Chuva-de-ouro, uma estratégia sofisticada
Chuva-de-ouro (Cassia fistula): Pesquisadores do JBRJ descobrem estratégia sofisticada da planta para atrair abelhas e se perpetuar.
Chuva-de-ouro, uma estratégia sofisticada para atrair abelhas
11/11/2021 :: Por Josué Fontana
Árvore da família das fabáceas que chama a atenção pelos fartos cachos de flores amarelas, a chuva-de-ouro (Cassia fistula) tem origem no Sudeste da Ásia.
A C. fistula também é bem conhecida por diversos usos na medicina tradicional ayurvédica. Agora, uma equipe de biólogos brasileiros descobriu que a planta desenvolveu uma elaborada estratégia para se reproduzir.
Os botânicos observaram que as flores da planta apresentam três tamanhos de estames, as hastes com as anteras, produtoras do pólen. A diferença de tamanho sugeriu aos pesquisadores que esses estames poderiam ter funções diferentes.
Chuva-de-ouro só permite que abelha coma o pólen que não germina
De forma geral, os grãos de pólen servem para fecundar outras flores da mesma espécie, processo que leva à formação de frutos com sementes e ao nascimento de novas plantas. O pólen também alimenta alguns animais chamados polinizadores, como as abelhas, que transportam involuntariamente, de uma planta a outra, os grãos que ficam agarrados em seus corpos. Novas plantas são filhas da flor doadora de pólen e da que o recebeu por intermédio dos polinizadores.

Entre 1881 e 1883, os irmãos Müller levantaram a hipótese de estames diferentes produzirem pólen para diferentes propósitos: uma parte para garantir a reprodução e outros destinados à alimentação do transportador de pólen. Essa estratégia é conhecida como divisão de trabalho.
No caso da chuva-de-ouro, os pesquisadores fizeram vários experimentos para testar essa hipótese. Primeiro, eles verificaram que os estames intermediários são mais visíveis para seu principal polinizador, as abelhas mamangavas (Bombus sp.). Como as abelhas enxergam cores que não enxergamos, foram utilizados aparelhos que simulam a visão das mamangavas.
A Cassia fistula e as abelhas mamangavas
Quando os estames médios foram removidos, as abelhas quase não visitaram as flores, o que comprovou que esses estames são os visualmente mais atrativos. Eles funcionam como os sinalizadores das pistas de aeroporto para os aviões aterrissarem.
As mamangavas pousam e se agarram justamente nesses estames médios. Uma vez agarradas, elas vibram o tórax, fazendo com que milhares de polens saiam das anteras. Ao fazer isso, as abelhas ficam de costas para os estames grandes, que são pouco visíveis para elas. Os grãos de pólen dos estames grandes são depositados no dorso das abelhas e elas não podem comê-los, enquanto o pólen dos estames médios e pequenos fica preso à região peitoral e abdominal, onde elas conseguem comê-lo.
Quando a abelha pousa em outra planta da mesma espécie, o pólen depositado em seu dorso alcança exatamente a parte da flor que deve recebê-lo: o estigma, onde os grãos germinam e a fecundam.
Garantindo o transporte do pólen
Ao estudarem o conteúdo e a capacidade de germinar desses polens, os pesquisadores viram que só os grãos dos estames grandes têm capacidade de germinar, fecundar e formar sementes. O pólen dos estames médios e pequenos serve apenas para alimentação da abelha. Desta forma, a pesquisa revelou um exemplo de divisão do trabalho, uma importante estratégia da árvore para que os polinizadores voltem sempre a visitar suas flores, garantindo o transporte do pólen para a sua reprodução.
A aluna de iniciação científica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e graduanda do curso de Farmácia da UFRJ Gabriella da Silva Saab, orientada pelos pesquisadores Juliana Villela Paulino (UFRJ) e Vidal de Freitas Mansano (JBRJ), conduziu o estudo, que foi publicado na renomada revista britânica AoBPlants, da Universidade de Oxford. Esse trabalho foi multidisciplinar e teve também participação dos pesquisadores Anselmo Nogueira e Isabele Carvalho Maia (UFABC) e Pedro Joaquim Bergamo (JBRJ).
Fontes e referências:
- A sophisticated case of division of labour in the trimorphic stamens of the Cassia fistula (Leguminosae) flower – (em inglês)
- Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro – jardim botânico situado no bairro do Jardim Botânico, na zona sul do município do Rio de Janeiro, no Brasil.