Tudo sobre Mendel
Tudo sobre Mendel: Embora morto desde 1884, sua obra permanece mais viva do que em sua época, que não estava preparada para as descobertas revolucionárias do genial monge agostiniano.
Tudo sobre Mendel, um homem à frente do seu tempo

20/7/2025 :: Por Josué Fontana
Gregor Johann Mendel nasceu em 20 de julho de 1822, na pequena vila de Heinzendorf, localizada na região da Silésia Austríaca, hoje parte da República Tcheca. Desde muito jovem, demonstrou notável curiosidade intelectual. Observador atento da natureza, sentia-se especialmente atraído pela botânica. Contudo, não se limitava às plantas. Também cultivava interesse pela meteorologia, física, filosofia e matemática — áreas que mais tarde se mostrariam essenciais para seus experimentos.

Ao contrário de Charles Darwin, que pôde contar com apoio financeiro da família, Mendel enfrentou sérias limitações econômicas. Seu pai, camponês e veterano das guerras napoleônicas, não dispunha de recursos para custear uma formação superior. Diante disso, seus pais optaram por uma solução estratégica: inscrevê-lo no mosteiro agostiniano de Santo Tomás, em Brno. Essa decisão mudaria não apenas sua vida, mas a história da biologia.
“Mendel foi o primeiro a colocar a biologia em uma base quantitativa.”
— Thomas Hunt Morgan, Prêmio Nobel de Medicina
Biólogo, botânico, matemático, meteorologista, frade, professor de física, matemática e ciências

As ervilhas do jardim e a origem da genética
No mosteiro, Mendel encontrou um ambiente propício ao estudo. Ali havia uma biblioteca robusta, hortas experimentais, estufas bem cuidadas e contato com intelectuais interessados nas ciências naturais. Além disso, teve acesso a uma formação sólida em filosofia e teologia, o que ampliou sua capacidade analítica e seu rigor metodológico.
Mais tarde, foi enviado ao Instituto de Filosofia de Olomouc e, depois, à Universidade de Viena. Nessa última, entre 1851 e 1853, estudou física com Christian Doppler e botânica com Franz Unger, dois cientistas de renome. Doppler, por exemplo, formulou o famoso efeito que leva seu nome. Unger, por sua vez, era defensor da ideia de que processos naturais explicavam as origens das plantas — ideia ousada para a época.

Fortemente influenciado por esse ambiente científico, Mendel retornou ao mosteiro determinado a realizar seus próprios experimentos. Escolheu as ervilhas de jardim (Pisum sativum) como modelo. Não por acaso. As ervilhas tinham ciclos curtos, múltiplas variedades e características bem definidas, como cor e textura das sementes, cor das flores, forma das vagens e altura da planta. Além disso, podiam ser autofecundadas ou cruzadas manualmente, o que oferecia controle experimental.
Uma vida modesta, uma herança imortal
Durante oito anos, entre 1856 e 1863, Mendel cultivou e analisou cerca de 28 mil plantas. Anotava com minúcia os resultados de cada geração, usando cálculos estatísticos para entender os padrões de transmissão dos traços. Dessa forma, percebeu que certas características não se diluíam com o tempo, como propunha a teoria da herança por mistura, ainda popular em sua época.
Ao contrário, ele observou que as características eram transmitidas de forma discreta, em unidades que mais tarde seriam chamadas de genes. Desenvolveu assim três princípios fundamentais: o da segregação, o da dominância e o da distribuição independente. Em termos simples, deduziu que cada organismo possui dois fatores para cada característica, herdando um de cada genitor, e que esses fatores podem ser dominantes ou recessivos.

Em 1866, publicou suas conclusões no periódico da Sociedade de História Natural de Brno, sob o título Versuche über Pflanzen-Hybriden (“Experimentos com Híbridos de Plantas”). Mandou cópias para importantes cientistas da época, incluindo Karl Wilhelm von Nägeli, botânico renomado. Contudo, a recepção foi fria. A comunidade científica ainda estava profundamente influenciada pelas ideias de herança misturada e pela ausência de conhecimento sobre mecanismos celulares, como os cromossomos.
Durante os anos seguintes, Mendel não voltou a realizar grandes experimentos. Passou a se dedicar à vida administrativa como abade do mosteiro. Faleceu em 6 de janeiro de 1884, aos 61 anos, sem ter testemunhado o impacto revolucionário de seu trabalho.
A redescoberta, décadas depois
Somente em 1900, quase quatro décadas depois da publicação original, três cientistas — Hugo de Vries (Países Baixos), Carl Correns (Alemanha) e Erich von Tschermak (Áustria) — redescobriram de forma independente os mesmos princípios. Ao consultarem a literatura da época, encontraram os estudos de Mendel e reconheceram sua precedência. Assim, o monge de Brno foi finalmente alçado ao panteão dos grandes nomes da ciência.
“O trabalho de Mendel parece-me uma das investigações mais notáveis já feitas sobre hereditariedade, e é extraordinário que tenha sido esquecido.”
William Bateson escreve a Francis Galton, 1906
O redescobrimento de Mendel ocorreu em um momento decisivo para a biologia. A teoria da evolução de Darwin, formulada em 1859, carecia de um mecanismo confiável para explicar a hereditariedade. A genética mendeliana forneceu esse suporte. Décadas depois, os trabalhos de Thomas Hunt Morgan com a mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster) confirmariam a existência dos genes nos cromossomos, consolidando a genética como disciplina central.

