Jaguatirica: símbolo cultural e guardiã da biodiversidade
Jaguatirica: entre as sombras da floresta, desliza silenciosa a jaguatirica, felino pintado das Américas. Sua presença discreta, mas essencial, mantém o equilíbrio entre presas e predadores. Símbolo de beleza e mistério, ela conecta a ciência à cultura desde tempos ancestrais.

Jaguatirica: símbolo cultural e guardiã da biodiversidade
25/9/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
A jaguatirica ou ocelote (Leopardus pardalis) ocupa uma ampla distribuição, que vai do sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina. Ela se adapta a diferentes biomas, desde florestas tropicais úmidas até ambientes mais secos, como o cerrado brasileiro (Emmons & Feer, 1997). Contudo, prefere áreas com vegetação densa, que oferecem proteção e oportunidades de caça.

Seu porte médio e sua beleza singular a tornaram um ícone da fauna neotropical. Mas embora não esteja em risco iminente de extinção, as populações estão em queda, principalmente devido a degradação de seu habitat: as florestas das Américas.

“A jaguatirica é talvez o mais adaptável dos gatos neotropicais, capaz de explorar uma grande variedade de habitats, embora sempre permanecendo dependente da vegetação densa.” (Murray & Gardner, 1997, Mammalian Species)
Ecologia e comportamento do felino pintado
De porte médio, a jaguatirica mede entre 70 e 100 centímetros de comprimento corporal, enquanto a cauda pode alcançar 40 centímetros. Além disso, o peso varia de 8 a 16 quilos, o que a coloca entre os maiores felinos do gênero Leopardus. Sua pelagem, por sua vez, é marcada por manchas arredondadas e listas longitudinais, criando um padrão único que, consequentemente, funciona como camuflagem eficaz no sub-bosque (Murray & Gardner, 1997).

Assim, com comportamento noturno e solitário, marca território com fezes, urina e arranhões, defendendo áreas que podem ultrapassar 5 km² para fêmeas e mais de 15 km² para machos (Caso et al., 2008). Além disso, sua dieta é variada e inclui pequenos mamíferos, aves, répteis e até crustáceos. Esse oportunismo alimentar garante flexibilidade em ambientes variados, embora a dependência de presas médias a torne vulnerável em regiões muito degradadas (Oliveira et al., 2010).
A comunicação é diversificada: envolve vocalizações graves, expressões faciais e odores. Esse repertório social, embora discreto, garante encontros reprodutivos e evita confrontos diretos.
“As jaguatiricas desempenham um papel ecológico crucial como mesopredadores, regulando populações de presas e influenciando a dinâmica das comunidades em florestas tropicais.” (Roemer et al., 2009, Ecology)
Importância ecológica e desafios de conservação
Assim, a jaguatirica exerce papel fundamental nos ecossistemas. De fato, como predadora de topo intermediário, ela regula populações de roedores e aves e, desse modo, previne desequilíbrios que poderiam comprometer a vegetação e, consequentemente, a biodiversidade local. Nesse sentido, sua presença indica saúde ecológica e estabilidade trófica.
Entretanto, a espécie enfrenta múltiplas ameaças. A perda de habitat, sobretudo pela expansão agrícola e urbana, fragmenta populações e limita corredores de deslocamento. Além disso, o atropelamento em estradas representa uma causa crescente de mortalidade em regiões como o sudeste do Brasil. A caça também já exerceu forte impacto, seja pela pele valorizada no mercado ilegal, seja por conflitos com criadores de aves e pequenos animais domésticos.

Atualmente, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica a jaguatirica como “Pouco Preocupante”. No entanto, populações isoladas em áreas muito fragmentadas, como no sul dos Estados Unidos e na Mata Atlântica, correm sérios riscos de extinção local (IUCN, 2024). Projetos de conservação vêm sendo aplicados com foco em corredores ecológicos, educação ambiental e fiscalização contra caça.
Além disso, estudos genéticos mostram que a conectividade populacional é essencial. Sem fluxo gênico, grupos restritos sofrem perda de variabilidade, aumentando riscos de doenças e diminuindo a adaptação a mudanças ambientais.

“A mortalidade em estradas representa atualmente uma das mais urgentes preocupações de conservação para felinos de médio porte em paisagens fragmentadas.”
Jaguatirica e a relação com os seres humanos
Desde tempos pré-colombianos, a jaguatirica ocupa lugar de destaque no imaginário cultural. De fato, povos maias e astecas a representaram em pinturas, esculturas e rituais, associando-a ao poder da noite e à agilidade (Saunders, 1998). Ainda hoje, contudo, o animal mantém sua aura de fascínio e, portanto, continua sendo frequentemente retratado em artes visuais e literatura.

No entanto, a relação nem sempre é harmoniosa. Em áreas rurais, o felino pode atacar galinheiros, levando a represálias humanas. Para mitigar esses conflitos, programas de convivência buscam soluções alternativas, como reforço em cercas, compensações financeiras e conscientização sobre a importância ecológica da espécie (Michalski et al., 2006).

Por outro lado, a jaguatirica também desperta interesse econômico positivo. No ecoturismo, ela se tornou um símbolo de vida selvagem, atraindo observadores e pesquisadores. Quando comunidades percebem que a presença do felino pode gerar renda sustentável, tendem a apoiar medidas de conservação (Durant et al., 2015).
“A jaguatirica personifica o paradoxo dos carnívoros tropicais: resiliente em sua ecologia, mas frágil diante da expansão humana.” (Michalski et al., 2006, Biological Conservation)
Além disso, a ciência ganha ao investigar sua biologia. Estudos sobre dieta, deslocamento e genética não apenas enriquecem a zoologia, mas também contribuem para estratégias práticas de conservação. Assim, o felino pintado conecta cultura, ecologia e economia, demonstrando que sua preservação ultrapassa o campo da biologia e alcança valores sociais e éticos.
Em síntese, a jaguatirica é mais que um felino pintado. Ela representa o elo vivo entre a história natural das Américas e os desafios contemporâneos de convivência entre humanos e fauna silvestre. Proteger suas populações exige integração entre ciência, políticas públicas e comunidades locais. Nesse sentido, conservar a jaguatirica significa também preservar a riqueza ecológica e cultural das florestas americanas.
Fontes e referências:
- Caso, A., et al. (2008). Leopardus pardalis. The IUCN Red List of Threatened Species.
- Durant, S. M., et al. (2015). Developing fencing policies for dryland ecosystems. Journal of Applied Ecology, 52(3), 544–551.
- Emmons, L. H., & Feer, F. (1997). Neotropical rainforest mammals. University of Chicago Press.
- Michalski, F., et al. (2006). Human–wildlife conflicts in a fragmented Amazonian forest landscape. Biological Conservation, 128(2), 210–216.
- Murray, J. L., & Gardner, G. L. (1997). Leopardus pardalis. Mammalian Species, 548, 1–10. [PDF]
- Oliveira, T. G., et al. (2010). Ocelot ecology and its effect on the small-felid guild in the lowland neotropics. Biology Letters, 6, 523–526.
- Paviolo, A., Crawshaw, P., Caso, A., de Oliveira, T., Lopez-Gonzalez, C.A., Kelly, M., De Angelo, C. & Payan, E. 2015. Leopardus pardalis (errata version published in 2016). The IUCN Red List of Threatened Species 2015: e.T11509A97212355. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2015-4.RLTS.T11509A50653476.en. Accessed on 24 September 2025.
- Saunders, N. J. (1998). Icons of power: feline symbolism in the Americas. Routledge.

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