Mendel e o Nascimento da Genética
Mendel e o nascimento da Genética: a área biológica nasceu com os experimentos de Mendel no século XIX, ao cruzar ervilhas e observar padrões de herança. Embora suas ideias tenham sido inicialmente ignoradas, mais tarde elas se tornaram a base da biologia moderna, após serem redescobertas no início do século XX..

Mendel e o Nascimento da Genética
15/8/2025 :: Marco Pozzana, biólogo
No século XIX, a Europa vivia um período de profundas transformações. Enquanto a Revolução Industrial avançava, a ciência se diversificava e, ao mesmo tempo, novas ideias floresciam. Nesse contexto, um monge agostiniano, Gregor Johann Mendel, plantava sementes na história da ciência sem que ninguém notasse.

Nascido em 1822, na pequena localidade de Heinzendorf, no Império Austríaco, Mendel cresceu em meio à vida rural. Sua ligação com a natureza começou cedo, observando o cultivo de plantas e a criação de animais. Posteriormente, ainda jovem, ingressou no mosteiro de Brno, onde encontrou um ambiente propício à reflexão e à pesquisa.
Embora fosse monge, Mendel não se limitava aos estudos teológicos. Ele tinha grande interesse pela botânica e pela matemática, áreas que combinaria de forma inédita. Esse encontro entre números e plantas seria a base de uma revolução científica. No mosteiro, cultivou o hábito de registrar minuciosamente suas observações, característica que marcaria seu método.
“O trabalho de Mendel foi o início de uma nova era na biologia.”
– William Bateson, geneticista britânico
Além disso, buscou aprofundar seus conhecimentos na Universidade de Viena, onde teve contato com disciplinas de física, química e estatística. Essa formação diversificada preparou-o para formular um método experimental rigoroso, algo raro na biologia da época.

Experimentos com ervilhas e leis da hereditariedade
Entre 1856 e 1863, Mendel conduziu uma série de experimentos com Pisum sativum, a ervilha-de-cheiro. Ele, de forma inteligente, escolheu a espécie por apresentar características facilmente identificáveis, como cor e forma das sementes, além de um ciclo de vida relativamente curto. Assim, pôde acompanhar várias gerações em poucos anos, o que facilitou a análise dos padrões de herança.
“Mendel foi um gigante silencioso, cujas ideias transformaram nossa compreensão da vida.”
Richard Dawkins
Mendel cruzou plantas com características distintas e registrou cuidadosamente os resultados. Observou que certas características desapareciam em uma geração, mas reapareciam na seguinte. Com base nesses dados, formulou o que chamamos hoje de Primeira Lei de Mendel, ou Lei da Segregação, segundo a qual os fatores hereditários — mais tarde chamados genes — se separam durante a formação dos gametas.
Posteriormente, enunciou a Segunda Lei de Mendel, ou Lei da Distribuição Independente, que descreve como diferentes características são herdadas de forma independente, desde que não estejam ligadas no mesmo cromossomo.
“A simplicidade dos experimentos de Mendel esconde uma genialidade que moldou toda a biologia.”
– Barbara McClintock, vencedora do prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina de 1983
É importante destacar que, embora suas observações fossem claras, Mendel não conhecia a existência do DNA. O conceito de gene, cromossomo e molécula hereditária só viria décadas mais tarde. Mesmo assim, seu método combinava experimentação controlada, uso de grandes amostras e análise estatística. Essa abordagem científica diferenciada foi fundamental para a solidez de suas conclusões. Além disso, Mendel percebeu que a herança não se dava por mistura de características, como se pensava na época, mas sim por unidades discretas de informação, transmitidas de forma previsível.

Reconhecimento tardio e legado imortal
Apesar da precisão de seus experimentos, o trabalho de Mendel foi ignorado, como um todo, pela comunidade científica de sua época. Em 1866, publicou seus resultados no periódico Verhandlungen des naturforschenden Vereines in Brünn, mas o artigo recebeu pouca atenção. A biologia do século XIX ainda estava fortemente influenciada pela teoria da herança por mistura e pela ausência de conceitos claros sobre a reprodução celular.
Somente no início do século XX, mais de três décadas após sua morte, cientistas como Hugo de Vries, Carl Correns e Erich von Tschermak redescobriram seus estudos. Reconheceram então que Mendel havia estabelecido as bases de uma nova ciência: a Genética. Essa redescoberta coincidiu com o avanço da citologia, que identificou o papel dos cromossomos na hereditariedade. Com isso, as leis de Mendel se integraram ao conhecimento emergente sobre a divisão celular e a estrutura dos gametas.

“Os princípios de Mendel são a base da hereditariedade.”
– Carl Correns, um dos redescobridores das leis de Mendel
Hoje, o nome de Gregor Mendel está associado ao início de uma revolução no entendimento da vida. Seu trabalho abriu caminho para avanços como o mapeamento do genoma humano, a engenharia genética e a biotecnologia agrícola. Além disso, sua metodologia experimental continua a inspirar cientistas de diversas áreas, reforçando a importância do planejamento, método e do rigor na pesquisa.
Assim, Mendel deixou um legado que transcende a botânica. Ele nos ensinou que, ao observar atentamente a natureza e aplicar métodos sistemáticos, é possível desvendar leis universais. Em tempos de ciência acelerada, lembrar-se do paciente trabalho de um monge no jardim do mosteiro é também valorizar a essência da investigação científica. Por isso, Gregor Mendel não é apenas o “pai da Genética”. É um símbolo de como a curiosidade, aliada ao método, pode transformar a história do conhecimento humano.
Fontes e referências:
- Fairbanks, D. J., & Rytting, B. (2001). Mendelian controversies: A botanical and historical review. American Journal of Botany, 88(5), 737–752.
- Hartl, D. L., & Fairbanks, D. J. (2007). Genetics: Analysis of Genes and Genomes. Jones & Bartlett Learning. [PDF]
- Orel, V. (1996). Gregor Mendel: The First Geneticist. Oxford University Press.
- Olby, R. (1985). Origins of Mendelism. University of Chicago Press.

Descubra mais sobre Biólogo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.










Gosto muito dos seus textos e utilizei alguns em sala de aula com meus alunos do ensino médio (sempre dando os créditos à página), como estratégia de atualização de temas biológicos e aproximação da ciência com o mundo não acadêmico, já que, a linguagem é mais acessivel a quem não é da área. Parabéns!
Obrigado Alexsandra, pelo interesse e participação. Volte sempre!