Na década de 1930, o surgimento da síntese moderna da evolução — que uniu a genética mendeliana à seleção natural — finalmente colocou Mendel no centro da biologia evolutiva. Como ressaltaram Dobzhansky (1937) e Mayr (1942), sem os fundamentos mendelianos, a evolução permaneceria incompleta.
Hoje, a influência de Mendel se estende a múltiplas áreas da ciência: biotecnologia, medicina genética, agricultura e biologia molecular. O Projeto Genoma Humano, iniciado em 1990 e concluído em 2003, deve muito aos primeiros passos dados por ele. Sua obra não só abriu caminhos, mas também moldou toda a arquitetura conceitual da hereditariedade moderna.
Gregor Mendel não viveu para ver seu nome nos livros de história. Mas sua paciência, seu rigor e sua fé na observação cuidadosa foram sementes lançadas em solo fértil. E, como nas ervilhas que cultivou com devoção, seu legado floresceu, iluminando o caminho da ciência genética.

Especial Gregor Mendel
Abaixo, segue uma compilação com os principais artigos e links que você precisa para entender a obra do cientista que não teve o devido reconhecimento em seu tempo.

♣ Gregor Johann Mendel (1822 – 1884) – Introdução e biografia resumida do mestre da genética, que durante sua vida, publicou dois grandes trabalhos, agora clássicos: “Ensaios com plantas híbridas”, com menos de trinta páginas impressas, e “Hierácias obtidas pela fecundação artificial”.
♣ Mendel e o Nascimento da Genética – Esta ciência começou com os experimentos do sr. Gregor: “O trabalho de Mendel foi o início de uma nova era na biologia.” – William Bateson, geneticista.
♣ O Legado de Mendel – O cientista passara sete anos cultivando quase 30 mil plantas de ervilha, cujas partes reprodutivas ele dissecava minuciosamente para obter os cruzamentos controlados que lhe permitiriam entender como características simples, como cor das flores e formato das sementes, eram transmitidas de uma geração a outra. Entenda a importância de sua obra.

♣ Documentário Mendel e a ervilha – Neste vídeo você confere um especial sobre a vida e obra do pai da genética. O documentário faz parte da série “Os seis experimentos que mudaram o mundo”. O filme é dublado em português e mostra o início na vida dele onde nasceu e foi criado, na aldeia de Heinzendorf, em um distrito agrícola na Checoslováquia, no império Austro-húngaro, na atual República Tcheca.
♣ O erro de Mendel – Reconhecemos hoje Mendel como o “pai da genética”, o gênio incompreendido de sua época que, sem saber, criou um campo novo das ciências mas não teve seu trabalho reconhecido em seu tempo. Por quê?. Onde teria errado? Essa é a proposta deste bem humorado vídeo. Ao repassar os principais acontecimentos da vida do cientista, o autor provoca o expectador a fazer uma análise.
Leis de Mendel

♣ Primeira Lei de Mendel – O genial monge agostiniano conseguiu com sua notável capacidade de observação e análise estabelecer regras, ou “leis”, que ainda regem bases da genética e da transmissão hereditária. Segue aqui uma explicação da que é conhecida como a sua primeira lei, ou Princípio da Segregação dos Caracteres (ou Lei da Segregação).
♣ 2ª Lei de Mendel – Em suas experiências com ervilhas, Mendel realizou cruzamentos nos quais acompanhou a segregação de dois genes. Esse estudo formou a base da sua descoberta conhecida como Lei da Segregação Independente ou Segunda Lei de Mendel.
Links e referências:
- Hartl, D. L. (2011). Genetics: Analysis of Genes and Genomes. Jones & Bartlett Learning.
- Henig, R. M. (2000). The Monk in the Garden: The Lost and Found Genius of Gregor Mendel, the Father of Genetics. Houghton Mifflin.
- Olby, R. (1985). Origins of Mendelism. University of Chicago Press.
- Dobzhansky, T. (1937). Genetics and the Origin of Species. Columbia University Press.
- Mayr, E. (1982). The Growth of Biological Thought: Diversity, Evolution, and Inheritance. Harvard University Press.
- Radick, G. (2022). Disputed Inheritance: The Battle over Mendel and the Future of Biology. University of Chicago Press.

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