatro espécies de corais do Golfo da Tailândia. Os recifes, portanto, podem estar atuando como sumidouros silenciosos para partículas invisíveis, acumulando riscos ainda pouco compreendidos.

Oceanos sem plástico
Assim sendo, manter os oceanos livres de plástico é essencial para a sobrevivência da vida marinha e para o equilíbrio da biosfera. Os resíduos plásticos fragmentam-se lentamente, liberando substâncias tóxicas e alcançando cadeias alimentares inteiras. Assim, o problema não se restringe aos ecossistemas costeiros. Ele retorna à mesa humana sob a forma de microplásticos presentes em peixes e frutos do mar. Proteger o oceano, portanto, significa também proteger a saúde das comunidades que dele dependem.
“Cada pedaço de plástico retirado do mar é uma chance a mais para a vida marinha prosperar.”
— Fabien Cousteau, explorador oceânico.
Além disso, preservar os oceanos sem plástico é vital para a regulação climática global. Os mares absorvem grande parte do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas e produzem oxigênio indispensável para a vida terrestre. Contudo, quando sufocados por resíduos, perdem eficiência nesse papel crucial. Logo, cada garrafa ou embalagem descartada inadequadamente compromete, ainda que de forma invisível, a capacidade do oceano de sustentar a vida e de moderar o clima do planeta.
Fontes e referências:
- Culver, D. C., & Pipan, T. (2019). The biology of caves and other subterranean habitats. Oxford University Press.
- Gibert, J., & Deharveng, L. (2002). Subterranean ecosystems: a truncated functional biodiversity. BioScience, 52(6), 473–481.
- Hüppop, K. (2012). Adaptation to low food. In White, W. B. & Culver, D. C. (eds.) Encyclopedia of Caves. Academic Press, pp. 1–10.
- Jamieson, A. J. (2015). The hadal zone: life in the deepest oceans. Cambridge University Press.
- Martins, Z., et al. (2017). Earth analogues for habitability and life detection on extraterrestrial bodies. Space Science Reviews, 209, 43–81.
- Protas, M. E., & Jeffery, W. R. (2012). Evolution and development in cave animals: from fish to crustaceans. Wiley Interdisciplinary Reviews: Developmental Biology, 1(6), 823–845.
- Smith, C. R., et al. (2008). Abyssal food limitation, ecosystem structure and climate change. Trends in Ecology & Evolution, 23(9), 518–528.
- Yancey, P. H., et al. (2014). Marine fish may be biochemically constrained from inhabiting the deepest ocean depths. Proceedings of the National Academy of Sciences, 111(12), 4461–4465.

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