Mangaba
“Hũa das mais nobres frutas desta America he a Mangaba, de que se faz rica conserva, bem estimada, ainda fora de sua patria; […]”
– A. Rosário (1702), em Frutas do Brasil III.
Mangaba
Hancornia speciosa Gomez
Família Apocynaceae, mesma da alamanda, velame-branco, tiborna e guatambu.
de Fernando Tatagiba * :: Além da variedade típica da mangabeira, no Cerrado também ocorre Hancornia speciosa Gomez var. pubescens (Nees & Mart.) Müll. Arg.

Árvore de ocorrência nos estados do Cerrado, Caatinga e litoral nordestino, podendo alcançar até 10 metros de altura, com tronco áspero, ramos lisos, avermelhados, com látex branco abundante. Suas folhas são opostas, simples, medindo entre 5 a 6 x 2cm. Suas belas flores alvas e saborosos frutos conferem valor ornamental à espécie, ideal para a arborização urbana e rural.
“Em que afundamos num cerrado de mangabal, indo sem volvência, até perto de hora do almoço. Mas o terreno aumentava de soltado. E as árvores iam se baixando menorzinhas, arregaçavam saia no chão. De vir lá, só algum tatú, por mel e mangaba. Depois, se acabavam as mangabaranas e mangabeirinhas. Ali onde o campo larguêia.” – GSV pg.47
No bioma Cerrado, assim como em outras regiões, ocorre em agrupamentos naturais, facilitando ações de extrativismo e conservação.
“O mesmo socede com as Mangabeyras, arvores que dispostas pela natureza em terreno de huã, duas, e mais legoas, parece um pomar bem concertado pela arte. […]” D.L. Couto (1757), em Glórias de Pernambuco.

Importância e aproveitamento da mangaba
É empregada como medicinal e na fabricação de doces, sorvetes, geléias e licores, tanto artesanais como industriais, sendo uma das espécies nativas de importância para o fomento de uma economia baseada na utilização e conservação de recursos naturais do Cerrado.
Tradicionalmente, seus frutos são colhidos no chão, após caírem naturalmente do pé, sinal de que estão bem maduras.
“Ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo…” – GSV pg.33.

O relatório técnico de Planejamento para Conservação de Áreas do Parque Estadual do Jalapão (Tocantins), realizado pela TNC-Brasil (The Nature Conservancy, 2008), inclui a mangaba entre os alvos para conservação, estando entre as espécies vegetais mais utilizadas pela comunidade do Jalapão, juntamente com capim-dourado, buriti, jatobá, pequi, cajuzinho, buritirana, puçá e piaçaba.
Na região de Balças (MA) a mangaba integra uma lista de espécies indicadas para o aproveitamento econômico de reservas legais de propriedades rurais do Cerrado (Aquino et al. 2007).
Entre 14 possíveis formas de utilização, são atribuídas quatro para a mangaba: melífera, alimentícia, medicinal e alimentícia para a fauna silvestre. Pesquisa no Mato Grosso constatou sementes da mangaba em nove meses do ano, nas fezes da raposinha-do-campo, o menor canídeo das américas (Dalponte e Lima, 1999).
Importância econômica da Mangaba
No norte de Minas Gerais, região do Grande Sertão, a polpa da mangaba, bem como de outras espécies nativas, é comercializada por produtores e cooperativas rurais.
Os produtos do Cerrado são um importante componente da economia local, contribuindo na renda de milhares de famílias, como as 1500 congregadas na Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativista Grande Sertão (MG), de Montes Claros (grandesertao@caa.org.br). Na bela pesquisa de Ricardo Ribeiro (2006), a mangaba é citada entres as plantas do Cerrado utilizadas nas regiões do Triângulo Mineiro e no vale do Jequitinhonha.
No âmbito das Cadeias de Produtos da Sociobiodiversidade, a mangaba está entre as cadeias mais expressivas dos Biomas Cerrado e Pantanal, segundo os seguintes critérios: Significância social, Importância econômica, Relevância ambiental, Representatividade territorial, Inserção em políticas já existentes (Brasil, 2008).

