Os escândalos da biologia
Escândalos da biologia: as ciências biológicas proporcionam qualidade de vida, entre muitos benefícios para a sociedade. No entanto, a ciência é feita pelos homens, e alguns deles certas vezes atropelam a ética. Por isso, vejamos alguns desses escândalos em que a biologia perdeu para interesses pessoais.
Escândalos da biologia: a ciência nas sombras

11/6/2025 :: por Marco Pozzana, biólogo
A biologia sempre despertou fascínio. Busca explicar a vida, investiga seus mecanismos e propõe soluções para problemas urgentes. Contudo, nem sempre a prática científica respeita os valores que a sustentam. Diversos episódios ao longo da história revelaram o lado sombrio da pesquisa biológica. Nestes momentos, a ciência deixou de buscar a verdade para servir interesses alheios ao conhecimento. Assim surgiram escândalos que ainda hoje ecoam nas universidades, nos laboratórios e nas páginas dos manuais de ética.

A princípio, vale lembrar o caso de Trofim Lysenko. Na União Soviética, durante os anos de Stalin, Lysenko, biólogo e agrônomo ucraniano, rejeitou as leis de Mendel e os princípios darwinistas. Ele propôs uma teoria alternativa baseada em herança de caracteres adquiridos. Desse modo, alegava que condições ambientais moldariam diretamente a hereditariedade. Essa ideia, embora desprovida de base experimental sólida, agradou à ideologia dominante. O governo soviético baniu pesquisas genéticas tradicionais. Cientistas que defendiam a biologia moderna enfrentaram censura, prisão e até execuções. Por isso, durante décadas, a genética soviética permaneceu estagnada (Soyfer, 2001).
A ética tem sido apropriadamente chamada de “a religião da ciência”.
— Edwin Grant Conklin (1863 – 1952)
Eugenia e distorção do método científico
Enquanto isso, no Ocidente, florescia outra aberração científica: a eugenia. Desde o final do século XIX até meados do século XX, vários países adotaram políticas baseadas em pressupostos genéticos equivocados. Nos Estados Unidos, por exemplo, dezenas de milhares de pessoas foram esterilizadas compulsoriamente. O argumento era simples, embora cruel: evitar a reprodução de indivíduos considerados “degenerados” protegeria a sociedade. Essas ideias encontraram eco na Alemanha nazista, onde culminaram em um genocídio. Médicos e biólogos participaram ativamente de programas de extermínio, como a Aktion T4. Ali, a biologia se transformou em arma de morte (Kevles, 1985).

Semelhantemente, avançando no tempo, deparamo-nos com a fraude do “homem de Piltdown”. Em 1912, Charles Dawson apresentou fósseis que, segundo ele, pertenciam ao elo perdido entre humanos e primatas. A descoberta, feita no sul da Inglaterra, rapidamente ganhou prestígio. No entanto, a comunidade científica aceitou o achado com entusiasmo desmedido. Ignorou inconsistências claras. Somente em 1953, análises mais criteriosas revelaram a verdade. Tratava-se de uma fraude cuidadosamente elaborada. O crânio humano havia sido combinado com a mandíbula de um orangotango, artificialmente envelhecidos com produtos químicos (Weiner, 1955). Durante mais de 40 anos, teorias equivocadas sobre a evolução sustentaram-se sobre esse engano.
Ciência sem ética
Outro episódio inquietante ocorreu nos Estados Unidos, entre 1932 e 1972. O Estudo de Tuskegee acompanhou centenas de homens afro-americanos infectados com sífilis. Durante décadas, os pesquisadores observaram a progressão da doença sem oferecer tratamento. Mesmo após a descoberta da penicilina, eles continuaram a negar a cura aos participantes. O objetivo: estudar o curso natural da infecção. No entanto, os sujeitos jamais deram consentimento informado. Nem sequer foram alertados sobre sua condição real. Este experimento, profundamente racista e antiético, feriu gravemente os princípios da medicina e da biologia (Brandt, 1978).

A biotecnologia moderna também enfrentou seu próprio escândalo. Em 2004, Hwang Woo-suk, veterinário sul-coreano, afirmou ter clonado embriões humanos e derivado células-tronco personalizadas. As revistas científicas celebraram a descoberta. A Coreia do Sul, orgulhosa, o tratou como herói nacional. Contudo, investigações posteriores revelaram manipulação de dados e falsificação de resultados. Além disso, denúncias de coação de mulheres para doação de óvulos agravaram a situação. O caso abalou a confiança na pesquisa com células-tronco (Cyranoski, 2006).
Não é a lógica que torna os homens razoáveis, nem a ciência da ética que torna os homens bons.
— Oscar Wilde
Fronteiras da bioética
Nem os primatas escaparam do uso antiético da ciência. No século XX, vários experimentos com chimpanzés buscaram cruzamentos com humanos. O mais notório ocorreu na União Soviética, sob liderança do biólogo Ilya Ivanov. Com o intuito de criar um híbrido entre as duas espécies, Ivanov inseminou fêmeas de chimpanzé com esperma humano. O experimento falhou. Anos depois, tentou o inverso: inseminar mulheres com esperma de chimpanzé. Essa fase foi interrompida por falta de voluntárias e por intervenção estatal. Embora sem sucesso reprodutivo, o episódio revela um limite ético gravemente violado (Patterson, 2000).
Na atualidade, novos dilemas éticos surgem com a edição genética. Em 2018, o cientista chinês He Jiankui anunciou o nascimento de duas meninas geneticamente modificadas com a técnica CRISPR. Então, ele afirmava ter tornado os bebês resistentes ao HIV. A comunidade científica reagiu com indignação. Isto porque o experimento ocorreu sem transparência, com riscos desconhecidos e sob pretexto médico duvidoso. O pesquisador ignorou protocolos éticos fundamentais. Pouco depois, autoridades chinesas o condenaram. No entanto, o precedente permanece aberto. O futuro da biologia sintética exige regulação sólida e discussão pública ampla (Cyranoski & Ledford, 2018).

Bioética: considerações finais
Em todos esses casos, um padrão se repete. Isto é, o desprezo pela ética acompanha o colapso do método científico. Assim, quando a ciência abandona a dúvida, cede ao dogma ou se rende à vaidade, perde sua força transformadora. A verdade não sobrevive onde o rigor e a transparência desaparecem.
Por outro lado, a biologia possui “anticorpos” contra a fraude. A revisão por pares, a replicação independente e o escrutínio da comunidade científica servem como salvaguardas. Mais do que isso, a ética científica deve integrar cada etapa da pesquisa, desde a formulação das perguntas até a comunicação dos resultados.
Portanto, estudar os escândalos da biologia não representa um exercício de pessimismo. Ao contrário, permite fortalecer os pilares da ciência. Mostra, com clareza, que o conhecimento sem responsabilidade pode se tornar perigoso. Ensina que progresso e integridade devem caminhar juntos.
Fontes e referências:
- Brandt, A. M. (1978). Racism and research: The case of the Tuskegee Syphilis Study. The Hastings Center Report, 8(6), 21–29. Pubmed
- Cyranoski, D. (2006). Stem-cell scandal and science in South Korea. Nature, 439, 122–123.
- Cyranoski, D., & Ledford, H. (2018). Genome-edited baby claim provokes international outcry. Nature, 563(7733), 607–608.
- Kevles, D. J. (1985). In the Name of Eugenics: Genetics and the Uses of Human Heredity. Harvard University Press.
- Patterson, F. (2000). The Great Ape Project: Equality Beyond Humanity. St. Martin’s Press.
- Soyfer, V. N. (2001). Lysenko and the Tragedy of Soviet Science. Rutgers University Press.
- Weiner, J. S. (1955). The Piltdown Forgery. Oxford University Press.
- Ethics Quotes – Today In Science History

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