Na região litorânea do Sergipe a mangaba tem o valor estável em R$ 1,00 a R$ 1,20 o quilo para o produtor e em torno de R$ 3,00 o quilo do fruto in natura nos supermercados, preço este que geralmente é superior ao da maçã e da uva, importadas de outros estados. No Sergipe, mudas e sementes de mangaba podem ser adquiridas no Viveiro das Mangabeiras.
Reprodução e cultivo da mangaba
Sua reprodução pode ser feita por meio de sementes ou pelo método de enxertia (Junqueira et al. 2002). Segundo o agrônomo Josué Silva Júnior, da Embrapa, um dos segredos para a produção da muda de mangaba é que as sementes não devem secar.
Pode-se colocá-las em uma sombra, sobre uma folha de papel, de um a quatro dias, sem deixar que elas sequem. Elas devem ser semeadas ainda úmidas. Se secar, a semente de mangaba não germina. Suas mudas apresentam melhor desenvolvimento em solos ácidos (pH entre 5,2 a 5,5), enquanto que em solos mais neutros o crescimento torna-se mais reduzido (Rosa et al. 2005).
Processada ou ao natural, a mangaba é uma das frutas brasileiras que o brasileiro não pode deixar de conhecer. Quando encontrar uma mangabeira carregada, saboreie, mas verifique se alguém chegou antes de você (Figura. 05). Parafraseando Ataulfo Alves: “Mangaba madura na beira da estrada, tá bichada Zé, ou tem marimbondo no pé…”.
Bibliografia consultada:
- Almeida, S.P.; Proença, C.E.B.; Sano, S.M.; Ribeiro, J.F. , 1998. Cerrado: espécies vegetais úteis. Planaltina: EMPRAPA-CEPAC.
- Aquino, F. de G.; Walter, B. M. T. e Ribeiro, J. F.; 2007. Espécies Vegetais de Uso Múltiplo em Reservas Legais de Cerrado – Balsas, MA. Revista Brasileira de Biociências, Porto Alegre, v. 5, supl. 1, p. 147-149, jul. 2007.
- Brasil, 2008. Cadeias de Produtos da Sociobiodiversidade: Agregação de Valor e Consolidação de Mercados Sustentáveis – Subsídios para a Formulação de Politicas Públicas – Resultados dos Seminários Regionais.
- Cunha, Antônio Geraldo da, 1924. Dicionário Histórico das palavras portuguesas de origem tupi / Antônio Geraldo da Cunha; prefácio-estudo de Antônio Houaiss. 4 ed. São Paulo: Companhia Melhoramentos; Brasíla: Universidade de Brasília, 1998.
- Dalponte, J. C. e Lima, E. S., 1999. Disponibilidade de frutos e a dieta de Lycalopex vetulus (Carnivora – Canidae) em um cerrado de Mato Grosso, Brasil. Revta brasil. Bot., São Paulo, V.22, n.2(suplemento), p.325-332, out. 1999. http://www.scielo.br/pdf/rbb/v22s2/(2_s)a14.pdf (acesso em 25 de agosto de 2009).
- Pereira, E. B. C.; Pereira, A. V; Charchar, M. J. A.; Pacheco, A.; Junqueira, N. T. V.; Fialho, J. F. 2002. Enxertia de Mudas de Mangabeira. Documentos Embrapa, No. 65 alerta.cpac.embrapa.br/download/292/t (Acesso em 24 de agosto de 2009).
- Ribeiro, R. F. 2006. Sertão, lugar desertado – o Cerrado na cultura de Minas Gerais. Ed. Autêntica, Belo Horizonte. 376p.
- Rosa, J.G. 2006. Grande sertão: veredas. 1 ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira (Biblioteca do Estudante).
- Rosa, M. E. C. da; Naves, R. V.; Oliveira Júnior, J. P. de; 2005. Produção e Crescimento de Mudas de Mangabeira (Hancornia speciosa Gomez) em Diferentes Substratos. Pesquisa Agropecuária Tropical, Vol. 35, No2. http://www.revistas.ufg.br/index.php/pat/article/viewArticle/2252. (Acesso em 24 de agosto de 2009).
- Silva, D.B. da; et al., 2000. Frutas do Cerrado. Brasília: Emprapa Informação Tecnológica.
- Toda Fruta, 2008. Os segredos da mangaba. (acesso em 24 de agosto de 2009).
- The Nature Conservancy do Brasil – TNC, 2008. Relatório Técnico de Planejamento para Conservação de Áreas Parque Estadual do Jalapão. Mateiros – Tocantins. 27 e 28 de Maio de 2008.
Todas as fotografias são de Fernando Tatagiba, no Distrito Federal em fevereiro de 2007.
Fernando Tatagiba, Msc. tatagiba@biologo.com.br – Biólogo/botânico :: Plantas do Cerrado
* Artigo originalmente publicado no Biólogo em 26/8/2009